Memrias Pstumas de Brs Cubas
Machado de Assis
AO LEITOR
QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa 
que admira e consterna. O que no admira, nem provavelmente consternar  se este outro
livro no tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqenta, nem vinte, e quando muito, dez.
Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brs Cubas, se
adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, no sei se lhe meti algumas
rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta
da melancolia, e no  difcil antever o que poder sair desse conbio. Acresce que a gente
grave achar no livro umas aparncias de puro romance, ao passo que a gente frvola no
achar nele o seu romance usual, ei-lo a fica privado da estima dos graves e do amor dos
frvolos, que so as duas colunas mximas da opinio.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinio, e o primeiro remdio  fugir a um
prlogo explcito e longo. O melhor prlogo  o que contm menos cousas, ou o que as diz
de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinrio
que empreguei na composio destas Memrias, trabalhadas c no outro mundo. Seria
curioso, mas nimiamente extenso, e alis desnecessrio ao entendimento da obra. A obra em
si mesma  tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te no agradar, pago-te com
um piparote, e adeus.
Brs Cubas
CAPTULO PRIMEIRO /BITO DO AUTOR
ALGUM TEMPO hesitei se devia abrir estas memrias pelo princpio ou pelo fim, isto , se
poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja
comear pelo nascimento, duas consideraes me levaram a adotar diferente mtodo: a
primeira  que eu no sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem
a campa foi outro bero; a segunda  que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.
Moiss, que tambm contou a sua morte, no a ps no intrito, mas no cabo: diferena
radical entre este livro e o Pentateuco.
Dito isto, expirei s duas horas da tarde de uma sexta-feira do ms de agosto de 1869, na
minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prsperos, era
solteiro, possua cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio por onze amigos.
Onze amigos! Verdade  que no houve cartas nem anncios. Acresce que chovia --
peneirava uma chuvinha mida, triste e constante, to constante e to triste, que levou um
daqueles fiis da ltima hora a intercalar esta engenhosa idia no discurso que proferi. 
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beira de minha cova: "Vs, que o conhecestes, meus senhores vs podeis dizer comigo que a
natureza parece estar chorando a perda irreparvel de um dos mais belos caracteres que tm
honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do cu, aquelas nuvens escuras que
cobrem o azul como um crepe funreo, tudo isso  a dor crua e m que lhe ri  natureza as
mais ntimas entranhas; tudo isso  um sublime louvor ao nosso ilustre finado."
Bom e fiel amigo! No, no me arrependo das vinte aplices que lhe deixei. E foi assim que
cheguei  clusula dos meus dias; foi assim que me encaminhei para o undiscovered country
de Hamlet, sem as nsias nem as dvidas do moo prncipe, mas pausado e trpego como
quem se retira tarde do espetculo. Tarde e aborrecido. Viram-me ir umas nove ou dez
pessoas, entre elas trs senhoras, ; minha irm Sabina, casada com o Cotrim, a filha, um lrio
do vale,--e. . . Tenham pacincia! daqui a pouco lhes direi quem era a terceira senhora.
Contentem-se de saber que essa annima, ainda que no parenta, padeceu mais do que as
parentas.  verdade padeceu mais. No digo que se carpisse, no digo que se deixasse rolar
pelo cho, convulsa. Nem o meu bito era cousa altamente dramtica... Um solteiro que
expira aos sessenta e quatro anos, no parece que rena em si todos os elementos de uma
tragdia. E dado que sim, o que menos convinha a essa annima era aparent-lo. De p, 
cabeceira da cama, com os olhos estpidos, a boca entreaberta, a triste senhora mal podia
crer na minha extino.
"Morto! morto!" dizia consigo.
E a imaginao dela, como as cegonhas que um ilustre viajante viu desferirem o vo desde o
Ilisso s ribas africanas, sem embargo das runas e dos tempos, -- a imaginao dessa
senhora tambm voou por sobre os destroos presentes at s ribas de uma frica juvenil...
Deix-la ir; l iremos mais tarde; l iremos quando e me restituir aos primeiros anos. Agora,
quero morrer tranqilamente metodicamente, ouvindo os soluos das damas, as falas baixas
dos homens, a chuva que tamborila nas folhas de tinhoro da chcara, e o som estrdulo de
uma navalha que um amolador est afiando l fora,  porta de um correeiro. Juro-lhes que
essa orquestra da morte foi muito menos triste do que podia parecer. De certo ponto em
diante chegou a ser deliciosa. A vida estrebuchava-me no peito, com uns mpetos de vaga
marinha, esvaa-se-me a conscincia, eu descia  imobilidade fsica e moral, e o corpo
fazia-se-me planta, e pedra e lodo, e cousa nenhuma.
Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idia
grandiosa e til, a causa da minha morte,  possvel que o leitor me no creia, e todavia 
verdade. Vou expor-lhe sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.
CAPTULO II / O EMPLASTO
COM EFEITO, um dia de manh, estando a passear na chcara? pendurou-se-me uma idia
no trapzio que eu tinha no crebro. Uma vez pendurada, e das cabriolas de contempl-la.
Sbito, deu um grande salto, estendeu os braos e as pernas, at tomar a forma de um X:
decifra-me ou devoro-te.
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Essa idia era nada menos que a inveno de um medicamento sublime, um emplastro
anti-hipocondraco, destinado a aliviar a nossa melanclica humanidade. Na petio de
privilgio que ento redigi, chamei a ateno do governo para esse resultado,
verdadeiramente cristo. Todavia, no neguei aos amigos as vantagens: pecunirias que
deviam resultar da distribuio de um produto de tamanhos e to profundos efeitos. Agora,
porm, que estou c do outro lado da vida, posso confessar tudo: o que me influiu
principalmente foi o gosto de ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e
enfim nas caixinhas do remdio, estas trs palavras: Emplasto Brs Cubas. Para que
neg-lo? Eu tinha a paixo do rudo, do cartaz do foguete de lgrimas. Talvez os modestos
me argam esse defeito fio, porm, que esse talento me ho de reconhecer os hbeis. Assim
a minha idia trazia duas faces, como as medalhas, uma virada para o pblico, outra para
mim. De um lado, filantropia e lucro, de outro lado, sede de nomeada. Digamos: --amor da
glria.
Um tio meu, cnego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glria temporal era
a perdio das almas, que s devem cobiar a glria eterna. Ao que retorquia outro tio,
oficial de um dos antigos teros de infantaria, que o amor da glria era a cousa mais
verdadeiramente humana que h no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuna
feio.
Decida o leitor entre o militar e o cnego; eu volto ao emplasto.
CAPTULO III / GENEALOGIA
MAS, J QUE FALEI nos meus dous tios, deixem-me fazer aqui um curto esboo
genealgico.
O fundador da minha famlia foi um certo Damio Cubas, que floresceu na primeira metade
do sculo XVIII. Era tanoeiro de oficio, natural do Rio de Janeiro, onde teria morrido na
penria e na obscuridade, se somente exercesse a tanoaria. Mas no; fez-se lavrador,
plantou, colheu, permutou o seu produto por boas e honradas patacas, at que morreu,
deixando grosso cabedal a um filho licenciado Lus Cubas. Neste rapaz  que
verdadeiramente comea a srie de meus avs--dos avs que a minha famlia sempre
confessou,-- porque o Damio Cubas era afinal de contas um tanoeiro e talvez mau tanoeiro,
ao passo que o Lus Cubas estudou em Coimbra, primou no Estado, e foi um dos amigos
particulares do vice-rei Conde da Cunha.
Como este apelido de Cubas lhe cheirasse excessivamente a tanoaria, alegava meu pai,
bisneto de Damio, que o dito apelido fora dado a um cavaleiro, heri nas jornadas da
frica, em prmio da faanha que praticou, arrebatando trezentas cubas aos mouros. Meu
pai era homem de imaginao; escapou  tanoaria nas asas de um ca1embour. Era um bom
carter, meu pai, varo digno e leal como poucos. Tinha,  verdade, uns fumos de pacholice;
mas quem no  um pouco pachola nesse mundo? Releva notar que ele no recorreu 
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inventiva seno depois de experimentar a falsificao; primeiramente, entroncou-se na
famlia daquele meu famoso homnimo, o Capito-mor, Brs Cubas, que fundou a vila de S.
Vicenten onde morreu em 1592, e por esse motivo e que me deu o nome de Brs.
Ops-se-lhe, porm, a famlia do capito-mor, e foi ento que ele imaginou as trezentas
cubas mouriscas.
Vivem ainda alguns membros de minha famlia, minha sobrinha Venncia, por exemplo, o
lrio do vale, que  a flor das damas do seu tempo; vive o pai, o Cotrim, um sujeito que...
Mas no antecipemos os sucessos; acabemos de uma vez com o nosso emplasto.
CAPTULO IV / A IDIA FIXA
A MINHA IDIA, depois de tantas cabriolas, constitura-se idia fixa. Deus te livre, leitor,
de uma idia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho. V o Cavour; foi a idia fixa
da unidade italiana que o matou. Verdade  que Bismarck no morreu; mas cumpre advertir
que a natureza  uma grande caprichosa e a histria uma eterna loureira. Por exemplo,
Suetnio deu-nos um Cludio, que era um simplrio, ou "uma abbora" como lhe chamou
Sneca, e um Tito, que mereceu ser as delcias de Roma. Veio modernamente um professor
e achou meio de demonstrar que dos dois csares, o delicioso, o verdadeiro delicioso, foi o
"abboras' de Sneca. E tu, madama Lucrcia, flor dos Brgias, se um poeta te pintou como
a Messalina catlica, apareceu um Gregorovius incrdulo que te apagou muito essa
qualidade, e, se no vieste a lrio, tambm no ficaste pntano. Eu deixo-me estar entre o
poeta e o sbio.
Viva pois a histria, a volvel histria que d para tudo; e, tornando  idia fixa, direi que 
ela a que faz os vares fortes e os doudos; a idia mbil, vaga ou furta-cor  a que faz os
Cludios,-- frmula Suetnio.
Era fixa a minha idia, fixa como... No me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo:
talvez a Lua, talvez as pirmides do Egito, talvez a finada dieta germnica. Veja o leitor a
comparao que melhor lhe quadrar, veja-a e no esteja da a torcer-me o nariz, s porque
ainda no chegamos  parte narrativa destas memrias. L iremos. Creio que prefere a
anedota  reflexo, como os outros leitores, seus confrades, e acho que faz muito bem. Pois
l iremos. Todavia, importa dizer que este livro  escrito com pachorra, com a pachorra de
um homem j desafrontado da brevidade do sculo obra supinamente filosfica, de uma
filosofia desigual, agora austera logo brincalhona, cousa que no edifica nem destri, no
inflama nem regala, e  todavia mais do que passatempo e menos do que apostolado.
Vamos l; retifique o seu nariz, e tornemos ao emplasto. Deixemos a histria com os seus
caprichos de dama elegante. Nenhum de ns pelejou a batalha de Salamina, nenhum
escreveu a confisso de Augsburgo; pela minha parte; se alguma vez me lembro de
Cromwell,  s pela idia de que Sua Alteza, com a mesma mo que trancara o parlamento,
teria imposto aos ingleses o emplasto Brs Cubas. No se riam dessa vitria comum da
farmcia e do puritanismo. Quem no sabe que ao p de cada bandeira grande, pblica,
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ostensiva, h muitas vezes vrias outras bandeiras modestamente particulares, que se
hasteiam e flutuam  sombra daquela, e no poucas vezes lhe sobrevivem? Mal comparando,
 como a arraia-mida, que se acolhia  sombra do castelo feudal; caiu este e a arraia ficou.
Verdade  que se fez grada e castel... No, a comparao no presta.
CAPTULO V / EM QUE APARECE A ORELHA DE UMA SENHORA
SENO QUANDO, estando eu ocupado em preparar e apurar a minha inveno, recebi em
cheio um golpe de ar; adoeci logo, e no me tratei. Tinha o emplasto no crebro; trazia
comigo a idia fixa dos doudos e dos fortes. Via-me, ao longe, ascender do cho das turbas,
e remontar ao cu, como uma guia imortal, e no  diante de to excelso espetculo que um
homem pode sentir a dor que o punge. No outro dia estava pior; tratei-me enfim, mas
incompletamente sem mtodo, nem cuidado, nem persistncia; tal foi a origem do mal que
me trouxe  eternidade. Sabem j que morri numa sexta-feira, dia aziago, e creio haver
provado que foi a minha inveno que me matou. H demonstraes menos lcidas e no
menos triunfantes.
No era impossvel, entretanto, que eu chegasse a galgar o cimo de um sculo, e a figurar
nas folhas pblicas, entre macrbios. Tinha sade e robustez. Suponha-se que, em vez de
estar lanando os alicerces de uma inveno farmacutica, tratava de coligir os elementos de
uma instituio poltica, ou de uma reforma religiosa. Vinha a corrente de ar, que vence em
eficcia o clculo humano, e l se ia tudo. Assim corre a sorte dos homens.
Com esta reflexo me despedi eu da mulher, no direi mais discreta, mas com certeza mais
formosa entre as contemporneas suas, a annima do primeiro captulo, a tal, cuja
imaginao  semelhana das cegonhas do Ilisso. . . Tinha ento 54 anos, era uma runa,
uma imponente runa. Imagine o leitor que nos amamos, ela e eu, muitos anos antes, e que
um dia. j enfermo, vejo-a assomar  porta da alcova . . .
CAPTULO VI / CHIMNE, QUI L'ET DIT? RODRIGUE, QUI L'ET CRU?
VEJO-A ASSOMAR  porta da alcova, plida, comovida, trajada de preto, e ali ficar
durante um minuto, sem animo de entrar, ou detida pela presena de um homem que estava
comigo. Da cama, onde jazia, contemplei-a durante esse tempo, esquecido de lhe dizer nada
ou de fazer nenhum gesto. Havia j dous anos que nos no vamos e eu via-a agora no qual
era, mas qual fora, quais framos ambos porque um Ezequias misterioso fizera recuar o sol
at os dias juvenis. Recuou o sol, sacudi todas as misrias, e este punhado de p, que a
morte ia espalhar na eternidade do nada, pde mais do que o tempo, que  o ministro da
morte. Nenhuma gua de Juventa igualaria ali a simples saudade.
Creiam-me, o menos mau  recordar; ningum se fie da felicidade presente; h nela uma
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gota da baba de Caim. Corrido o tempo e cessado o espasmo, ento sim, ento talvez se
pode gozar deveras. porque entre uma e outra dessas duas iluses, melhor  a que se gosta
sem doer.
No durou muito a evocao; a realidade dominou logo; o presente expeliu o passado.
Talvez eu exponha ao leitor, em algum canto deste livro, a mina teoria das edies humanas.
O que por agora importa saber  que Virglia -- entrou na alcova, firme, com a gravidade
que lhe davam as roupas e os anos, e veio at o meu leito. O estranho levantou-se e saiu. Era
um sujeito, que me visitava todos os dias para falar do cmbio, da colonizao e da
necessidade de desenvolver a viao frrea; nada mais interessante para um moribundo.
Saiu; Virglia deixou-se estar de p; durante algum tempo ficamos a olhar um para o outro,
sem articular palavra. Quem diria? De dous grandes namorados, de duas paixes sem freio,
nada mais havia ali, vinte anos depois; havia apenas dous coraes murchos, devastados
pela vida e saciados dela, no sei se em igual dose, mas enfim saciados. Virglia tinha agora
a beleza da velhice, um ar austero e maternal; estava menos magra do que quando a vi, pela
ltima vez, numa festa de S. Joo, na Tijuca; e porque era das que resistem muito, s agora
comeavam os cabelos escuros a intercalar-se com alguns fios de prata.
-- Anda visitando os defuntos? Disse-lhe eu. -- Ora, defuntos! Respondeu Virglia com um
muxoxo. E depois de me apertar as mos:
-- Ando a ver se ponho os vadios para a rua.
No tinha a carcia lacrimosa de outro tempo; mas a voz era amiga e doce. Sentou-se. Eu
estava s, em casa, com um simples enfermeiro; podamos falar um ao outro, sem perigo.
Virglia deu-me longas notcias de fora, narrando-as com graa, com um certo travo de m
lngua, que era o sal da palestra; eu, prestes a deixar o mundo, sentia um prazer satnico em
mofar dele, em persuadir-me que no deixava nada.
-- Olhe que no volto mais. Morrer! Todos ns havemos de morrer; basta estarmos vivos.
E vendo o relgio:
-- Jesus! So trs horas. Vou-me embora.
--J?
--J; virei amanh ou depois.
--No sei se faz bem, retorqui; o doente  um solteiro e a casa no tem senhoras...
-- Sua mana?
-- H de vir c passar uns dias, mas no pode ser antes de sbado.
Virglia refletiu um instante, levantou os ombros e disse com gravidade:
--Estou velha! Ningum mais repara em mim. Mas, para cortar dvidas, virei com o
Nhonh.
Nhonh era um bacharel, nico filho de seu casamento, que, na idade de cinco anos, fora
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cmplice inconsciente de nossos amores. Vieram juntos, dous dias depois, e confesso que,
ao v-los ali, na minha alcova, fui tomado de um acanhamento que nem me permitiu
corresponder logo s palavras afveis do rapaz. Virglia adivinhou-me e disse ao filho:
-- Nhonh, no repares nesse grande manhoso que a est; no quer falar para fazer crer que
est  morte.
Sorriu o filho, eu creio que tambm sorri, e tudo acabou em pura galhofa. Virglia estava
serena e risonha, tinha o aspecto das vidas imaculadas. Nenhum olhar suspeito, nenhum
gesto que pudesse denunciar nada; uma igualdade de palavra e de esprito, uma dominao
sobre si mesma, que pareciam e talvez fossem raras. Como tocssemos, castalmente, nuns
amores ilegtimos, meio secretos, meio divulgados, vi-a falar com desdm e um pouco de
indignao da mulher de que se tratava, alis sua amiga. O filho sentia-se satisfeito, ouvindo
aquela palavra digna e forte, e eu perguntava a mim mesmo o que diriam de ns os gavies,
se Buffon tivesse nascido gavio...
Era o meu delrio que comeava.
CAPTULO VII / O DELRIO
QUE ME CONSTE, ainda ningum relatou o seu prprio delrio; fao-o eu, e a cincia mo
agradecer. Se o leitor no  dado  contemplao destes fenmenos mentais pode saltar o
captulo; v direito  narrao. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que 
interessante saber o que se passou na minha cabea durante uns vinte a trinta minutos.
Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chins, bojudo, destro, escanhoando um
mandarim, que me pagava o trabalho com belisces e confeitos: caprichos de mandarim.
Logo depois, senti-me transformado na Suma Teolgica de S. Toms, impressa num
volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; idia esta que me
deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas
mos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, algum as descruzava (Virglia
decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.
Ultimamente, restitudo  forma humana, vi chegar um hipoptamo, que me arrebatou.
Deixei-me ir, calado, no sei se por medo ou confiana; mas, dentro em pouco, a carreira de
tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrog-lo, e com alguma arte lhe disse que
a viagem me parecia sem destino.
-- Engana-se, replicou o animal, ns vamos  origem dos sculos. Insinuei que deveria ser
muitssimo longe; mas o hipoptamo no me entendeu ou no me ouviu, se  que no fingiu
uma dessas cousas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de
Aquiles ou da asna de Balao, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dous
quadrpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir  ventura.
J agora no se me d de confessar que sentia umas tais ou quais ccegas de curiosidade,
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por saber onde ficava a origem dos sculos, se era to misteriosa como a origem do Nilo, e
sobretudo se valia alguma cousa mais ou menos do que a consumao dos mesmos sculos:
reflexes de crebro enfermo. Como ia de olhos fechados, no via o caminho lembra-me s
que a sensao de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasio em que me
pareceu entrar na regio dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal
galopava numa plancia branca de neve, e vrios animais grandes e de neve. Tudo neve;
chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta:
--Onde estamos?
--J passamos o den.
-- Bem; paremos na tenda de Abrao.
--Mas se ns caminhamos para trs! Redargiu motejando a minha cavalgadura.
Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou e parecer-me enfadonha e extravagante, o frio
incmodo, a conduo violenta, e o resultado impalpvel. E depois -- cogitaes do enfermo
-- que chegssemos ao fim indicado, no era possvel que os sculos, irritados com lhes
devassem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser to seculares como eles.
Enquanto assim pensava, amos devorando caminho, e a plancie voava debaixo dos nossos
ps, at que o animal estacou, e pude olhar mais tranqilamente em torno de mim. Olhar
somente; nada vi, alm da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o prprio cu,
at ali azul. Talvez, a espaos, me parecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando
ao vento as suas largas folhas. O silncio daquela regio era igual ao do sepulcro: dissera-se
que a vida das cousas ficara estpida diante do homem.
Caiu do ar? Destacou-se da terra? no sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher
me apareceu ento, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a
vastido das formas selvticas, e tudo escapava  compreenso do olhar humano, porque os
contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez difano.
Estupefato, no disse nada, no cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum
tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delrio.
--Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua me e tua inimiga.
Ao ouvir esta ltima palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma
gargalhada, que produziu em torno de ns o efeito de um tufo; as plantas torceram-se e um
longo gemido quebrou a mudez das cousas externas.
--No te assustes, disse ela, minha inimizade no mata;  sobretudo pela vida que se afirma.
Vives; no quero outro flagelo.
--Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mos, como para certificar-me da existncia.
--Sim, verme, tu vives. No receies perder andrajo que  teu orgulho; provars ainda, por
algumas horas, o po da dor e o vinho da misria. Vives: agora mesmo que ensandeceste,
vives; e se a tua conscincia reouver um instante de sagacidade, tu dirs que queres viver.
Dizendo isto, a viso estendeu o brao, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como
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se fora uma pluma. S ento pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais
quieto; nenhuma contoro violenta, nenhuma expresso de dio ou ferocidade; a feio
nica, geral, completa, era a da impassibilidade egosta, a da eterna surdez, a da vontade
imvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no corao. Ao mesmo tempo, nesse rosto
de expresso glacial, havia um ar de juventude, mescla de fora e vio, diante do qual me
sentia eu o mais dbil e decrpito dos seres.
Entendeste-me ? disse ela, no fim de algum tempo de mtua contemplao.
--No, respondi; nem quero entender-te; tu s absurda, tu s uma fbula. Estou sonhando,
decerto, ou, se  verdade, que enlouqueci, tu no passas de uma concepo de alienado, isto
, uma cousa v, que a razo ausente no pode reger nem palpar. Natureza tu? a Natureza
que eu conheo  s me e no inimiga; no faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse
rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?
--Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperana,
consolao dos homens. Tremes?
-- Sim; o teu olhar fascina-me.
-- Creio; eu no sou somente a vida; sou tambm a morte, e tu ests prestes a devolver-me o
que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.
Quando esta palavra ecoou, como um trovo, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o
ltimo som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposio sbita de mim
mesmo. Ento, encarei-a com olhos splices, e pedi mais alguns anos.
--Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e
seres devorado depois? No ests farto do espetculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o
que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia. a melancolia da tarde, a
quietao da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benefcio das minhas mos.
Que mais queres tu, sublime idiota?
--Viver somente, no te peo mais nada. Quem me ps no corao este amor da vida, seno
tu? e, se eu amo a vida, por que te hs de golpear a ti mesma, matando-me?
-- Porque j no preciso de ti. No importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que
vem. O minuto que vem  forte, jucundo supe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e
perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egosmo, dizes tu? Sim, egosmo, no tenho
outra lei. Egosmo, conservao. A ona mata o novilho porque o raciocnio da ona  que
ela deve viver, e se o novilho  tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.
Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes,
e contemplei, durante um tempo largo, ao longe atravs de um nevoeiro, uma cousa nica.
Imagina tu leitor, uma reduo dos sculos, e um desfilar de todos eles, as raas todas, todas
as paixes, o tumulto dos imprios, a guerra dos apetites e dos dios, a destruio recproca
dos seres e das cousas. Tal era o espetculo, acerbo e curioso espetculo. A histria do
homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe no podiam dar nem a imaginao
nem a cincia, porque a cincia  mais lenta e a imaginao mais vaga, enquanto que o que
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eu ali via era a condensao viva de todos os tempos. Para descrev-la seria preciso fixar o
relmpago. Os sculos desfilavam num turbilho, e, no obstante, porque os olhos do delrio
so outros, eu via tudo o que passava diante de mim,--flagelos e delcias, desde essa cousa
que se chama glria at essa outra que se chama misria, e via o amor multiplicando a
misria, e via a misria agravando a debilidade. A vinham a cobia que devora, a clera que
inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, midas de suor, e a ambio, a fome, a
vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho,
at destru-lo, como um farrapo. Eram as formas vrias de um mal, que ora mordia a vscera,
ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor
da espcie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia a indiferena, que era um sono sem
sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Ento o homem, flagelado e rebelde, corria
diante da fatalidade das cousas, atrs de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um
retalho de impalpvel, outro de improvvel, outro de invisvel, cosidos todos a ponto
precrio, com a agulha da imaginao; e essa figura, -- nada menos que a quimera da
felicidade, -- ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem e
cingia ao peito, e ento ela ria, como um escrnio, e sumia-se, como uma iluso.
Ao contemplar tanta calamidade, no pude reter um grito de angstia, que Natureza ou
Pandora escutou sem protestar nem rir; e no sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu
que me pus a rir, -- de um riso descompassado e idiota.
--Tens razo, disse eu, a cousa  divertida e vale a pena, -- talvez montona mas vale a pena.
Quando J amaldioava o dia em que fora concebido,  porque lhe davam ganas de ver c
de cima O espetculo. Vamos l, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a cousa  divertida?
mas digere-me.
A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os sculos que
continuavam a passar, velozes e turbulentos, as geraes que se superpunham s geraes,
umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cmodo, e
todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma fora misteriosa me retinha os ps;
ento disse comigo: "Bem, os sculos vo passando, chegar o meu, e passar tambm, at o
ltimo, que me dar a decifrao da eternidade." E fixei os olhos, e continuei a ver as idades
que vinham chegando e passando, j ento tranqilo e resoluto, no sei at se alegre. Talvez
alegre. Cada sculo trazia a sua poro de sombra e de luz, de apatia e de combate, de
verdade e de erro e o seu cortejo de sistemas, de idias novas, de novas iluses; cada um
deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoar mais
tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendrio, fazia-se a histria e a
civilizao, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construa o tugrio e o
palcio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a cincia, que perscruta, e a arte que
enleva, fazia orador, mecnico, filsofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra,
subia  esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a
necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distrado, viu
enfim chegar o sculo presente, e atrs deles os futuros. Aquele vinha gil, destro, vibrante!
cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo to miservel como os primeiros,
e assim passou e assim passaram os outros com a mesma rapidez e igual monotonia.
Redobrei de ateno; fitei a vistas ia enfim ver o ltimo, -- ltimo!; mas ento j a rapidez
da marcha era tal, que escapava a toda a compreenso; ao p dela o relmpago seria um
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sculo. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros
minguaram, outros perderam-se no ambiente, um nevoeiro cobriu tudo,-- menos o
hipoptamo que ali me trouxera, e que alis comeou a diminuir, a diminuir a diminuir, at
ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato
Sulto, que brincava  porta da alcova, com uma bola de papel...
CAPTULO VIII / RAZO CONTRA SANDICE
J O LEITOR compreendeu que era a Razo que voltava  casa, e convidava a Sandice a
sair, clamando, e com melhor jus, as palavras de Tartufo:
La maison est  moi, c'est  vous d'en sortir.
Mas  sestro antigo da Sandice criar amor s casas alheias, de modo que, apenas senhora de
uma, dificilmente lha faro despejar.  sestro; no se tira da; h muito que lhe calejou a
vergonha. Agora, se advertimos no imenso nmero de casas que ocupa, umas de vez. Outras
durante as suas estaes calmosas, concluiremos que esta amvel peregrina  o terror dos
proprietrios. No nosso caso, houve quase um distrbio  porta do meu crebro, porque a
adventcia no queria entregar a casa, e a dona no cedia da inteno de tomar o que era seu.
Afinal, j a Sandice se contentava com um cantinho no sto.
-- No, senhora replicou a Razo, estou cansada de lhe ceder stos, cansada e
experimentada, o que voc quer  passar mansamente do sto  sala de jantar, da  de
visitas e ao lesto.
--Est bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de um mistrio...
Que mistrio?
-- De dous, emendou a Sandice; o da vida e o da morte; peo-lhe s uns dez minutos.
A razo ps-se a rir.
-- Hs de ser sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa... sempre a mesma cousa...
E dizendo isto, travou-lhe dos pulsos e arrastou-a para fora; depois entrou e fechou-se. A
Sandice ainda gemeu algumas splicas, grunhiu algumas zangas; mas desenganou-se
depressa, deitou a lngua de fora, em ar de surriada, e foi andando...
CAPTULO IX / TRANSIO
E VEJAM AGORA com que destreza; com que arte fao eu a maior transio deste livro.
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Vejam: o meu delrio comeou em presena de Virglia; Virglia foi o meu gro pecado da
juventude; no h juventude sem meninice; meninice supe nascimento; e eis aqui como
chegamos ns, sem esforo, ao dia 20 de outubro de 18 05, em que nasci. Viram? Nenhuma
juntura aparente, nada que divirta a ateno pausada do leitor: nada. De modo que o livro
fica assim com todas as vantagens do mtodo, sem a rigidez do mtodo. Na verdade, era
tempo. Que isto de mtodo, sendo, como , uma cousa indispensvel, todavia  melhor t-lo
sem gravata nem suspensrios, mas um pouco  fresca e  solta, como quem no se lhe d
da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteiro.  como a eloquncia, que h uma
genuna e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e choca. Vamos
ao dia 20 de outubro.
CAPTULO X / NAQUELE DIA
NAQUELE DIA , a rvore dos Cubas brotou uma graciosa flor. Nasci; recebeu-me nos
braos a Pascoela, insigne parteira minhota, que se gabava de ter aberto a porta do mundo a
uma gerao inteira de fidalgos. No  impossvel que meu pai lhe ouvisse tal declarao;
creio, todavia, que o sentimento paterno  que o induziu a gratific-la com duas meias
dobras. Lavado e enfaixado, fui desde logo o heri da nossa casa. Cada qual prognosticava a
meu respeito o que mais lhe quadrava ao sabor. Meu tio Joo, o antigo oficial de infantaria?
achava-me um certo olhar de Bonaparte, cousa que meu pai no pode ouvir sem nuseas;
meu tio Ildefonso, ento simples padre, farejava-me cnego.
--Cnego  o que ele h de ser, e no digo mais por no parecer orgulho; mas no me
admiraria nada se Deus o destinasse a um bispado...  verdade, um bispado; no  cousa
impossvel. Que diz voc mano Bento?
Meu pai respondia a todos que eu seria o que Deus quisesse; e alava-me ao ar, como se
intentasse mostrar-me  cidade e ao mundo; perguntava a todos se eu me parecia com ele, se
era inteligente, bonito. . .
Digo essas cousas por alto, segundo as ouvi narrar anos depois; ignoro a mor parte dos
pormenores daquele famoso dia. Sei que a vizinhana veio ou mandou cumprimentar o
recm-nascido, e que durante as primeiras semanas muitas foram as visitas em nossa casa.
No houve cadeirinha que no trabalhasse; aventou-se muita casaca e muito calo. Se no
conto os mimos, os beijos, as admirao as bnos,  porque, se os contasse, no acabaria
mais o captulo e preciso acab-lo.
Item, no posso dizer nada do meu batizado, porque nada me referiram a tal respeito, a no
ser que foi uma das mais galhardas festas do ano seguinte, 1806; batizei-me na igreja de S.
Domingos, uma tera-feira de maro, dia claro, luminoso e puro, sendo padrinhos o Coronel
Rodrigues de Matos e sua senhora. Um e outro descendiam de velhas famlias do Norte e
honravam deveras o sangue que lhes corria nas veias, outrora derramado na guerra contra
Holanda. Cuido que os nomes de ambos foram das primeiras cousas que aprendi; e
certamente os dizia com muita graa, ou revelava algum talento precoce, porque no havia
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pessoa estranha diante de quem me no obrigassem a recit-los.
--Nhonh, diga a estes senhores como  que se chama seu padrinho.
-- Meu padrinho?  o Excelentssimo Senhor Coronel Paulo Vaz Lobo Csar de Andrade e
Sousa Rodrigues de Matos; minha madrinha  a Excelentssima Senhora D. Maria Lusa de
Macedo Resende e Sousa Rodrigues de Matos.
--  muito esperto o seu menino! exclamavam os ouvintes.
--Muito esperto, concordava meu pai, e os olhos babavam-se-lhe de orgulho, e ele
espalmava a mo sobre a minha cabea, fitava-me longo tempo, namorado, cheio de si.
Item, comecei a andar, no sei bem quando, mas antes do tempo. Talvez por apressar a
natureza, obrigavam-me cedo a agarrar s cadeiras, pegavam-me da fralda, davam-me
carrinhos de pau.--S s, nhonh, s s, dizia-me a mucama. E eu, atrado pelo chocalho de
lata, que minha me agitava diante de mim, l ia para a frente, cai aqui, cai acol; e andava,
provavelmente mal, mas andava, e fiquei andando.
CAPTULO XI / O MENINO  PAI DO HOMEM
CRESCI; e nisso  que a famlia no interveio; cresci naturalmente como crescem as
magnlias e os gatos. Talvez os gatos so menos matreiros, e com certeza, as magnlias so
menos inquietas de que eu era na minha infncia. Um poeta dizia que o menino  pai do
homem. Se isto  verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de "menino diabo"; e verdadeiramente no era
outra cousa; fui dos mais malignos do meu tempo, arguto, indiscreto, traquinas e
voluntarioso. Por exemplo, um dia quebrei a cabea de uma escrava, porque me negara uma
colher do doce de coco que estava fazendo, e, no contente com o malefcio, deitei um
punhado de cinza ao tacho, e, no satisfeito da travessura, fui dizer  minha me que a
escrava  que estragara o doce "por pirraa"; e eu tinha apenas seis anos. Prudncio, um
moleque de casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mos no cho, recebia um
cordel nos queixos,  guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mo,
fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia, -- algumas vezes gemendo, --
mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um --"ai, nhonh!" -- ao que eu
retorquia: --"Cala a boca, besta!" --Esconder os chapus das visitas, deitar rabos de papel a
pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar belisces nos braos das matronas, e
outras muitas faanhas deste jaez, eram mostras de um gnio indcil, mas devo crer que
eram tambm expresses de um esprito robusto, porque meu pai tinha-me em grande
admirao; e se s vezes me repreendia  vista de gente, fazia-o por simples formalidade:
em particular dava-me beijos.
No se conclua daqui que eu levasse todo o resto da minha vida a quebrar a cabea dos
outros nem a esconder-lhes os chapus; mas opinitico, egosta e algo contemptor dos
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homens, isso fui; se no passei o tempo a esconder-lhes os chapus, alguma vez lhes puxei
pelo rabicho das cabeleiras.
Outrossim, afeioei-me  contemplao da injustia humana, inclinei-me a atenu-la, a
explic-la a classifiquei-a por partes, a entend-la no segundo um padro rgido, mas ao
sabor das circunstncias e lugares. Minha me doutrinava-me a seu modo fazia-me decorar
alguns preceitos e oraes; mas eu sentia que, mais do que as oraes, me governavam os
nervos e o sangue, e a boa regra perdia o esprito, que a faz viver, para se tornar uma v
frmula. De manh, antes do mingau, e de noite, antes da cama, pedia a Deus que me
perdoasse, assim como eu perdoava aos meus devedores; mas entre a manh e a noite fazia
uma grande maldade, e meu pais passado o alvoroo, dava-me pancadinhas na cara, e
exclamava a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
Sim, meu pai adorava-me. Alinha me era uma senhora fraca, de pouco crebro e muito
corao, assaz crdula, sinceramente piedosa, --caseira, apesar de bonita, e modesta, apesar
de abastada; temente s trovoadas e ao marido. O marido era na Terra o seu deus. Da
colaborao dessas duas criaturas nasceu a minha educao, que, se tinha alguma cousa boa,
era no geral viciosa, incompleta, e, em partes, negativa. Meu tio cnego fazia s vezes
alguns reparos ao irmo dizia-lhe que ele me dava mais liberdade do que ensino, e mais
afeio do que emenda; mas meu pai respondia que aplicava na minha educao um sistema
inteiramente superior ao sistema usado; e por este modo, sem confundir o irmo, iludia-se a
si prprio.
De envolta com a transmisso e a educao, houve ainda o exemplo estranho, o meio
domstico. Vimos os pais; vejamos os tios. Um deles, o Joo, era um homem de lngua
solta, vida galante, conversa picaresca. Desde os onze anos entrou a admitir-me s anedotas
reais ou no, eivadas todas de obscenidade ou imundcie. No me respeitava a adolescncia,
como no respeitava a batina do irmo; com a diferena que este fugia logo que ele
enveredava por assunto escabroso. Eu no; deixava-me estar, sem entender nada, a
princpio, depois entendendo, e enfim achando-lhe graa. No fim de certo tempo, quem o
procurava era eu; e ele gostava muito de mim? Dava-me doces, levava-me a passeio. Em
casa, quando l ia passar alguns dias, no poucas vezes me aconteceu ach-lo, no fundo da
chcara, no lavadouro, a palestrar com as escravas que batiam roupa; a  que era um desfiar
de anedotas, de ditos, de perguntas, e um estalar de risadas, que ningum podia ouvir,
porque o lavadouro ficava muito longe de casa. As pretas, com uma tanga no ventre, a
arregaar-lhes um palmo dos vestidos, umas dentro do tanque, outras fora, inclinadas sobre
as peas de roupa, a bat-las a ensabo-las, a torc-las, iam ouvindo e redargindo s
pilhrias do tio Joo, e a coment-las de quando em quando com esta palavra:
--Cruz, diabo!... Este sinh Joo  o diabo!
Bem diferente era o tio cnego. Esse tinha muita austeridade e pureza; tais dotes, contudo,
no realavam um esprito superior, apenas compensavam um esprito medocre. No era
homem que visse a parte substancial da Igreja; via o lado externo, a hierarquia, as
preeminncias, as sobrepelizes, as circunflexes. Vinha antes da sacristia que do altar. Uma
lacuna no ritual excitava-o mais do que uma infrao dos mandamentos. Agora, a tantos
anos de distancia, no estou certo se ele poderia atinar facilmente com um trecho de
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Tertuliano, ou expor, sem titubear, a histria do smbolo de Nicia; mas ningum, nas festas
cantadas, sabia melhor o nmero e casos das cortesias que se deviam ao oficiante. Cnego
foi a nica ambio de sua vida; e dizia de corao que era a maior dignidade a que podia
aspirar. Piedoso, severo nos costumes, minucioso na observncia das regras, frouxo,
acanhado, subalterno, possua algumas virtudes, em que era exemplar,- mas carecia
absolutamente da fora de as incutir, de as impor aos outros;
No digo nada de minha tia materna, D. Emerenciana, e alis era a pessoa que mais
autoridade tinha sobre mim; essa diferenava-se grandemente dos outros; mas viveu pouco
tempo em nossa companha, uns dous anos. Outros parentes e alguns- ntimos no merecem
a pena de ser citados; no tivemos uma vida comum, mas intermitente, com grandes claros
de separao. O que importa  a expresso geral do meio domstico, e essa a fica
indicada,--vulgaridade de caracteres, amor das aparncias rutilantes, do arrudo, frouxido
da vontade, domnio do capricho, e o mais. Dessa terra e desse estrume  que nasceu esta
flor.
CAPTULO XII / UM EPISD10 DE 1814
MAS EU NO QUERO passar adiante, sem contar sumariamente um galante episdio de
1814; tinha nove anos.
Napoleo, quando eu nasci, estava j em todo o esplendor da glria e do poder; era
imperador e granjeara inteiramente a admirao dos homens. Meu pai, que a fora de
persuadir os outros da nossa nobreza, acabara persuadindo-se a si prprio, nutria contra ele
um dio puramente mental. Era isso motivo de renhidas contendas em nossa casa, porque
meu tio Joo, no sei se por esprito de classe e simpatia de ofcio, perdoava no dspota o
que admirava no general, meu tio padre era inflexvel contra o corso, e outros parentes
dividiam-se: da as controvrsias e as rusgas.
Chegando ao Rio de Janeiro a notcia da primeira queda de Napoleo, houve naturalmente
grande abalo em nossa casa, mas nenhum chasco ou remoque. Os vencidos, testemunhas do
regozijo pblico, julgaram mais decoroso o silncio; alguns foram alm e bateram palmas. A
populao, cordialmente alegre, no regateou demonstraes de afeto  real famlia; houve
iluminaes salvas, Te Deum, cortejo e aclamaes. Figurei nesses dias com um espadim
novo, que meu padrinho me dera no dia de Santo Antnio; e, francamente, interessava-me
mais o espadim do que a queda de Bonaparte. Nunca me esqueceu esse fenmeno. Nunca
mais deixei de pensar comigo que o nosso espadim  sempre maior do que a espada de
Napoleo. E notem que eu ouvi muito discurso, quando era vivo, li muita pgina rumorosa
de grandes idias e maiores palavras, mas no sei por que, no fundo dos aplausos que me
arrancavam da boca, l escoava alguma vez este conceito de experimentado:
--Vai-te embora, tu s cuidas do espadim.
No se contentou a minha famlia em ter um quinho annimo no regozijo pblico;
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entendeu oportuno e indispensvel celebrar a destituio do imperador com um jantar, e tal
jantar que o rudo das aclamaes chegasse aos ouvidos de Sua Alteza, ou quando menos de
seus ministros. Dito e feito. Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu av Lus
Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da ndia; matou-se um capado;
encomendaram-se s madres da Ajuda as compotas e as marmeladas; lavaram-se,
arearam-se poliram-se as salas, escadas, castiais, arandelas, as vastas mangas de vidro,
todos os aparelhos do luso clssico.
Dada a hora, achou-se reunida uma sociedade seleta, o juiz-de-fora, trs ou quatro oficiais
militares, alguns comerciantes e letrados, vrios funcionrios da administrao, uns com
suas mulheres e filhas, outros sem elas, mas todos comungando no desejo de atolar a
memria de Bonaparte no papo de um peru. No era um jantar mas um Te Deum; foi o que
pouco mais ou menos disse um dos letrados presentes, o Dr. Vilaa, glosador insigne, que
acrescentou aos pratos de casa o acepipe das musas. Lembra-me, como se fosse ontem
lembra-me de o ver erguer-se, com a sua longa cabeleira de rabicho, casaca de seda, uma
esmeralda no dedo, pedir a meu tio padre que lhe repetisse o mote, e, repetido o mote, cravar
os olhos na testa de uma senhora. depois tossir, alar a mo direita, toda fechada, menos o
dedo ndice, que apontava para o tecto e, assim posto e composto, devolver o mote glosado.
No fez uma glosa, mas trs; depois jurou aos seus deuses no acabar mais. Pedia um mote,
davam-lho, ele glosava-o prontamente, e logo pedia outro e mais outro; a tal ponto que uma
das senhoras presentes no pde calar a sua grande admirao.
--A senhora diz isso, retorquia modestamente o Vilaa, porque nunca ouviu o Bocage, como
eu ouvi, no fim do sculo, em Lisboa. Aquilo sim! que facilidade! e que versos! Tivemos
lutas de uma e duas horas, no botequim do Nicola, a glosarmos, no meio de palmas e bravos.
Imenso talento o do Bocage! Era o que me dizia, h dias, a senhora Duquesa de Cadaval...
E estas trs palavras ltimas, expressas com muita nfase, produziram em toda a assemblia
um frmito de admirao e pasmo. Pois esse homem to dado, to simples, alm de pleitear
com poetas, discreteava com duquesas! Um Bocage e uma Cadaval! Ao contacto de tal
homem, as damas sentiam-se superfinas; os vares olhavam-no com respeito, alguns com
inveja, no raros com incredulidade. Ele, entretanto, ia caminho, a acumular adjetivo sobre
adjetivo, advrbio sobre advrbio, a desfiar todas as rimas de tirano e de usurpador. Era 
sobremesa; ningum j pensava em comer. No intervalo das glosas, corria um burburinho
alegre, um palavrear de estmagos satisfeitos; os olhos moles e midos, ou vivos e clidos,
espreguiavam-se ou saltitavam de uma ponta  outra da mesa, atulhada de doces e frutas,
aqui o anans em fatias, ali o melo em talhadas, as compoteiras de cristal deixando ver o
doce de coco, finamente ralado, amarelo como uma gema, -- ou ento o melado escuro e
grosso, no longe do queijo e do car. De quando em quando um riso jovial, amplo,
desabotoado, um riso de famlia, vinha quebrar a gravidade poltica do banquete. No meio
do interesse grande e comum, agitavam-se tambm os pequenos e particulares. As moas
falavam das modinhas que haviam de cantar ao cravo, e do minuete e do solo ingls; nem
faltava matrona que prometesse bailar um oitavado de compasso, s para mostrar como
folgara nos seus bons tempos de criana. Um sujeito, ao p de mim, dava a outro notcia
recente dos negros novos que estavam a vir, segundo cartas que recebera de Luanda, uma
carta em que o sobrinho lhe dizia ter j negociado cerca de quarenta cabeas, e outra carta
em que... Trazia-as justamente na algibeira mas no as podia ler naquela ocasio. O que
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afianava  que podamos contar, s nessa viagem, uns cento e vinte negros, pelo menos
-- Trs. . . trs. . . trs.. . fazia o Vilaa batendo com as mos uma na outra. O rumor cessava
de sbito, como um estacado de orquestra, e todos os olhos se voltavam para o glosador.
Quem ficava longe aconcheava a mo atrs da orelha para no perder palavra, a mor parte,
antes mesmo da glosa, tinha j um meio riso de aplauso, trivial e cndido.
Quanto a mim, l estava, solitrio e deslembrado, a namorar certa ! compota da minha
paixo. No fim de cada glosa ficava muito contente, esperando que fosse a ltima, mas no
era, e a sobremesa continuava intacta. Ningum se lembrava de dar a primeira voz. Meu pai,
 cabeceira, saboreava a goles extensos a alegria dos convivas; mirava-se todo nos cares
alegres, nos pratos, nas flores, deliciava-se com a familiaridade travada entre os mais
distantes espritos, influxo de um bom jantar. Eu via isso, porque arrastava os olhos da
compota para ele e dele para a compota, como a pedir-lhe que ma servisse mas fazia-o em
vo. Ele no via nada; via-se a si mesmo. E as glosas sucediam-se, como btegas d'gua,
obrigando-me a recolher o desejo e o pedido. Pacientei quanto pude; e no pude muito. Pedi
em voz baixa o doce; enfim, bradei, berrei, bati com os ps. Meu pai, que seria capaz de
para me servir capaz de me dar o sol, se eu lho exigisse, chamou um escravo para me servir
o doce; mas era tarde. A tia Emerenciana arrancara-me da cadeira e entregara-me a uma
escrava, no obstante os meus gritos e repeles.
No foi outro o delito do glosador: retardara a compota e dera causa  minha excluso.
Tanto bastou para que eu cogitasse uma vingana, qualquer que fosse, mas grande e
exemplar, cousa que de alguma maneira o tornasse ridculo. Que ele era um homem grave o
Dr. Vilaa, medido e lento, quarenta e sete anos, casado e pai. No me contentava o rabo de
papel nem o rabicho da cabeleira; havia de ser cousa pior. Entrei a espreit-lo, durante o
resto da tarde, a segui-lo, na chcara, aonde todos desceram a passear. Vi-o conversar com
D. Eusbia, irm do sargento-mor Domingues, uma robusta donzelona, que se no era
bonita, tambm no era feia.
-- Estou muito zangada com o senhor, dizia ela.
--Por que?
--Porque.. . no sei por que. .. porque  a minha sina... creio s vezes que  melhor morrer.
Tinham penetrado numa pequena moita; era lusco-fusco; eu segui-os. O Vilaa levava nos
olhos umas chispas de vinho e de volpia.
--Deixe-me! disse ela.
--Ningum nos v. Morrer, meu anjo? Que idias so essas! Voc sabe que eu morrerei
tambm... que digo?... morro todos os dias de paixo, de saudades. . .
D. Eusbia levou o leno aos olhos. O glosador vasculhava na memria algum pedao
literrio e achou este, que mais tarde verifiquei ser de uma das peras do Judeu.
-- No chores, meu bem; no queiras que o dia amanhea com duas auroras.
Disse isto; puxou-a para si; ela resistiu um pouco, mas deixou-se ir; uniram os rostos, e eu
ouvi estalar, muito ao de leve, um beijo, o mais medroso dos beijos.
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--O Dr. Vilaa deu um beijo em D. Eusbia! bradei eu correndo pela chcara.
Foi um estouro esta minha palavra; a estupefao imobilizou a todos; os olhos
espraiavam-se a uma e outra banda; trocavam-se sorrisos, segredos,  socapa, as mes
arrastavam as filhas, pretextando o sereno. Meu pai puxou-me as orelhas, disfaradamente,
irritado deveras com a indiscrio; mas no dia. seguinte, ao almoo, lembrando o caso,
sacudiu-me o nariz a rir: Ah! brejeiro! ah! brejeiro!
CAPTULO XIII / UM SALTO
UNAMOS AGORA os ps e demos um salto por cima da escola, a enfadonha escola, onde
aprendi a ler, escrever, contar, dar cacholetas, apanh-las, e ir fazer diabruras, ora nos
morros, ora nas praias onde quer que fosse propcio a ociosos.
Tinha amarguras esse tempo; tinha os ralhos, os castigos, as lies rduas e longas, e pouco
mais, mui pouco e mui leve. S era pesada, a palmatria, e ainda assim. . .  palmatria,
terror dos meus dias pueris, tu que foste o compelle intrare com que um velho mestre,
ossudo e calvo, me incutiu no crebro o alfabeto, a prosdia, a sintaxe, e o mais que ele
sabia, benta palmatria, to praguejada dos modernos, quem me dera ter ficado sob o teu
jugo, com a minha alma imberbe, as minhas ignorncias, e o meu espadim, aquele espadim
de 1814, to superior  espada de Napoleo! Que querias tu, afinal, meu velho mestre de
primeiras letras? Lio de cor e com postura na aula; nada mais, nada menos do que quer a
vida, que e das ltimas letras; com a diferena que tu, se me metias medo, nunca me meteste
zanga. Vejo-te ainda agora entrar na sala, com as tuas chinelas de couro branco, capote,
leno na mo, calva  mostras barba rapada; vejo-te sentar, bufar, grunhir, absorver uma
pitada inicial, e chamar-nos depois  lio. E fizeste isto durante vinte e trs anos, calado,
obscuro, pontual, metido numa casinha da Rua do Piolho, sem enfadar o mundo com a tua
mediocridade, at que um dia deste o grande mergulho nas trevas, e ningum te chorou,
salvo um preto velho, ningum, nem eu, que te devo os rudimentos da escrita.
Chamava-se Ludgero o mestre; quero escrever-lhe o nome todo nesta pgina: Ludgero
Barata,--um nome funesto, que servia aos meninos de eterno mote a chufas. Um de ns, o
Quincas Borba, esse ento era cruel com o pobre homem. Duas, trs vezes por semana,
havia de lhe deixar na algibeira das calas, umas largas calas de enfiar --, ou na gaveta da
mesa, ou ao p do tinteiro, uma barata morta. Se ele a encontrava ainda nas horas da aula,
dava um pio, circulava os olhos chamejantes, dizia-nos os ltimos nomes: ramos
sevandijas, capadcios, malcriados, moleques.--Uns tremiam, outros rosnavam; o Quincas
Borba, porm, deixava-se estar quieto, com os olhos espetados no ar.
Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infncia, nunca em toda a minha vida, achei
um menino mais gracioso, inventivo e travesso. Era a flor, e no j da escola, seno de toda
a cidade. A me, viva, com alguma cousa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado,
asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrs, um pajem que nos deixava gazear a escola,
ir caar ninhos de pssaros, ou perseguir lagartixas nos morros do Livramento e da
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Conceio, ou simplesmente arruar,  toa, como dous peraltas sem emprego. E de
imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas festas do Esprito
Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele escolhia sempre um papel de rei, ministro,
general, uma supremacia, qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa
magnificncia nas atitudes, nos meneios. Quem diria que... Suspendamos a pena; no
adiantemos os sucessos. Vamos de um salto a 1822, data da nossa independncia poltica, e
do meu primeiro cativeiro pessoal.
CAPTULO XIV / O PRIMEIRO BEIJO
TINHA DEZESSETE anos; pungia-me um buozinho que eu forcejava por trazer a bigode.
Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feio verdadeiramente mscula. Como ostentasse
certa arrogncia, no se distinguia bem se era uma criana, com fumos de homem, se um
homem com ares de menino. Ao cabo, era um lindo garo, lindo e audaz, que entrava na
vida de botas e esporas, chicote na mo e sangue nas veias, o corcel das antigas baladas, que
o romantismo foi buscar ao castelo medieval, para dar com ele nas ruas do nosso sculo. O
pior  que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deit-lo  margem, onde o realismo o veio
achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixo, o transportou para os seus livros.
Sim, eu era esse garo bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma
dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiosos.
De todas porm a que me cativou logo foi uma... uma... no sei se diga; este livro  casto, ao
menos na inteno na inteno  castssimo. Mas v l; ou se h de dizer tudo ou nada. A
que me cativou foi uma dama espanhola, Marcela, a "linda Marcela", como lhe chamavam
os rapazes do tempo. E tinham razo os rapazes. Era filha de um hortelo das Astrias;
disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinio aceita  que nascera de um
letrado de Madri, vtima da invaso francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando
ela tinha apenas doze anos.
Cosas de Espan. Quem quer que fosse, porm, o pai, letrado ou hortelo, a verdade  que
Marcela no possua a inocncia rstica, e mal chegava a entender a moral do cdigo. Era
boa moa, lpida, sem escrpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe no
permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga
de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, morria de amores por um certo Xavier, sujeito
abastado e tsico, uma prola.
Vi-a pela primeira vez, no Rocio Grande, na noite das luminrias, logo que constou a
declarao da independncia, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pblica.
ramos dous rapazes, o povo e eu; vnhamos da infncia, com todos os arrebatamentos da
juventude. Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um
desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras.--Segue-me, disse ela ao
pajem. E eu segui-a, to pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir
namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe "linda
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Marcela", lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio Joo, e fiquei, confesso que fiquei
tonto.
Trs dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moas, nos
Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela. O Xavier, com todos os seus tubrculos, presidia
ao banquete noturno que eu pouco ou nada comi, porque s tinha olhos para a dona da casa.
Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma meia dzia de mulheres, todas de
partido, e bonitas, cheias de graa, mas a espanhola... O entusiasmo, alguns goles de vinho,
o gnio imperioso, estouvado, tudo isso me levou a fazer uma coisa nica;  sada,  porta
da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subir as escadas.
-- Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcela de p, no patamar.
--O leno.
Ela ia abrir-me caminho para tornar  sala; eu segurei-lhe nas mos, puxei-a para mim, e
dei-lhe um beijo. No sei se ela disse alguma cousa, se gritou, se chamou algum; no sei
nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufo, e incerto como um brio.
CAPTULO XV / MARCELA
GASTEI TRINTA DIAS para ir do Rocio Grande ao corao de Marcela, no j cavalgando
o corcel do cego desejo, mas o asno da pacincia, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em
verdade, ha dous meios de granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de
Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dnae, trs inventos do
padre Zeus; que, por estarem fora da moda, a ficam trocados no cavalo e no asno. No direi
as traas que urdi, nem as peitas, nem as alternativas de confiana e temor, nem as esperas
baldadas, nem nenhuma outra dessas cousas preliminares. Afirmo-lhes que o asno foi digno
do corcel, -- um asno de Sancho, deveras filsofo, que me levou  casa dela, no fim do
citado perodo; apeei-me, bati-lhe na anca e mandei-o pastar.
Primeira comoo da minha juventude, que doce que me foste! Tal devia ser. na criao
bblica, o efeito do primeiro sol. Imagina tu esse efeito do primeiro sol, a bater de chapa na
face de um mundo em flor. Pois foi a mesma cousa, leitor amigo, e se alguma vez contaste
dezoito anos, deves lembrar-te que foi assim mesmo.
Teve duas fases a nossa paixo, ou ligao, ou qualquer outro nome, que eu de nomes no
curo; teve a fase consular e a fase imperial. Na primeira, que foi curta, regemos o Xavier e
eu, sem que ele jamais acreditasse dividir comigo o governo de Roma; mas, quando a
credulidade no pde resistir  evidncia, o Xavier deps as insgnias, e eu concentrei todos
os poderes na minha mo; foi a fase cesariana. Era meu o universo mas, ai triste! no o era
de graa. Foi-me preciso coligir dinheiro, multiplic-lo, invent-lo. Primeiro explorei as
larguezas de meu pai; ele dava-me tudo o que eu lhe pedia sem repreenso sem demora, sem
frieza; dizia a todos que e era rapaz e que ele o fora tambm. Mas a tal extremo chegou o
abuso, que ele restringiu um pouco as franquezas, depois mais, depois mais. Ento recorri a
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minha me, e induzi-a a desviar alguma cousa, que me dava s escondidas. Era pouco;
lancei mo de um recurso ltimo: entrei a sacar sobre a herana de meu pai, a assinar
obrigaes, que devia resgatar um dia com usura.
--Em verdade, dizia-me Marcela, quando eu lhe levava alguma seda, alguma jia: em
verdade, voc quer brigar comigo. . . Pois isto  cousa que se faa... um presente to caro...
E, se era jia, dizia isto a contempl-la entre os dedos, a procurar melhor luz, a ensai-la em
si, e a rir, e a beijar-me com uma reincidncia impetuosa e sincera; mas, protestando,
derramava-se-lhe a felicidade dos olhos, e eu sentia-me feliz com v-la assim. Gostava
muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quantas podia obter; Marcela
juntava-as todas dentro de uma caixinha de ferro, cuja chave ningum nunca jamais soube
onde ficava; escondia-a por medo dos escravos. A casa em que morava, nos Cajueiros, era
prpria. Eram slidos e bons os mveis, de jacarand lavrado, e todas as demais alfaias,
espelhos, jarras, baixela, -- uma linda baixela da ndia, que lhe doara um desembargador.
Baixela do diabo, deste-me grandes repeles aos nervos. Disse-o muita vez  prpria dona;
no lhe dissimulava o tdio que me faziam esses e outros despojos dos seus amores de
antanho. Ela ouvia-me e ria, com uma expresso cndida,--cndida e outra cousa, que eu
nesse tempo no entendia bem; mas agora, relembrando o caso, penso que era um riso
misto, como devia ter a criatura que nascesse, por exemplo, de uma bruxa de Shakespeare
com um serafim de Klopstock. No sei se me explico. E porque tinha notcia dos meus zelos
tardios, parece que gostava de os aular mais. Assim foi que um dia como eu lhe no
pudesse dar certo colar, que ela vira num joalheiro, retorquiu-me que era um simples
gracejo, que o nosso amor no precisava de to vulgar estmulo.
--No lhe perdo, se voc fizer de mim essa triste idia, concluiu ameaando-me com o
dedo.
E logo, sbita como um passarinho, espalmou as mos, cingiu-me com elas o rosto,
puxou-me a si e fez um trejeito gracioso, um momo de criana. Depois, reclinada na
marquesa, continuou a falar daquilo, com simplicidade e franqueza. Jamais consentiria que
lhe comprassem os afetos. Vendera muita vez as aparncias, mas a realidade, guardava-a
para poucos. Duarte, por exemplo, o alferes Duarte que ela amara deveras, dous anos antes,
s a custo conseguia dar-lhe alguma cousa de valor, como me acontecia a mim ela s lhe
aceitava sem relutncia os mimos de escasso preo, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma
vez, de festas.
--Esta cruz...
Dizia isto, metendo a mo no seio e tirando uma cruz fina, de ouro, presa a uma fita azul e
pendurada ao colo.
--Mas essa cruz, observei eu, no me disseste que era teu pai que...
Marcela abanou a cabea com um ar de lstima:
--No percebeste que era mentira, que eu dizia isso para te no molestar? Vem c, chiquito,
no sejas assim desconfiado comigo.. . Amei a outro; que importa, se acabou? Um dia,
quando- nos separarmos. . .
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--No digas isso! bradei eu.
--Tudo cessa! Um dia. . .
No pode acabar; um soluo estrangulou-lhe a voz; estendeu as mos, tomou das minhas,
conchegou-me ao seio, e sussurrou-me baixo ao ouvido: Nunca, nunca, meu amor! Eu
agradeci-lho com os olhos midos. No dia seguinte levei-lhe o colar que havia recusado.
--Para te lembrares de mim, quando nos separarmos, disse eu.
Marcela teve primeiro um silncio indignado; depois fez um gesto magnfico: tentou atirar o
colar  rua. Eu retive-lhe o brao; pedi-lhe muito que no me fizesse tal desfeita, que ficasse
com a jia. Sorriu e ficou.
Entretanto, pagava-me  farta os sacrifcios; espreitava os meus mais recnditos
pensamentos; no havia desejo a que no acudisse com alma, sem esforo, por uma espcie
de lei da conscincia e necessidade do corao. Nunca o desejo era razovel, mas um
capricho puro, uma criancice, v-la trajar de certo modo, com tais e tais enfeites, este
vestido e no aquele, ir a passeio ou outra cousa assim, e ela cedia a tudo, risonha e palreira.
--Voc  das Arbias -- dizia-me.
E ia a pr o vestido, a renda, os brincos, com uma obedincia de encantar.
CAPITULO XVI / UMA REFLEXO IMORAL
OCORRE ME uma reflexo imoral, que  ao mesmo tempo uma correo de estilo. Cuido
haver dito, no captulo XIV, que Marcela morria de amores pelo Xavier. No morria, vivia.
Viver no  a mesma cousa que morrer; assim o afirmam todos os joalheiros deste mundo,
gente muito vista na gramtica. Bons joalheiros, que seria do amor se no fossem os vossos
dixes e fiados? Um tero ou um quinto do universal comrcio dos coraes. Esta  a
reflexo imoral que eu pretendia fazer, a qual  ainda mais obscura do que imoral, porque
no se entende bem o que eu quero dizer. O que eu quero dizer  que a mais bela testa do
mundo no fica menos bela, se a cingir um diadema de pedras finas; nem menos bela, nem
menos amada. Marcela, por exemplo, que era bem bonita, Marcela amou-me ..
CAPTULO XVII / DO TRAPZIO E OUTRAS COUSAS
. . .MARCELA amou-me durante quinze meses e onze contos de ris; nada menos. Meu pai,
logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as
raias de um capricho juvenil.
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-- Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente
Coimbra; quero-te para homem srio e no para arruador e gatuno. E como eu fizesse um
gesto de espanto:-- Gatuno, sim senhor; no  outra cousa um filho que me faz isto...
Sacou da algibeira os meus ttulos de dvida, j resgatados por ele, e sacudiu-mos na
cara.--Vs, peralta?  assim que um moo deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e
meus avs ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez
ou tomas juzo, ou ficas sem cousa nenhuma.
Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada! opus  ordem
da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a idia de levar Marcela comigo. Fui ter
com ela; expus-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem
responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que no podia ir para a Europa.
--Porque no?
--No posso, disse ela com ar dolonte; no posso ir respirar aqueles ares, enquanto me
lembrar de meu pobre pai, morto por Napoleo . . .
--Qual deles: o hortelo ou o advogado?
Marcela franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor,
e mandou vir um copo de alu. Trouxe-lho a mucama, numa salva de prata, que fazia parte
dos meus onze contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar
com a mo no copo e na salva; entornou-se-lhe o lquido no regao, a preta deu um grito, eu
bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a ss, derramei todo o desespero de meu corao;
disse-lhe que ela era um monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo,
sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos
gestos descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria
como um pedao de mrmore. Tive mpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos,
subjugando-a a meus ps. Ia talvez faz-lo; mas a ao trocou-se noutra; fui eu que me atirei
aos ps dela, contrito e splice; beijei-lhos recordei aqueles meses da nossa felicidade
solitria, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no cho, com a cabea entre
os joelhos dela, apertando-lhe muito as mos; ofegante, desvairado, pedi-lhe com lgrimas
que me no desamparasse... Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim, calados,
ambos, at que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:
--No me aborrea, disse.
Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.--No! bradei eu;
no hs de entrar... no quero. . . Ia a lanar-lhe as mos: era tarde; ela entrara e fechara-se.
Sa desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excntricos e
desertos, onde fosse difcil dar comigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma espcie de
gula mrbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delrio, e ora me comprazia em crer
que eles eram eternos, que tudo aquilo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo?
tentava rejeit-los de mim, como um fardo intil. Ento resolvia embarcar imediatamente
para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idia de que Marcela,
sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ela amara-me a tonta, devia
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de sentir alguma cousa, uma lembrana qualquer, como do alferes Duarte... Nisto, o dente
do cime enterrava-se-me no corao; toda a natureza bradava que era preciso levar Marcela
comigo.
--Por fora. . . por fora. . . dizia eu ferindo o ar com uma punhada.
Enfim, tive uma idia salvadora... Ah! trapzio dos meus pecados, trapzio das concepes
abstrusas! A idia salvadora trabalhou neles como a do emplasto (captulo II). Era nada
menos que fascin-la, fascin-la muito, deslumbr-la, arrast-la; lembrou-me pedir-lhe por
um meio mais concreto do que a splica. No medi as conseqncias; recorri a um
derradeiro emprstimo; fui  Rua dos Ourives, comprei a melhor jia da cidade, trs
diamantes grandes encastoados num pente de marfim; corri  casa de Marcela.
Marcela estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma das pernas pendentes, a
ver-se-lhe o pezinho calado de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto
e sonolento.
--Vem comigo, disse eu, arranjei recursos... temos muito dinheiro, ters tudo o que
quiseres... Olha, toma.
E mostrei-lhe o pente com os diamantes. . . Marcela teve um leve sobressalto, ergueu
metade do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes
curtos; depois retirou os olhos; tinha-se dominado. Ento, eu lancei-lhe as mos aos cabelos,
coligi-os, enlacei-os  pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com
o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as de
um lado, busquei alguma simetria naquela desordem, tudo com uma minuciosidade e um
carinho de me.
--Pronto, disse eu.
--Doudo! foi a sua primeira resposta.
A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifcio com um beijo, o mais ardente de
todos. Depois tirou o pente, admirou muito a matria e o lavor, olhando a espaos para mim,
e abanando a cabea com um ar de repreenso:
--Ora voc! dizia.
--Vens comigo?
Marcela refletiu um instante. No gostei da expresso com que passeava os olhos de mim
para a parede, e da parede para a jia; mas toda a m impresso se desvaneceu, quando ela
me respondeu resolutamente:
--Vou. Quando embarcas?
--Daqui a dous ou trs dias.
--Vou.
Agradeci-lho de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-lho; ela
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sorriu, e foi guardar a jia, enquanto eu descia a escada.
CAPTULO XVIII / VISO DO CORREDOR
No FIM da escada, ao fundo do corredor escuro, parei alguns instantes para respirar,
apalpar-me, convocar as idias dispersas, reaver-me enfim no meio de tantas sensaes
profundas e contrrias. Achava-me feliz. Certo  que os diamantes corrompiam-me um
pouco a felicidade; mas no  menos certo que uma dama bonita pode muito bem amar os
gregos e os seus presentes. E depois eu confiava na minha boa Marcela; podia ter defeitos,
mas amava-me...
Um anjo! murmurei olhando para o tecto do corredor.
E a, como um escrnio, vi o olhar de Marcela, aquele olhar que pouco antes me dera uma
sombra de desconfiana, o qual chispava de cima de um nariz, que era ao mesmo tempo o
nariz de Bakbarah e o meu. Pobre namorado das Mil e Uma Noites! Vi-te ali mesmo correr
atrs da mulher do vizir, ao longo da galeria, ela a acenar-te com a posse, e tu a correr, a
correr, a correr, at a alameda comprida, donde saste  rua, onde todos os correeiros te
apuparam e desancaram. Ento pareceu-me que o corredor de Marcela era a alameda, e que
a rua era a de Bagd. Com efeito, olhando para a porta, vi na calada trs dos correeiros, um
de batina, outro de libr, outro  paisana, os quais todos trs entraram no corredor,
tomaram-me pelos braos, meteram-me numa sege, meu pai  direita, meu tio cnego 
esquerda, o da libr na bolia, e l me levaram  casa do intendente de polcia, donde fui
transportado a uma galera que devia seguir para Lisboa. Imaginem se resisti; mas toda a
resistncia era intil.
Trs dias depois segui barra fora, abatido e mudo. No chorava sequer; tinha uma idia fixa.
. . Malditas idias fixas! A dessa ocasio era dar um mergulho no oceano, repetindo o nome
de Marcela.
CAPTULO XIX / A BORDO
RAMOS ONZE passageiros, um homem doudo, acompanhado pela mulher, dous rapazes
que iam a passeio, quatro comerciantes e dous criados. Meu pai recomendou-me a todos,
comeando pelo capito do navio, que alis tinha muito que cuidar de si, porque, alm do
mais, levava a mulher tsica em ltimo grau.
No sei se o capito suspeitou alguma cousa do meu fnebre projeto, ou se meu pai o ps de
sobreaviso; sei que no me tirava os olhos de cima; chamava-me para toda a parte. Quando
no podia estar comigo, levava-me para a mulher. A mulher ia quase sempre numa camilha
rasa, a tossir muito, e a afianar que me havia de mostrar os arredores de Lisboa. No estava
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magra, estava transparente; era impossvel que no morresse de uma hora para outra. O
capito fingia no crer na morte prxima, talvez por enganar-se a si mesmo. Eu no sabia
nem pensava nada. Que me importava a mim o destino de uma mulher tsica, no meio do
oceano? O mundo para mim era Marcela.
Uma noite, logo no fim de uma semana, achei ensejo propcio para morrer. Subi cauteloso,
mas encontrei o capito, que junto  amurada, tinha os olhos fitos no horizonte.
--Algum temporal? disse eu.
--No, respondeu ele estremecendo; no; admiro o esplendor da noite. Veja; est celestial!
O estilo desmentia da pessoa, assaz rude e aparentemente alheia a locues rebuscadas.
Fitei-o; ele pareceu saborear o meu espanto. No fim de alguns segundos, pegou-me na mo e
apontou para a lua, perguntando-me por que no fazia uma ode  noite; respondi-lhe que no
era poeta. O capito rosnou alguma cousa, deu dous passos, meteu a mo no bolso, sacou
um pedao de papel, muito amarrotado; depois,  luz de uma lanterna, leu uma ode
horaciana sobre a liberdade da vida martima. Eram versos dele.
--Que tal?
No me lembra o que lhe disse; lembra-me que ele me apertou a mo com muita fora e
muitos agradecimentos; logo depois recitou-me dous sonetos; ia recitar-me outro quando o
vieram chamar da parte da mulher. L vou, disse ele; e recitou-me o terceiro soneto, com
pausa, com amor.
Fiquei s; mas a musa do capito varrera-me do esprito os pensamentos maus; preferi
dormir, que  um modo interino de morrer. No dia seguinte, acordamos debaixo de um
temporal, que meteu medo a toda a gente, menos ao doudo; esse entrou a dar pulos, a dizer
que a filha o mandava buscar, numa berlinda; a morte de uma filha fora a causa da loucura.
No, nunca me h de esquecer a figura hedionda do pobre homem, no meio do tumulto das
gentes e dos uivos do furaco, a cantarolar e a bailar, com os olhos a saltarem-lhe da cara,
plido, cabelo arrepiado e longo. s vezes parava, erguia ao ar as mos ossudas, fazia umas
cruzes com os dedos, depois um xadrez, depois umas argolas, e ria muito,
desesperadamente. A mulher no podia j cuidar dele; entregue ao terror da morte, rezava
por si mesma a todos os santos do Cu. Enfim, a tempestade amainou. Confesso que foi uma
diverso excelente  tempestade do meu corao. Eu, que meditava ir ter com a morte, no
ousei fit-la quando ela veio ter comigo.
O capito perguntou-me se tivera medo, se estivera em risco, se no achara sublime o
espetculo: tudo isso com um interesse de amigo. Naturalmente a conversa versou sobre a
vida do mar; o capito perguntou-me se no gostava de idlios piscatrios: eu respondi-lhe
ingenuamente que no sabia o que era.
--Vai ver, respondeu.
E recitou-me um poemazinho, depois outro, -- uma gloga,-- e enfim cinco sonetos, com os
quais rematou nesse dia a confidncia literria. No dia seguinte, antes de me recitar nada,
explicou-me o capito que s por motivos graves abraara a profisso martima, porque a
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av queria que ele fosse padre, e com efeito possua algumas letras latinas; no chegou a ser
padre, mas no deixou de ser poeta, que era a sua vocao natural. Para prov-lo, recitou-me
logo, de corpo presente, uma centena de versos. Notei um fenmeno: os ademanes que ele
usava eram tais, que uma vez me fizeram rir; mas o capito, quando recitava, de tal sorte
olhava para dentro de si mesmo, que no viu nem ouviu nada.
Os dias passavam, e as guas, e os versos, e com eles ia tambm passando a vida da mulher.
Estava por pouco. Um dia, logo depois do almoo, disse-me o capito que a enferma talvez
no chegasse ao fim da semana.
-- J! exclamei.
--Passou muito mal a noite.
Fui v-la; achei-a, na verdade, quase moribunda, mas falando ainda de descansar em Lisboa
alguns dias antes de ir comigo a Coimbra, porque era seu propsito levar-me 
Universidade. Deixei-a consternado; fui achar o marido a olhar para as vagas que vinham
morrer no costado do navio, e tratei de o consolar; ele agradeceu-me, relatou-me a histria
dos seus amores, elogiou a fidelidade e a dedicao da mulher, relembrou os versos que lhe
fez, e recitou-mos. Neste ponto vieram busc-lo da parte dela; corremos ambos; era uma
crise. Esse e o dia seguinte foram cruis; o terceiro foi o da morte; eu fugi ao espetculo,
tinha-lhe repugnncia. Meia hora depois encontrei o capito, sentado num molho de cabos,
com a cabea nas mos, disse-lhe alguma cousa de conforto.
--Morreu como uma santa, respondeu ele; e, para que estas palavras no pudessem ser
levadas a conta de fraqueza, ergueu-se longe, sacudiu a cabea e fitou o horizonte, com um
gesto longo e profundo. --Vamos, continuou, entregumo-la  cova que nunca mais se abre.
Efetivamente, poucas horas depois, era o cadver lanado ao mar, com as cerimnias do
costume. A tristeza murchara todos os rostos; o do vivo trazia a expresso de um cabeo
rijamente lascado pelo rio. Grande silncio. A vaga abriu o ventre, acolheu o despojo,
fechou-se,--uma leve ruga,--e a galera foi andando. Eu deixei-me estar alguns minutos, a
popa, com os olhos naquele ponto incerto do mar em que ficava um de ns. . . Fui dali ter
com o capito, para distra-lo.
--Obrigado, disse-me ele compreendendo a inteno; creia que nunca me esquecerei dos
seus bons servios. Deus  que lhos h de pagar. Pobre Leocdia! tu te lembrars de ns no
Cu.
Enxugou com a manga uma lgrima importuna; eu busquei um derivativo na poesia, que era
a paixo dele. Falei-lhe dos versos, que me lera, e ofereci-me para imprimi-los. Os olhos do
capito animaram-se um pouco. --Talvez aceite, disse ele: mas no sei... so bem frouxos
versos. Jurei-lhe que no; pedi que os reunisse e mos desse antes do desembarque.
--Pobre Leocdia! murmurou sem responder ao pedido. Um cadver... o mar. .. o cu. .. o
navio. . .
No dia seguinte veio ler-me um epicdio composto de fresco, em que estavam memoradas
as circunstncias da morte e da sepultura da mulher; leu-mo com a voz comovida deveras, e
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a meio trmula; no fim perguntou-me se os versos eram dignos do tesouro que perdera.
--So, disse eu.
--No haver estro, ponderou ele, no fim de um instante, mas ningum me negar
sentimento, se no  que o prprio sentimento prejudicou a perfeio...
--No me parece; acho os versos perfeitos.
--Sim, eu creio que.. . Versos de marujo.
--De marujo poeta.
E1e levantou os ombros, olhou para o papel, e tornou a recitar a composio, mas j ento
sem tremuras, acentuando as intenes literrias dando relevo s imagens e melodia aos
versos. No fim, confessou-me que era a sua obra mais acabada; eu disse-lhe que sim; ele
apertou-me muito a mo e predisse-me um grande futuro.
CAPTULO XX / BACHARELO-ME
UM GRANDE futuro! Enquanto esta palavra me batia no ouvido, devolvia eu os olhos, ao
longe, no horizonte misterioso e vago. Uma idia expelia outra, a ambio desmontava
Marcela. Grande futuro? Talvez naturalista, literato, arquelogo, banqueiro, poltico, ou at
bispo, -- bispo que fosse,--uma vez que fosse um cargo, uma preeminncia, uma grande
reputao, uma posio superior. A ambio, dado que fosse guia, quebrou nessa ocasio o
ovo, e desvendou a pupila fulva e penetrante. Adeus, amores! adeus, Marcela! dias de
delrio, jias sem preo, vida sem regmen, adeus! C me vou s fadigas e  glria;
deixo-vos com as calcinhas da primeira idade.
E foi assim que desembarquei em Lisboa e segui para Coimbra. A Universidade
esperava-me com as suas matrias rduas; estudei-as muito mediocremente, e nem por isso
perdi o grau de bacharel; deram-mo com a solenidade do estilo, aps os anos da lei; uma
bela festa que me encheu de orgulho e de saudades, -- principalmente de saudades. Tinha eu
conquistado em Coimbra uma grande nomeada de folio; era um acadmico estrina,
superficial, tumulturio e petulante, dado s aventuras, fazendo romantismo prtico e
liberalismo terico, vivendo na pura f dos olhos pretos e das constituies escritas. No dia
em que a Universidade me atestou, em pergaminho, uma cincia que eu estava longe de
trazer arraigada no crebro, confesso que me achei de algum modo logrado, ainda que
orgulhoso. Explico-me: o diploma era uma carta de alforria; se me dava a liberdade dava-me
a responsabilidade. Guardei-o, deixei as margens do Mondego, e vim por ali fora assaz
desconsolado, mas sentindo j uns mpetos, uma curiosidade, um desejo de acotovelar os
outros? de influir, de gozar, de viver, de prolongar a Universidade pela vida adiante . . .
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CAPTULO XXI / O ALMOCREVE
VAI ENTO, empacou o jumento em que eu vinha montado; fustiguei-o, ele deu dous
corcovos, depois mais trs, enfim mais um, que me sacudiu fora da sela, com tal desastre,
que o p esquerdo me ficou preso no estribo, tento agarrar-me ao ventre do animal, mas j
ento, espantado, disparou pela estrada fora. Digo mal: tentou disparar, e efetivamente deu
dous saltos, mas um almocreve, que ali estava, acudiu a tempo de lhe pegar na rdea e
det-lo, no sem esforo nem perigo. Dominado o bruto, desvencilhei-me do estribo e
pus-me de p.
--Olhe do que vosmec escapou, disse o almocreve.
E era verdade; se o jumento corre por ali fora, contundia-me deveras, e no sei se a morte
no estaria no fim do desastre; cabea partida, uma congesto, qualquer transtorno c
dentro, l se me ia a cincia em flor. O almocreve salvara-me talvez a vida; era positivo; eu
sentia-no no sangue que me agitava o corao. Bom almocreve! enquanto eu tornava 
conscincia de mim mesmo, ele cuidava de consertar os arreios do jumento, com muito zelo
e arte. Resolvi dar-lhe trs moedas de ouro das cinco que trazia comigo; no porque tal fosse
o preo da minha vida,-- essa era inestimvel; mas porque era uma recompensa digna da
dedicao com que ele me salvou. Est dito, dou-lhe as trs moedas.
--Pronto, disse ele, apresentando-me a rdea da cavalgadura.
-- Daqui a nada, respondi; deixa-me, que ainda no estou em mim. . .
--Ora qual!
--Pois no  certo que ia morrendo?
--Se o jumento corre por a fora,  possvel; mas, com a ajuda do Senhor, viu vosmec que
no aconteceu nada.
Fui aos alforjes, tirei um colete velho, em cujo bolso trazia as cinco moedas de ouro, e
durante esse tempo cogitei se no era excessiva a gratificao, se no bastavam duas
moedas. Talvez uma. Com efeito, uma moeda era bastante para lhe dar estremees de
alegria. Examinei-lhe a roupa; era um pobre-diabo, que nunca jamais vira uma moeda de
ouro. Portanto, uma moeda. Tirei-a, vi-a reluzir  luz do sol; no a viu o almocreve, porque
eu tinha-lhe voltado as costas; mas suspeitou-o talvez, entrou a falar ao jumento de um
modo significativo; dava-lhe conselhos, dizia-lhe que tomasse juzo, que o "senhor doutor"
podia castig-lo; um monlogo paternal. Valha-me Deus! at ouvi estalar um beijo: era o
almocreve que lhe beijava a testa.
--Ol! exclamei.
-- Queira vosmec perdoar, mas o diabo do bicho est a olhar para a gente com tanta graa...
Ri-me, hesitei, meti-lhe na mo um cruzado em prata, cavalguei o jumento, e segui a trote
largo, um pouco vexado, melhor direi um pouco incerto do efeito da pratinha. Mas a
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algumas braas de distncia, olhei para trs, o almocreve fazia-me grandes cortesias, com
evidentes mostras de contentamento. Adverti que devia ser assim mesmo; eu pagara-lhe
bem, pagara-lhe talvez demais. Meti os dedos no bolso do colete que trazia no corpo e senti
umas moedas de cobre; eram os vintns que eu devera ter dado ao almocreve, em lugar do
cruzado em prata. Porque, enfim, ele no levou em mira nenhuma recompensa ou virtude,
cedeu a um impulso natural, ao temperamento, aos hbitos do ofcio; acresce que a
circunstncias de estar, no mais adiante nem mais atrs, mas justamente no ponto do
desastre, parecia constitu-lo simples instrumento da Providncia; e de um ou de outro
modo, o mrito do ato era positivamente nenhum. Fiquei desconsolado com esta reflexo,
chamei-me prdigo, lancei o cruzado  conta das minhas dissipaes antigas; tive (por que
no direi tudo?) tive remorsos.
CAPTULO XXII / VOLTA AO RIO
JUMENTO de uma figa, cortaste-me o fio s reflexes. J agora no digo o que pensei dali
at Lisboa, nem o que fiz em Lisboa, na pennsula e em outros lugares da Europa, da velha
Europa, que nesse tempo parecia remoar. No, no direi que assisti s alvoradas do
romantismo, que tambm eu fui fazer poesia efetiva no regao da Itlia; no direi cousa
nenhuma. Teria de escrever um dirio de viagem e no umas memrias, como estas so, nas
quais s entra a substncia da vida.
Ao cabo de alguns anos de peregrinao, atendi as splicas de meu pai; --"Vem, dizia ele na
ltima carta; se no vieres depressa, achars tua me morta! Esta ltima palavra foi para
mim um golpe. Eu amava minha me; tinha ainda diante dos olhos as circunstncias da
ltima bno que ela me dera, a bordo do navio. "Meu triste filho, nunca mais te verei",
soluava a pobre senhora apertando-me ao peito. E essas palavras ressoavam-me agora,
como um profecia realizada.
Note-se que eu estava em Veneza, ainda recendente aos versos de lord Byron; l estava,
mergulhado em pleno sonho, revivendo o pretrito, crendo-me na Serenssima Repblica. 
verdade; uma vez aconteceu-me perguntar ao locandeiro se o doge ia a passeio nesse dia. --
Que doge, signor mio? Ca em mim, mas no confessei a iluso; disse-lhe que a minha
pergunta era um gnero de charada americana; ele mostrou compreender, e acrescentou que
gostava muitos das charadas americanas. Era um locandeiro. Pois deixei tudo isso, o
locandeiro, o locandeiro, o doge, a Ponte dos Suspiros, a gndola, os versos do lord, as
damas do Rialto, deixei tudo e disparei como uma bala na direo do Rio de Janeiro.
Vim. . . Mas no; no alonguemos este captulo. s vezes, esqueo-me a escrever, e a pena
vai comendo papel, com grave prejuzo meu, que sou autor. Captulos compridos quadram
melhor a leitores pesades; e ns no somos um pblico in-folio, mas in-12, pouco texto,
larga margem, tipo elegante, corte dourado e vinhetas... principalmente vinhetas... No, no
alonguemos o captulo.
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CAPTULO XXIII / TRISTE, MAS CURTO
VIM. NO NEGO que, ao avistar a cidade natal, tive uma sensao nova. No era efeito da
minha ptria poltica; era-o do lugar da infncia, a rua, a torre, o chafariz da esquina, a
mulher de mantilha, o preto do ganho, as cousas e cenas da meninice, buriladas na memria.
Nada menos que uma renascena. O esprito, como um pssaro, no se lhe deu da corrente
dos anos, arrepiou o vo na direo da fonte original, e foi beber da gua fresca e pura,
ainda no mesclada do enxurro da vida.
Reparando bem, h a um lugar-comum. Outro lugar-comum, tristemente comum, foi a
consternao da famlia. Meu pai abraou-me com lgrimas. -- Tua me no pode viver,
disse-me. Com efeito, no era j o reumatismo que a matava, era um cancro no estmago. A
infeliz padecia de um modo cru, porque o cancro  indiferente s virtudes do sujeito; quando
ri, ri; roer  o seu ofcio. Minha irm Sabina, j ento casada com o Cotrim, andava a cair
de fadiga. Pobre moa! dormia trs horas por noite, nada mais. O prprio tio Joo estava
abatido e triste. D. Eusbia e algumas outras senhoras l estavam tambm, no menos tristes
e no menos dedicadas.
--Meu filho!
A dor suspendeu por um pouco as tenazes; um sorriso alumiou o rosto da enferma, sobre o
qual a morte batia a asa eterna. Era menos um rosto do que uma caveira: a beleza passara,
como um dia brilhante; restavam os ossos, que no emagrecem nunca. Mal poderia
conhec-la; havia oito ou nove anos que nos no vamos. Ajoelhado, ao p da cama, com as
mos dela entre as minhas, fiquei mudo e quieto, sem ousar falar, porque cada palavra seria
um soluo, e ns temamos avis-la do fim. Vo temor! Ela sabia que estava prestes a
acabar; disse-mo; verificamo-lo na seguinte manh.
Longa foi a agonia, longa e cruel, de uma crueldade minuciosa fria, repisada, que me encheu
de dor e estupefao. Era a primeira vez que eu via morrer algum. Conhecia a morte de
outiva; quando muito, tinha-a visto j petrificada no rosto de algum cadver, que
acompanhei ao cemitrio, ou trazia-lhe a idia embrulhada nas amplificaes de retrica dos
professores de cousas antigas, -- a morte aleivosa de Csar, a austera de Scrates, a
orgulhosa de Cato. Mas esse duelo do ser e do no ser, a morte em ao, dolorida,
contrada convulsa, sem aparelho poltico ou filosfico, a morte de uma pessoa amada, essa
foi a primeira vez que a pude encarar. No chorei; lembra-me que no chorei durante o
espetculo: tinha os olhos estpidos, a garganta presa, a conscincia boquiaberta. Qu? uma
criatura to dcil, to meiga, to santa, que nunca jamais fizera verter uma lgrima de
desgosto, me carinhosa, esposa imaculada, era fora que morresse assim, trateada, mordida
pelo dente tenaz de uma doena sem misericrdia? Confesso que tudo aquilo me pareceu
obscuro, incongruente, insano...
Triste captulo; passemos a outro mais alegre.
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CAPTULO XXIV / CURTO, MAS ALEGRE
FIQUEI PROSTADO. E contudo era eu, nesse tempo, um fiel compndio de trivialidade e
presuno. Jamais o problema da vida e da morte me oprimira o crebro; nunca at esse dia
me debruara sobre o abismo do inexplicvel; faltava-me o essencial, que  o estmulo, a
vertigem. . .
Para lhes dizer a verdade toda, eu refletia as opinies de um cabeleireiro, que achei em
Mdena, e que se distinguia por no as ter absolutamente. Era a flor dos cabeleireiros; por
mais demorada que fosse a operao do toucado, no enfadava nunca; ele intercalava as
penteadelas com muitos motes e pulhas, cheios de um pico, de um sabor... No tinha outra
filosofia. Nem eu. No digo que a Universidade me no tivesse ensinado alguma; mas eu
decorei-lhe s as frmulas, o vocabulrio, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim;
embolsei trs versos de Virglio, dous de Horcio, uma dzia de locues morais e polticas,
para as despesas da conversao. Tratei-os como tratei a histria e a jurisprudncia. Colhi de
todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentao...
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realo a minha mediocridade;
advirta que a franqueza  a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinio, o
contraste dos interesses, a luta das cobias obrigam a gente a calar os trapos velhos, a
disfarar os rasges e os remendos, a no estender ao mundo as revelaes que faz 
conscincia; e o melhor da obrigao  quando, a fora de embaar os outros, embaa-se um
homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que  uma sensao penosa e a
hipocrisia, que  um vcio hediondo. Mas, na morte, que diferena! que desabafo! que
liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas,
despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de
ser! Porque, em suma, j no h vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem
estranhos; no h platia. O olhar da opinio, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude,
logo que pisamos o territrio da morte; no digo que ele se no estenda para c, e nos no
examine e julgue; mas a ns  que no se nos d do exame nem do julgamento. Senhores
vivos, no h nada to incomensurvel como o desdm dos finados.
CAPTULO XXV/ NA TIJUCA
Ui! L ME IA a pena a escorregar para o enftico. Sejamos simples, como era simples a
vida que levei na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha me.
No stimo dia, acabada a missa fnebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa,
charutos, um moleque, o Prudncio do captulo XI,-- e fui meter-me numa velha casa de
nossa propriedade. Meu pai forcejou por me torcer a resoluo, mas eu  que no podia nem
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queria obedecer-lhe. Sabina desejava que eu fosse morar com ela algum tempo, duas
semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar  fina fora. Era um bom rapaz
este Cotrim; passara de estrina a circunspecto. Agora comerciava em gneros de estiva,
labutava de manh at  noite, com ardor, com perseverana. De noite, sentado  janela, a
encaracolar as suas, no pensava em outra cousa. Amava a mulher e um filho, que ento
tinha, e que lhe morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.
Renunciei tudo; tinha o esprito atnito. Creio que por ento  que comeou a desabotoar em
mim a hipocondria, essa flor amarela, solitria e mrbida, de um cheiro inebriante e
sutil.--"Que bom que  estar triste e no dizer cousa nenhuma!" -- Quando esta palavra de
Shakespeare me chamou a ateno, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso.
Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas
mos e o esprito mais cabisbaixo do que a figura, -- ou jururu como dizemos de galinhas
tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensao nica, uma cousa a que
poderia chamar volpia do aborrecimento. Volpia do aborrecimento: decora esta
expresso, leitor; guarda-a, examina-a, e se no chegares a entend-la, podes concluir que
ignoras uma das sensaes mais sutis desse mundo e daquele tempo.
s vezes, caava, outras dormia, outras lia, -- lia muito,-- outras enfim no fazia nada;
deixava-me atoar de idia em idia, de imaginao em imaginao, como uma borboleta
vadia ou faminta. As horas iam pingando uma a uma, o sol caa, as sombras da noite
velavam a montanha e a cidade. Ningum me visitava; recomendei expressamente que me
deixassem s. Um dia, dous dias, trs dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer
palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulcio. Com efeito, ao
cabo de sete dias estava farto da solido; a dor aplacara; o esprito j se no contentava com
o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do cu. Reagia a mocidade,
era preciso viver. Meti no ba o problema da vida e da morte, os hipocondracos do poeta,
as camisas, as meditaes, as gravatas, e ia fech-lo quando o moleque Prudncio me disse
que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na vspera para uma casa roxa, situada a
duzentos passos da nossa.
--Quem?
--Nhonh talvez no se lembre mais de D. Eusbia...
--Lembra-me...  ela?
--Ela e a filha. Vieram ontem de manh.
Ocorreu-me logo o episdio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos
tinham-me dado razo. Na verdade, fora impossvel evitar as relaes ntimas do Vilaa com
a irm do sargento-mor; antes mesmo do meu embarque, j se boquejava misteriosamente
no nascimento de uma menina. Meu tio Joo mandou-me dizer depois que o Vilaa, ao
morrer, deixara um bom legado a D. Eusbia, cousa que deu muito que falar em todo o
bairro. O prprio tio Joo, guloso de escndalos, no tratou de outro assunto na carta, alis
de muitas folhas. Tinham-me dado razo os acontecimentos. Ainda porm que ma no
dessem, 1814 l ia longe, e, com ele, a travessura, e o Vilaa, e o beijo da moita; finalmente,
nenhumas relaes estreitas existiam entre mim e ela. Fiz comigo essa reflexo e acabei de
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fechar o ba.
--Nhonh no vai visitar sinh D. Eusbia? perguntou-me o Prudncio. Foi ela quem vestiu
o corpo da minha defunta senhora.
Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por ocasio da morte e do enterro; ignorava
porm que ela houvesse prestado a minha me esse derradeiro obsquio. A ponderao do
moleque era razovel; eu devia-lhe uma visita; determinei faz-la imediatamente e descer.
CAPTULO XXVI / O AUTOR HESITA
SBITO OUO uma voz: -- Ol, meu rapaz, isto no  vida! Era meu pai, que chegava com
duas propostas na algibeira. Sentei-me no ba e recebi-o sem alvoroo. Ele esteve alguns
instantes de p, a olhar para mim; depois estendeu-me a mo com um gesto comovido:
--Meu filho, conforma-te com a vontade de Deus.
--J me conformei, foi a minha resposta, e beijei-lhe a mo. No tinha almoado;
almoamos juntos. Nenhum de ns aludiu ao triste motivo da minha recluso. Uma s vez
falamos nisso, de passagem, quando meu pai fez recair a conversa na Regncia: foi ento
que aludiu  carta de psames que um dos Regentes lhe mandara. Trazia a carta consigo, j
bastante amarrotada, talvez por hav-la lido a muitas outras pessoas. Creio haver dito que
era de um dos Regentes. Leu-ma duas vezes.
--J lhe fui agradecer este sinal de considerao, concluiu meu pai, e acho que deves ir
tambm...
--Eu?
--Tu;  um homem notvel, faz hoje s vezes de Imperador. Demais trago comigo uma idia,
um projeto, ou... sim, digo-te tudo; trago dous projetos, um lugar de deputado e um
casamento.
Meu pai disse isto com pausa, e no no mesmo tom, mas dando s palavras um jeito e
disposio cujo fim era cav-las mais profundamente no meu esprito. A proposta, porm,
desdizia tanto das minhas sensaes ltimas, que eu cheguei a no entend-la bem. Meu pai
no fraqueou e repetiu-a; encareceu o lugar e a noiva.
--Aceitas?
--No entendo de poltica, disse eu depois de um instante; quanto  noiva... deixe-me viver
como um urso, que sou.
--Mas os ursos casam-se, replicou ele.
--Pois traga-me uma ursa. Olhe, a Ursa-Maior...
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Riu-se meu pai, e depois de rir, tornou a falar srio. Era-me necessria a carreira poltica,
dizia ele, por vinte e tantas razes, que deduziu com singular volubilidade, ilustrando-as
com exemplos de pessoas do nosso conhecimento. Quanto  noiva, bastava que eu a visse;
se a visse, iria logo pedi-la ao pai, logo, sem demora de um dia. Experimentou assim a
fascinao, depois a persuaso, depois a intimao; eu no dava resposta, afiava a ponta de
um palito ou fazia bolas de miolo de po, a sorrir ou a refletir; e, para tudo dizer, nem dcil
nem rebelde  proposta. Sentia-me aturdido. Uma parte de mim mesmo dizia que sim, que
uma esposa formosa e uma posio poltica eram bens dignos de apreo; outra dizia que
no; e a morte de minha me me aparecia como um exemplo da fragilidade das cousas, das
afeies, da famlia...
--No vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo
as slabas com o dedo.
Bebeu o ltimo gole de caf; repoltreou-se e entrou a falar de tudo, do senado, da cmara, da
Regncia, da restaurao? do Evaristo, de um coche que pretendia comprar, da nossa casa de
Mata cavalos... Eu deixava-me estar ao canto da mesa, a escrever desvairadamente num
pedao de papel, com uma ponta de lpis; traava uma palavra, uma frase, um verso, um
nariz, um tringulo, e repetia-os muitas vezes, sem ordem, ao acaso, assim:
arma virumque cano
A
arma virumque cano
Arma virumque cano
arma virumque cano
arma virumque cano
virunque
Maquinalmente tudo isto; e, no obstante, havia certa lgica, certa deduo, por exemplo,
foi o virumque que me fez chegar ao nome do prprio poeta, por causa da primeira slaba- ia
a escrever virumque, e sai-me Virglio, ento continuei:
Vir glio
Virglio Virglio Virglio
Virglio
Meu pai, um pouco despeitado com aquela indiferena, ergueu-se veio a mim, lanou os
olhos ao papel...
--Virglio! exclamou. s tu, meu rapaz; a tua noiva chama-se justamente Virglia.
CAPTULO XXVII / VIRGLIA?
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VIRGLIA? Mas ento era a mesma senhora que alguns anos depois? .. A mesma; era
justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus ltimos dias, e que antes, muito
antes, teve larga parte nas minhas mais ntimas sensaes. Naquele tempo contava apenas
uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raa, e, com
certeza, a mais voluntariosa. No digo que ia lhe coubesse a primazia da beleza, entre as
mocinhas do tempo, porque isto no  romance, em que o autor sobredoura a realidade e
fecha os olhos s sardas e espinhas; mas tambm no digo que lhe maculasse o rosto
nenhuma sarda ou espinha, no. Era bonita, fresca, saa das mos da natureza, cheia daquele
feitio, precrio e eterno, que o indivduo passa a outro indivduo, para os fins secretos da
criao. Era isto Virglia, e era clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns
mpetos misteriosos; muita preguia e alguma devoo, -- devoo, ou talvez medo; creio
que medo.
A tem o leitor, em poucas linhas, o retrato fsico e moral da pessoa que devia influir mais
tarde na minha vida e era aquilo com dezesseis anos. Tu que me ls, se ainda fores viva,
quando estas pginas vierem  luz, -- tu que me ls, Virglia amada, no reparas na diferena
entre a linguagem de hoje e a que primeiro empreguei quando te vi? Cr que era to sincero
ento como agora; a morte no me tornou rabugento, nem injusto.
--Mas, dirs tu, como  que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e exprimi-la
depois de tantos anos?
Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas  isso mesmo que nos faz senhores da Terra,  esse
poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das nossas impresses e a vaidade
dos nossos afetos. Deixa l dizer Pascal que o homem  um canio pensante. No  uma
errata pensante, isso sim. Cada estao da vida  uma edio, que corrige a anterior, e que
ser corrigida tambm, at a edio definitiva, que o editor da de graa aos vermes.
CAPTULO XXVIII / CONTANTO QUE . . .
--VIRGLIA? interrompi eu.
--Sim, senhor;  o nome da noiva. Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma
moa assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos... filha do Dutra...
-- Que Dutra?
--O Conselheiro Dutra, no conheces; uma influncia poltica Vamos l, aceitas?
No respondi logo; fitei por alguns segundos a ponta do botim; declarei depois que estava
disposto a examinar as duas cousas, a candidatura e o casamento, contanto que...
-- Contanto qu?
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Contanto que no fique obrigado a aceitar as duas; creio que posso ser separadamente
homem casado ou homem pblico...
Todo o homem pblico deve ser casado, interrompeu sentenciosamente meu pai. Mas seja
como queres; estou por tudo, fico certo de que a vista far f! Demais, a noiva e o
Parlamento so a mesma cousa... isto , no... sabers depois... V; aceito a dilao,
contanto que...
-- Contanto qu?... interrompi eu, imitando-lhe a voz.
--Ah! brejeiro! Contanto que no te deixes ficar a intil, obscuro, e triste; no gastei
dinheiro, cuidados, empenhos, para te no ver brilhar, como deves, e te convm, e a todos
ns;  preciso continuar o nosso nome, continu-lo e ilustr-lo ainda mais. Olha, estou com
sessenta anos, mas se fosse necessrio comear vida nova, comeava, sem hesitar um s
minuto. Teme a obscuridade, Brs; foge do que  nfimo. Olha que os homens valem por
diferentes modos, e que o mais seguro de todos  valer pela opinio dos outros homens. No
estragues as vantagens da tua posio, os teus meios...
E foi por diante o mgico, a agitar diante de mim um chocalho, como me faziam, em
pequeno, para eu andar depressa, e a flor da hipocondria recolheu-se ao boto para deixar a
outra flor menos amarela, e nada mrbida,--o amor da nomeada, o emplasto Brs Cubas.
CAPTULO XXIX / A VISITA
VENCERA meu pai, dispus-mo a aceitar o diploma e o casamento, Virglia e a Cmara dos
Deputados. As duas Virglias, disse ele num assomo de ternura poltica. Aceitei-os; meu pai
deu-me dous fortes abraos. Era o seu prprio sangue que ele, enfim, reconhecia.
--Desces comigo?
--Deso amanh. Vou fazer primeiramente uma visita a D. Eusbia...
Meu pai torceu o nariz, mas no disse nada; despediu-se e desceu. Eu, na tarde desse mesmo
dia, fui visitar D. Eusbia. Achei-a a repreender um preto jardineiro, mas deixou tudo para
vir falar-me, com um alvoroo, um prazer to sincero, que me desacanhou logo. Creio que
chegou a cingir-me com o seu par de braos robustos. Fez-me sentar ao p de si, na varanda,
entre muitas exclamaes de contentamento:
-- Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, h anos... Um homenzarro! E bonito! Qual!
Voc no se lembra de mim. .
Disse-lhe que sim, que no era possvel esquecer uma amiga to familiar de nossa casa. D.
Eusbia comeou a falar de minha me com muitas saudades, com tantas saudades, que me
cativou logo posto me entristecesse. Ela percebeu-o nos meus olhos, e torceu a rdea 
conversao; pediu-me que lhe contasse a viagem, os estudos os namoros... Sim, os namoros
tambm; confessou-me que era uma velha patusca. Nisto recordei-me do episdio de 1814,
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ela, o Vilaa, a moita, o beijo, o meu grito; e estando a record-lo, ouo um ranger de porta,
um farfalhar de saias e esta palavra:
--Mame... mame...
CAPTULO XXX / A FLOR DA MOITA
A VOZ E AS SAIAS pertenciam a uma mocinha morena, que se deteve  porta, alguns
instantes, ao ver gente estranha. Silncio curto e constrangido. D. Eusbia quebrou-o, enfim,
com resoluo e franqueza:
--Vem c, Eugnia, disse ela, cumprimenta o Dr. Brs Cubas filho do Sr. Cubas, veio da
Europa.
E voltando-se para mim:
-- Minha filha Eugnia.
Eugnia, a flor da moita, mal respondeu ao gesto de cortesia que lhe fiz; olhou-me admirada
e acanhada, e lentamente se aproximou da cadeira da me. A me arranjou-lhe uma das
tranas do cabelo cuja ponta se desmanchara. Ah! travessa! dizia. No imagina doutor, o que
isto ... E beijou-a com to expansiva ternura que me comoveu um pouco; lembrou-me
minha me, e, -- direi tudo,-- tive umas ccegas de ser pai.
-- Travessa? disse eu. Pois j no est em idade prpria, ao que parece.
-- Quantos lhe d?
--Dezessete.
-- Menos um.
--Dezesseis. Pois ento!  uma moa
No pde Eugnia encobrir a satisfao que sentia com esta minha palavra, mas emendou-se
logo, e ficou como dantes, erecta, fria e muda. Em verdade, parecia ainda mais mulher do
que era, seria criana nos seus folgares de moa; mas assim quieta, impassvel, tinha a
compostura da mulher casada. Talvez essa circunstncia lhe diminua um pouco da graa
virginal. Depressa nos familiarizamos; a me fazia-lhe grandes elogios, eu escutava-os de
boa sombra, e ela sorria com os olhos flgidos, como se l dentro do crebro lhe estivesse a
voar uma borboletinha de asas de ouro e olhos de diamante...
Digo l dentro, porque c fora o que esvoaou foi uma borboleta preta, que subitamente
penetrou na varanda, e comeou a bater as asas em derredor de D. Eusbia. D. Eusbia deu
um grito, levantou-se, praguejou umas palavras soltas: --T'sconjuro!... Sai, diabo!... Virgem
Nossa Senhora!...
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-- No tenha medo, disse eu; e, tirando o leno, expeli a borboleta. D. Eusbia sentou-se
outra vez, ofegante, um pouco envergonhada; a filha, pode ser que plida de medo,
dissimulava a impresso com muita fora de vontade. Apertei-lhes a mo e sa, a rir comigo
da superstio das duas mulheres, um rir filosfico, desinteressado, superior. De tarde, vi
passar a cavalo a filha de D. Eusbia, seguida de um pajem; fez-me um cumprimento com a
ponta do chicote. Confesso que me lisonjeei com a idia de que alguns passos adiante ela
voltaria a cabea para trs; mas no voltou.
CAPTULO XXXI / A BORBOLETA PRETA
NO DIA SEGUINTE, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto
uma borboleta, to negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da
vspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusbia, no susto que tivera, e na
dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaar muito em
torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraa; e, porque eu a
sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra
como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, comeou a mover as asas, tinha um
certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, sa do quarto; mas tornando l,
minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelo dos nervos, lancei mo
de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.
No caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabea. Apiedei-me; tomei-a
na palma da mo e fui dep-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de
alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.
-- Tambm por que diabo no era ela azul? disse comigo. E esta reflexo, -- uma das mais
profundas que se tem feito, desde a inveno das borboletas,-- me consolou do malefcio, e
me reconciliou comigo mesmo Deixei-me estar a contemplar o cadver, com alguma
simpatia, confesso. Imaginei que ela sara do mato, almoada e feliz. A manh era linda.
Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cpula de
um cu azul, que  sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e d
comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; no sabia, portanto, o que era o homem;
descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos,
braos, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Ento disse consigo: "Este 
provavelmente o inventor das borboletas." A idia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que 
tambm sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beij-lo na
testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraa, viu dali o
retrato de meu pai, e no  impossvel que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali
o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericrdia.
Pois um golpe de toalha rematou a aventura. No lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria
das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho
cru. Vejam como  bom ser superior s borboletas! Porque,  justo diz-lo, se ela fosse azul,
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ou cor de laranja, no teria mais segura a vida; no era impossvel que eu a atravessasse com
um alfinete, para recreio dos olhos. No era. Esta ltima idia restituiu-me a consolao; uni
o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadver caiu no jardim. Era tempo; a
vinham j as prvidas formigas. . . No, volto  primeira idia; creio que para ela era melhor
ter nascido azul.
CAPTULO XXXII / COXA DE NASCENA
FUI DALI ACABAR os preparativos da viagem. J agora no me demoro mais. Deso
imediatamente; deso, ainda que algum leitor circunspecto me detenha para perguntar se o
captulo passado  apenas uma sensaboria ou se chega a empulhao... Ai, no contava com
D. Eusbia. Estava pronto, quando me entrou por casa. Vinha convidar-me para transferir a
descida, e ir l jantar nesse dia. Cheguei a recusar; mas instou tanto, tanto, tanto, que no
pude deixar de aceitar, demais, era-lhe devida aquela compensao; fui.
Eugnia desataviou-se nesse dia por minha causa. Creio que foi por minha causa, se  que
no andava muita vez assim. Sem as bichas de ouro, que trazia na vspera, lhe pendiam
agora das orelhas, duas orelhas finamente recortadas numa cabea de ninfa. Um simples
vestido branco, de cassa, sem enfeites, tendo ao colo, em vez de broche, um boto de
madreprola, e outro boto nos punhos, fechando as mangas, e nem sombra de pulseira.
Era isso no corpo; no era outra cousa no esprito. Idias claras, maneiras chs, certa graa
natural, um ar de alguma outra cousa; sim, a boca, exatamente a boca da me, a qual me
lembrava o episdio de 1814, e ento dava-me mpetos de glosar o mesmo mote  filha. . .
-- Agora vou mostrar-lhe a chcara, disse a me, logo que esgotamos o ltimo gole de caf.
Samos  varanda, dali  chcara, e foi ento que notei uma circunstncia. Eugnia coxeava
um pouco, to pouco que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o p. A me calou-se; a
filha respondeu sem titubear:
--No, senhor, sou coxa de nascena.
Mandei-me a todos os diabos; chamei-me desastrado, grosseiro. Com efeito, a simples
possibilidade de ser coxa era bastante para lhe no perguntar nada. Ento lembrou-me que
da primeira vez que a vi -- na vspera --a moa chegara-se lentamente  cadeira da me, e
que naquele dia j a achei  mesa de jantar. Talvez fosse para encobrir o defeito; mas por
que razo o confessava agora? Olhei para ela e reparei que ia triste.
Tratei de apagar os vestgios de meu desazo;-- no me foi difcil porque a me era, segundo
confessara, uma velha patusca, e prontamente travou de conversa comigo. Vimos toda a
chcara, rvores, flores, tanque de patos, tanque de lavar, uma infinidade de cousas, que ela
me ia mostrando, e comentando, ao passo que eu de soslaio, perscrutava os olhos de
Eugnia...
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Palavra que o olhar de Eugnia no era coxo, mas direito, perfeitamente so, vinha de uns
olhos pretos e tranqilos. Creio que duas ou trs vezes baixaram estes, um pouco turvados;
mas duas ou trs vezes somente; em geral, fitavam-me com franqueza, sem temeridade, nem
biocos.
CAPTULO XXXIII / BEM-AVENTURADOS OS QUE NO DESCEM
O PIOR  que era coxa. Uns olhos to lcidos, uma boca to fresca, uma compostura to
senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza  s vezes um imenso
escrnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha
fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a soluo do enigma. O
melhor que h, quando se no resolve um enigma,  sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu
fiz; lancei mo de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no
crebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que  uma fresta do esprito, deixou
novamente entrar o bichinho, e a fiquei eu a noite toda a cavar o mistrio, sem explic-lo.
Amanheceu chovendo, transferi a descida; mas no outro dia a manh era lmpida e azul, e
apesar disso deixei-me ficar, no menos que no terceiro dia. e no quarto, at o fim da
semana. Manhs bonitas, frescas, convidativas- l embaixo a famlia a chamar-me, e a
noiva, e o Parlamento, e eu sem acudir a cousa nenhuma, enlevado ao p da minha Vnus
Manca. Enlevado  uma maneira de realar o estilo; no havia enlevo, mas gosto, uma certa
satisfao fsica e moral. Queria-lhe,  verdade; ao p dessa criatura to singela, filha
espria e cosa, feita de amor e desprezo, ao p dela sentia-me bem, e ela creio que ainda se
sentia melhor ao p de mim. E isto na Tijuca. Uma simples gloga. D. Eusbia vigiava-nos,
mas pouco; temperava a necessidade com a convenincia. A filha, nessa primeira exploso
da natureza, entregava-me a alma em flor.
-- O senhor desce amanh? disse-me ela no sbado.
-- Pretendo.
-- No desa.
No desci, e acrescentei um versculo ao Evangelho: --Bem-aventurados os que no descem,
porque deles  o primeiro beijo das moas. Com efeito, foi no domingo esse primeiro beijo
de Eugnia, -- o primeiro que nenhum outro varo jamais lhe tomara, e no furtado ou
arrebatado, mas candidamente entregue, como um devedor honesto paga uma dvida. Pobre
Eugnia! Se tu soubesses que idias me vagavam pela mente fora naquela ocasio! Tu,
trmula de comoo, com os braos nos meus ombros, a contemplar em mim o teu
bem-vindo esposo, e eu com os olhos de 1814, na moita, no Vilaa, e a suspeitar que no
podias mentir ao teu sangue,  tua origem . . .
D. Eusbia entrou inesperadamente, mas no to sbita, que nos apanhasse ao p um do
outro. Eu fui at  janela; Eugnia sentou-se a concertar uma das tranas. Que dissimulao
graciosa! que arte infinita e delicada! que tartufice profunda! e tudo isso natural, vivo, no
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estudado, natural como o apetite, natural como o sono. Tanto melhor! D. Eusbia no
suspeitou nada.
CAPTULO XXXIV / A UMA ALMA SENSVEL
H A, entre as cinco ou dez pessoas que me lem, h a uma aia sensvel, que est decerto
um tanto agastada com o captulo anterior, comea a tremer pela sorte de Eugnia, e talvez...
sim, talvez, l no fundo de si mesma, me chame cnico. Eu cnico, alma sensvel? Pela coxa
de Diana! esta injria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma cousa
nesse mundo. No, alma sensvel, eu no sou cnico, eu fui homem; meu crebro foi um
tablado em que se deram peas de todo gnero, o drama sacro, o austero, o piegas, a
comdia lou, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemonium, alma
sensvel, uma barafunda de cousas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de
Esmirna at a arruda do teu quintal, desde o magnfico leito de Clepatra at o recanto da
praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vria casta e
feio. No havia ali a atmosfera somente da guia e do beija-flor; havia tambm a da lesma
e do sapo. Retira, pois, a expresso, alma sensvel, castiga os nervos, limpa os culos, -- que
isso s vezes  dos culos, e acabemos de uma vez com esta flor da moita.
CAPTULO XXXV / O CAMINHO DE DAMASCO
ORA ACONTECEU, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco,
ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Ar. IX, 7): "Levanta-te,
e entra na cidade." Essa voz saa de mim mesmo, e tinha duas origens a piedade, que me
desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e despos-la. Uma
mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, no h duvidar que ela o achou e mo
disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manh
viria para baixo. -- Adeus, suspirou ela estendendo-me a mo com simplicidade; faz bem --
E como eu nada dissesse, continuou: -- Faz bem em fugir ao ridculo de casar comigo. Ia
dizer-lhe que no; ela retirou-se lentamente, engolindo as lgrimas. Alcancei-a a poucos
passos, e jurei-lhe por todos os santos do Cu que eu era obrigado a descer, mas que no
deixava de lhe querer e muito; tudo hiprboles frias, que ela escutou sem dizer nada.
-- Acredita-me? perguntei eu no fim.
-- No, e digo-lhe que faz bem.
Quis ret-la, mas o olhar que me lanou no foi j de splica, seno de imprio. Desci da
Tijuca, na manh seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito. Vinha dizendo a
mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraar a carreira
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poltica... que a constituio... que a minha noiva... que o meu cavalo...
CAPTULO XXXVI / A PROPSITO DE BOTAS
MEU PAI, que me no esperava, abraou-me cheio de ternura e agradecimento. Agora 
deveras? disse ele. Posso enfim. . .?
deixei-o nessa reticncia, e fui descalar as botas, que estavam apertadas. Uma vez aliviado,
respirei  larga, e deitei-me a fio comprido, enquanto os ps, e todo eu atrs deles,
entrvamos numa relativa bem-aventurana. Ento considerei que as botas apertadas so
uma das maiores venturas da Terra, porque, fazendo doer os ps, do azo ao prazer de as
descalar. Mortifica os ps, desgraado, desmortifica-os depois, e a tens a felicidade barata,
ao sabor dos sapateiros e de Epicuro. Enquanto esta idia me trabalhava no famoso trapzio,
lanava eu os olhos para a Tijuca, e via a aleijadinha perder-se no horizonte do pretrito, e
sentia que o meu corao no tardaria tambm a descalar as suas botas. E descalou-as o
lascivo. Quatro ou cinco dias depois, saboreava esse rpido, inefvel e incoercvel momento
de gozo, que sucede a uma dor pungente, a uma preocupao, a um incmodo... Daqui inferi
eu que a vida  o mais engenhoso dos fenmenos, porque s agua a fome, com o fim de
deparar a ocasio de comer, e no inventou os calos, seno porque eles aperfeioam a
felicidade terrestre. Em verdade vos digo que toda a sabedoria humana no vale um par de
botas curtas.
-- Tu, minha Eugnia,  que no as descalaste nunca; foste a pela estrada da vida,
manquejando da perna e do amor, triste como os enterros pobres, solitria, calada, laboriosa,
at que vieste tambm para esta outra margem... O que eu no sei  se a tua existncia era
muito necessria ao sculo. Quem sabe? Talvez um comparsa de menos fizesse patear a
tragdia humana.
CAPTULO XXXVII / ENFIM!
ENFIM! eis aqui Virglia. Antes de ir  casa do Conselheiro Dutra, perguntei a meu pai se
havia algum ajuste prvio de casamento.
-- Nenhum ajuste. H tempos, conversando com ele a teu respeito, confessei-lhe o desejo
que tinha de te ver deputado; e de tal modo falei, que ele prometeu fazer alguma cousa, e
creio que o far. Quanto  noiva,  o nome que dou a uma criaturinha, que  uma jia, uma
flor, uma estrela, uma cousa rara. . .  a filha dele; imaginei que, se casasses com ela, mais
depressa serias deputado.
-- S isto?
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--S isto.
Fomos dali  casa do Dutra. Era uma prola esse homem, risonho, jovial, patriota, um pouco
irritado com os males pblicos, mas no desesperando de os curar depressa. Achou que a
minha candidatura era legtima; convinha, porm, esperar alguns meses. E logo me
apresentou  mulher, uma estimvel senhora,--e  filha, que no desmentiu em nada o
panegrico de meu pai. Juro-vos que em nada. Relede o captulo XXVII. Eu, que levava
idias a respeito da pequena, fitei-a de certo modo; ela, que no sei se as tinha, no me fitou
de modo diferente; e o nosso olhar primeiro foi pura e simples mente conjugal. No fim de
um ms estvamos ntimos.
CAPTULO XXXVIII / A QUARTA EDIO
-- VENHA C jantar amanh, disse-me o Dutra uma noite.
Aceitei o convite. No dia seguinte, mandei que a sege me esperasse no Largo de S.
Francisco de Paula, e fui dar vrias voltas. Lembra-vos ainda a minha teoria das edies
humanas? Pois sabei que, naquele tempo, estava eu na quarta edio, revista e emendada,
mas ainda inada de descuidos e barbarismos; defeito que, alis, achava alguma
compensao no tipo, que era elegante, e na encadernao, que era luxuosa. Dadas as voltas,
ao passar pela Rua dos Ourives, consulto o relgio e cai-me o vidro na calada. Entro na
primeira loja que tinha  mo; era um cubculo, pouco mais,-- empoeirado e escuro.
Ao fundo, por trs do balco, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento
no se destacava logo,  primeira vista; mas logo que se destacava era um espetculo
curioso. No podia ter sido feia; ao contrrio, via-se que fora bonita, e no pouco bonita,
mas a doena e uma velhice precoce destruam-lhe a flor das graas. As bexigas tinham sido
terrveis; os sinais, grandes e muitos, faziam salincias e encarnas, declives e aclives, e
davam uma sensao de lisa grossa, enormemente grossa. Eram os olhos a melhor parte do
vulto, e alis tinham uma expresso singular e repugnante, que mudou, entretanto, logo que
eu comecei a falar. Quanto ao cabelo, estava ruo e quase to poento como os portais da
loja. Num dos dedos da mo esquerda fulgia-lhe um diamante. Cr-lo-eis, psteros? essa
mulher era Marcela.
No a conheci logo; era difcil; ela porm conheceu-me apenas lhe dirigi a palavra. Os olhos
chisparam e trocaram a expresso usual por outra, meia doce e meia triste. Vi-lhe um
movimento coma para esconder-se ou fugir; era o instinto da vaidade, que no durou mais
de um instante. Marcela acomodou-se e sorriu.
--Quer comprar alguma cousa? disse ela estendendo-me a mo. No respondi nada. Marcela
compreendeu a causa do meu silencio (no era difcil), e s hesitou, creio eu, em decidir o
que dominava mais, se o assombro do presente, se a memria do passado. Deu-me uma
cadeira, e, com o balco permeio, falou-me longamente de si, da vida que levara, das
lgrimas que eu lhe fizera verter, das saudades, dos desastres, enfim das bexigas, que lhe
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escalavraram o rosto, e do tempo, que ajudou a molstia, adiantando-lhe a decadncia.
Verdade  que tinha a alma decrpita. Vendera tudo, quase tudo; um homem, que a amara
outrora, e lhe morreu nos braos. Deixara-lhe aquela loja de ourivesaria, mas para que a
desgraa fosse completa, era agora pouco buscada a loja-- talvez pela singularidade de a
dirigir uma mulher. Em seguida pediu-me que lho contasse a minha vida. Gastei pouso
tempo em dizer-lha; no era longa, nem interessante.
-- Casou? disse Marcela no fim de minha narrao.
-- Ainda no, respondi secamente.
Marcela lanou os olhos para a rua, com a atonia de quem reflete ou relembra; eu deixei-me
ir ento ao passado, e, no meio das recordaes e saudades, perguntei a mim mesmo por que
motivo fizera tanto desatino. No era esta certamente a Marcela de 1822; mas a beleza de
outro tempo valia uma tera parte dos meus sacrifcios? Era o que eu buscava saber,
interrogando o rosto de Marcela. O rosto dizia-me que no; ao mesmo tempo os olhos me
contavam que, j outrora, como hoje, ardia neles a flama da cobia. Os meus  que no
souberam ver-lha; eram olhos da primeira edio.
-- Mas por que entrou aqui? viu-me da rua? perguntou ela, saindo daquela espcie de torpor.
--No, supunha entrar numa casa de relojoeiro; queria comprar um vidro para este relgio;
vou a outra parte; desculpe-me; tenho pressa.
Marcela suspirou com tristeza. A verdade  que eu me sentia pungido e aborrecido, ao
mesmo tempo, e ansiava por me ver fora daquela casa. Marcela, entretanto, chamou um
moleque, deu-lhe o relgio, e, apesar da minha oposio, mandou-o, a uma loja na
vizinhana, comprar o vidro. No havia remdio; sentei-me outra vez. Disse ela ento que
desejava ter a proteo dos conhecidos de outro tempo; ponderou que mais tarde ou mais
cedo era natural que me casasse, e afianou que me daria finas jias por preos baratos. No
disse preos baratos, mas usou uma metfora delicada e transparente. Entrei a desconfiar
que no padecera nenhum desastre (salvo a modstia), que tinha o dinheiro a bom recado, e
que negociava com o nico fim de acudir  paixo do lucro, que era o verme roedor daquela
existncia; foi isso mesmo que me disseram depois.
CAPTULO XXXIX / O VIZINHO
ENQUANTO EU fazia comigo mesmo aquela reflexo, entrou na loja um sujeito baixo, sem
chapu, trazendo pela mo uma menina de quatro anos.
--Como passou de boje de manh? disse ele a Marcela.
--Assim, assim. Vem c, Maricota.
O sujeito levantou a criana pelos braos e passou-a para dentro do balco.
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--Anda, disse ele; pergunta a D. Marcela como passou a noite. Estava ansiosa por vir c,
mas a me no tinha podido vesti-la.., Ento, Maricota? Toma a bno... Olha a vara de
marmelo! Assim... No imagina o que ela  l em casa; fala na senhora a todos os instantes,
e aqui parece a pamonha. Ainda ontem... Digo, Maricota?
--No, diga, no, papai.
--Ento foi alguma cousa feia? perguntou Marcela batendo na cara da menina.
--Eu lhe digo; a me ensina-lhe a rezar todas as noites um padre-nosso e uma ave-maria,
oferecidos a Nossa Senhora; mas a pequena ontem veio pedir-me com voz muito humilde...
imagine o qu?... que queria oferec-los a Santa Marcela.
--Coitadinha! disse Marcela beijando-a.
--  um namoro, uma paixo, como a senhora no imagina... A me diz que  feitio...
Contou mais algumas cousas o sujeito, todas mui agradveis, at que saiu levando a menina,
no sem deitar-me um olhar interrogativo ou suspeitoso. Perguntei a Marcela quem era ele.
--  um relojoeiro da vizinhana, um bom homem; a mulher tambm; e a filha  galante,
no? Parecem gostar muito de mim...  boa gente.
Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela; e no rosto como
que se lhe espraiou uma onda de ventura. . .
CAPTULO XL / NA SEGE
NISTO ENTROU o moleque trazendo o relgio com o vidro novo. Era tempo; j me
custava estar ali; dei uma moedinha de prata ao moleque; disse a Marcela que voltaria
noutra ocasio, e sa a passo largo. Para dizer tudo, devo confessar que o corao me batia
um pouco; mas era uma espcie de dobre de finados. O esprito ia travado de impresses
opostas. Notem que aquele dia amanhecera alegre para mim. Meu pai, ao almoo,
repetiu-me, por antecipao, o primeiro discurso que eu tinha de proferir na Cmara dos
Deputados; rimo-nos muito, e o sol tambm, que estava brilhante, como nos mais belos dias
do mundo; do mesmo modo que Virglia devia rir, quando eu lhe contasse as nossas
fantasias do almoo. Vai seno quando, cai-me o vidro do relgio; entro na primeira loja que
me fica  mo; e eis me surge o passado, ei-lo que me lacera e beija; ei-lo que me interroga,
com um rosto cortado de saudades e bexigas...
L o deixei; meti-me s pressas na sege, que me esperava no Largo de S. Francisco de
Paula, e ordenei ao boleeiro que rodasse pelas ruas fora. O boleeiro atiou as bestas, a sege
entrou a sacolejar-me, as molas gemiam, as rodas sulcavam rapidamente a lama que deixara
a chuva recente, e tudo isso me parecia estar parado. No h, s vezes, um certo vento
morno, no forte nem spero, mas abafadio, que nos no leva o chapu da cabea, nem
rodomoinha nas saias das mulheres, e todavia  ou parece ser pior do que se fizesse uma e
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outra cousa, porque abate, afrouxa, e como que dissolve os espritos? Pois eu tinha esse
vento comigo; e, certo de que ele me soprava por achar-me naquela espcie de garganta
entre o passado e o presente, almejava por sair  plancie do futuro. O pior  que a sege no
andava.
-- Joo, bradei eu ao boleeiro. Esta sege anda ou no anda?
--U! nhonh! J estamos parados na porta de sinh Conselheiro.
CAPTULO XLI / A ALUCINAO
ERA VERDADE. Entrei apressado; achei Virglia ansiosa, mau humor, fronte nublada. A
me, que era surda, estava na sala com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a moa com
sequido:
-- Espervamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; falei do cavalo que empacara, e de um amigo, que me
detivera. De repente morre-me a voz nos lbios, fico tolhido de assombro. Virglia... seria
Virglia aquela moa? Fitei-a muito, e a sensao foi to penosa, que recuei um passo e
desviei a vista. Tornei a olh-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a pele, ainda na
vspera to fina, rosada e pura, aparecia-me agora amarela, estigmada pelo mesmo flagelo,
que devastara o rosto da espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha
o lbio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mo, e chamei-a brandamente a
mim. No me enganava; eram as bexigas. Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virglia afastou-se, e foi sentar-se no sof. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus
prprios ps. Devia sair ou ficar? Rejeitei o primeiro alvitre, que era simplesmente absurdo,
e encaminhei-me para Virglia, que l estava sentada e calada. Cus! Era outra vez a fresca,
a juvenil, a florida Virglia. Em vo procurei no rosto dela algum vestgio da doena;
nenhum havia; era a pele fina e branca do costume.
--Nunca me viu? perguntou Virglia, vendo que a encarava com insistncia.
-- To bonita, nunca.
Sentei-me, enquanto Virglia, calada, fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de
pausa. Falei-lhe de cousas estranhas ao incidente; ela porm no me respondia nada, nem
olhava para mim. Menos o estalido, era a esttua do Silncio. Uma s vez me deitou os
olhos, mas muito de cima, soerguendo a pontinha esquerda do lbio, contraindo as
sobrancelhas, ao ponto de as unir; todo esse conjunto de cousas dava-lhe ao rosto uma
expresso mdia, entre cmica e trgica.
Havia alguma afetao naquele desdm; era um arrebique do gesto. L dentro, ela padecia, e
no pouco, ou fosse mgoa pura, ou s despeito; e porque a dor que se dissimula di mais, 
mui provvel que Virglia padecesse em dobro do que realmente descia padecer. Creio que
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isto  metafsica.
CAPTULO XLII / QUE ESCAPOU A ARISTTELES
OUTRA COUSA que tambm me parece metafsica  isto: D-se movimento a uma bola,
por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda boa a
rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, --  uma
simples suposio; a segunda, Brs Cubas; a terceira, Virglia. Temos que Marcela,
recebendo um piparote do passado rolou at tocar em Brs Cubas, o qual, cedendo  fora
impulsiva, entrou a rolar tambm at esbarrar em Virglia, que no tinha nada com a
primeira bola; e eis a como, pela simples transmisso de uma fora, se tocam os extremos
sociais, e se estabelece uma cousa que poderemos chamar solidariedade do aborrecimento
humano. Co mo  que este captulo escapou a Aristteles?
CAPTULO XLIII / MARQUESA, PORQUE EU SEREI MARQUS
POSITIVAMENTE, era um diabrete Virglia, um diabrete anglico, se querem, mas era-o, e
ento...
Ento apareceu o Lobo Neves, um homem que no era mais esbelto que eu, nem mais
elegante, nem mais lido, nem mais simptico, e todavia foi quem me arrebatou Virglia e a
candidatura, dentro de poucas semanas, com um mpeto verdadeiramente cesariano. No
precedeu nenhum despeito; no houve a menor violncia de famlia. Dutra veio dizer-me,
um dia. que esperasse outra aragem, porque a candidatura de Lobo Neves era apoiada por
grandes influencias. Cedi; tal foi o comeo da minha derrota. Uma semana depois, Virglia
perguntou ao Lobo Neves, a sorrir, quando seria ele ministro.
-- Pela minha vontade, j; pelas dos outros, daqui a um ano. Virglia replicou:
Promete que algum dia me far baronesa?
Marquesa, porque eu serei marqus.
Desde ento fiquei perdido. Virglia comparou a guia e o pavo, e elegeu a guia, deixando
o pavo com o seu espanto, o seu despeito, e trs ou quatro beijos que lhe dera. Talvez cinco
beijos; mas dez que fossem no queria dizer cousa nenhuma. O lbio do homem no  como
a pata do cavalo de Atila, que esterilizava o solo em que batia;  justamente o contrrio.
CAPTULO XLIV / UM CUBAS!
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MEU PAI ficou atnito com o desenlace, e quer-me parecer que no morreu de outra cousa.
Eram tantos os castelos que engenhara, tantos e tantssimos os sonhos, que no podia v-los
assim esboroados, sem padecer um forte abalo no organismo. A princpio no quis cr-lo.
Um Cubas! um galho da rvore ilustre dos Cubas! E dizia isto com tal convico, que eu, j
ento informado da nossa tanoaria, esqueci um instante a volvel dama, para s contemplar
aquele fenmeno, no raro, mas curioso: uma imaginao graduada em conscincia.
--Um Cubas! repetia-me ele na seguinte manh, ao almoo. No foi alegre o almoo; eu
prprio estava a cair de sono. Tinha velado uma parte da noite. De amor? Era impossvel
no se ama duas vezes a mesma mulher, e eu, que tinha de amar aquela, tempos depois, no
lhe estava agora preso por nenhum outro vnculo, alm de uma fantasia passageira, alguma
obedincia e muita fatuidade. E isto basta a explicar a viglia; era despeito, um
despeitozinho agudo como ponta de alfinete, o qual se desfez, com charutos, murros, leituras
truncadas, at romper a aurora, a mais tranqila das auroras.
Mas eu era moo, tinha o remdio em mim mesmo. Meu pai  que no pde suportar
facilmente a pancada. Pensando bem, pode ser que no morresse precisamente do desastre;
mas que o desastre lhe complicou as ltimas dores,  positivo. Morreu da a quatro meses,
acabrunhado, triste, com uma preocupao intensa e contnua,  semelhana de remorso, um
desencanto mortal, que lhe substituiu os reumatismos e tosses. Teve ainda meia hora de
alegria; foi quando um dos ministros o visitou. Vi-lhe, -- lembra-me bem, vi-lhe o grato
sorriso de outro tempo, e nos olhos uma concentrao de 1uz, que era, por assim dizer, o
ltimo lampejo da alma expirante. Mas a tristeza tornou logo, a tristeza de morrer sem me
ver posto em algum lugar alto, como alis me cabia.
--Um Cubas!
Morreu alguns dias depois da visita do ministro, uma manh de maio, entre os dois filhos,
Sabina e eu, e mais o tio Ildefonso e meu cunhado. Morreu sem lhe poder valer a cincia dos
mdicos, nem o nosso amor, nem os cuidados, que foram muitos, nem cousa nenhuma; tinha
de morrer, morreu.
-- Um Cubas!
CAPTULO XLV / NOTAS
SOLUOS, lgrimas, casa armada, veludo preto nos portais, um homem que veio vestir o
cadver, outro que tomou a medida do caixo, essa, tocheiros, convites, convidados que
entravam, lentamente, a passo surdo, e apertavam a mo  famlia, alguns tristes, todos
srios e calados, padre e sacristo do caixo, a prego e martelo, seis pessoas que o tomam da
essa, e o levantam, e o descem a custo pela escada, no obstante os gritos, soluos e novas
lgrimas da famlia, e vo at o coche fnebre, e o colocam em cima e traspassam e apertam
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as correias, o rodar do coche, o rodar dos carros, um a um... Isto que parece um simples
inventrio, eram notas que eu havia tomado para um captulo triste e vulgar que no escrevo.
CAPTULO XLVI / A HERANA
VEJA NOS AGORA o leitor, oito dias depois da morte de meu pai,-- minha irm sentada
num sof, pouco adiante, Cotrim, de p, encostado a um consolo, com os braos cruzados e
a morder o bigode,-- eu a passear de um lado para outro, com os olhos no cho. Luto
pesado. Profundo silncio.
-- Mas afinal, disse Cotrim; esta casa pouco mais pode valer de trinta contos; demos que
valha trinta e cinco. . .
-- Vale cinqenta, ponderei; Sabina sabe que custou cinqenta e oito...
-- Podia custar at sessenta, tornou Cotrim; mas no se segue que os valesse, e menos ainda
que os valha hoje. Voc sabe que as casas, aqui h anos, baixaram muito. Olhe, se esta vale
os cinqenta contos, quantos no vale a que voc deseja para si, a do Campo?
-- No fale nisso! Uma casa velha.
--Velha! exclamou Sabina, levantando as mos ao tecto.
--Parece-lhe nova, aposto?
-- Ora, mano, deixe-se dessas cousas, disse Sabina, erguendo-se do sof, podemos arranjar
tudo em boa amizade, e com lisura. Por exemplo, Cotrim no aceita os pretos, quer s o
boleeiro de papa
--O boleeiro no, acudi eu; fico com a sege e no hei de ir comprar outro.
-- Bem; fico com o Paulo e o Prudncio.
--O Prudncio est livre.
-- Livre?
-- H dous anos.
-- Livre? Como seu pai arranjava estas cousas c por casa, sem dar parte a ningum! Est
direito. Quanto  prata. . . creio que no libertou a prata?
Tnhamos falado na prata, a velha prataria do tempo de D. Jos I, a poro mais grave da
herana, j pelo lavor, j pela vetustez, j pela origem da propriedade; dizia meu pai que o
Conde da Cunha, quando vice-rei do Brasil, a dera de presente a meu bisav Lus Cubas.
-- Quanto  prata, continuou Cotrim, eu no faria questo nenhuma, se no fosse o desejo
que sua irm tem de ficar com ela; e acho-lhe razo. Sabina  casada, e precisa de uma copa
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digna, apresentvel. Voe  solteiro, no recebe, no...
--Mas posso casar.
--Para qu? interrompeu Sabina.
Era to sublime esta pergunta, que por alguns instantes me fez esquecer os interesses. Sorri;
peguei na mo de Sabina, bati-lhe levemente na palma, tudo isso com to boa sombra, que o
Cotrim interpretou o gesto como de aquiescncia, e agradeceu-mo.
--Que  l? redargi; no cedi cousa nenhuma, nem cedo.
--Nem cede?
Abanei a cabea.
--Deixa, Cotrim, disse minha irm ao marido; v se ele quer ficar tambm com a nossa
roupa do corpo;  s o que falta.
--No falta mais nada. Quer a sege, quer o boleeiro, quer a prata, quer tudo. Olhe,  muito
mais sumrio citar-nos a juzo e provar com testemunhas que Sabina no  sua irm, que eu
no sou seu cunhado e que Deus no  Deus. Faa isto, e no perde nada, nem uma
colherinha. Ora, meu amigo, outro ofcio!
Estava to agastado, e eu no menos, que entendi oferecer um meio de conciliao; dividir a
prata. Riu-se e perguntou-me a quem caberia o bule e a quem o aucareiro; e depois desta
pergunta, declarou que teramos tempo de liquidar a pretenso, quando menos em juzo.
Entretanto, Sabina fora at  janela que dava para a chcara,-- e depois de um instante,
voltou, e props ceder o Paulo e outro preto, com a condio de ficar com a prata; eu ia
dizer que no me convinha, mas Cotrim adiantou-se e disse a mesma cousa.
--Isso nunca! no fao esmolas! disse ele.
Jantamos tristes. Meu tio cnego apareceu  sobremesa, e ainda presenciou uma pequena
altercao.
--Meus filhos, disse ele, lembrem-se que meu irmo deixou um po bem grande para ser
repartido por todos
Mas Cotrim:
--Creio, creio. A questo, porm, no  de po,  de manteiga. Po seco  que eu no engulo.
Fizeram-se finalmente as partilhas, mas ns estvamos brigados. E digo-lhes que, ainda
assim, custou-me muito a brigar com Sabina. ramos to amigos! Jogos pueris, frias de
criana, risos e tristezas da idade adulta, dividimos muita vez esse po da alegria e da
misria, irmmente, como bons irmos que ramos. Mas estvamos brigados. Tal qual a
beleza de Marcela, que se esvaiu com as bexigas.
CAPTULO XLVII / O RECLUSO
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MARCELA, Sabina, Virglia... a estou eu a fundir todos os contrastes, como se esses
nomes e pessoas no fossem mais do que modos de ser da minha afeio interior. Pena de
maus costumes, ata uma gravata ao estilo, veste-lhe um colete menos srdido; e depois sim,
depois vem comigo, entra nessa casa, estira-te nessa rede que me embalou a melhor parte
dos anos que decorreram desde o inventrio de meu pai at 1842. Vem, se te cheirar a algum
aroma de toucador, no cuides que o mandei derramar para meu regalo;  um vestgio da N.
ou da Z. ou da U. -- que todas essas letras maisculas embalaram a a sua elegante abjeo.
Mas, se alm do aroma, quiseres outra cousa, fica-te com o desejo, porque eu no guardei
retratos, nem cartas, nem memrias, a mesma comoo esvaiu-se, e s me ficaram as letras
iniciais.
Vivi meio recluso, indo de longe em longe a algum baile, ou teatro, ou palestra, mas a maior
parte do tempo passei-a comigo mesmo Vivia, deixava-me ir ao curso e recurso dos
sucessos e dos dias, ora bulioso, ora aptico, entre a ambio e o desanimo. Escrevia
poltica e fazia literatura. Mandava artigos e versos para as folhas pblicas, e cheguei a
alcanar certa reputao de polemista e de poeta Quando me lembrava do Lobo Neves, que
era j deputado, e de Virglia, futura marquesa, perguntava a mim mesmo por que no seria
melhor deputado e melhor marqus do que o Lobo Neves, eu, que valia mais, muito mais do
que ele, e dizia isto a olhar para a ponta do nariz...
CAPTULO XLVIII / UM PRIMO DE VIRGLIA
-- SABE QUEM CHEGOU ontem de So Paulo? perguntou-me uma noite Lus Dutra.
Lus Dutra era um primo de Virglia, que tambm privava com as musas. Os versos dele
agradavam e valiam mais do que os meus; mas ele tinha necessidade da sano de alguns,
que lhe confirmasse o aplauso dos outros. Como fosse acanhado, no interroga a ningum;
mas deleitava-se com ouvir alguma palavra de apreo; ento criava novas foras e arremetia
juvenilmente ao trabalho.
Pobre Lus Dutra! Apenas publicava alguma cousa, corria  minha casa, e entrava a girar em
volta de mim,  espreita de um juzo, de uma palavra, de um gesto, que lhe aprovasse a
recente produo, eu falava-lhe de mil cousas diferentes, -- do ltimo baile do Catete, da
discusso das cmaras de berlindas e cavalos, -- de tudo, menos dos seus versos ou prosas.
Ele respondia-me, a princpio com animao, depois mais frouxo, torcia a rdea da conversa
para o assunto dele, abria um livro, perguntava-me se tinha algum trabalho novo e eu
dizia-lhe que sim ou que no, mas torcia a rdea para o outro lado, e l ia ele atrs de mim,
at que empacava de todo e saa triste. Minha inteno era faz-lo duvidar de si mesmo,
desanim-lo, elimin-lo. E tudo isto a olhar para a ponta do nariz ...
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CAPTULO XLIX / A PONTA DO NARIZ
NARIZ, conscincia sem remorsos, tu me valeste muito na vida... J meditaste alguma vez
no destino do nariz, amado leitor? A explicao do Doutor Pangloss  que o nariz foi criado
para uso dos culos, e tal explicao confesso que at certo tempo me pareceu definitiva;
mas veio um dia. em que, estando a ruminar esse e outros pontos obscuros de filosofia,
atinei com a nica, verdadeira e definitiva explicao.
Com efeito, bastou-me atentar no costume do faquir. Sabe o leitor que o faquir gasta longas
horas a olhar para a ponta do nariz, com o fim nico de ver a luz celeste. Quando ele finca
os olhos na ponta do nariz, perde e sentimento das cousas externas, embeleza-se no
invisvel, aprende o impalpvel, desvincula-se da Terra, dissolve-se, eteriza-se. Essa
sublimao do ser pela ponta do nariz  o fenmeno mais excelso do esprito, e a faculdade
de a obter no pertence ao faquir somente:  universal. Cada homem tem necessidade e
poder de contemplar o seu prprio nariz, para o fim de ver a luz celeste, e tal contemplao,
cujo efeito  a subordinao do universo a um nariz somente, constitui o equilbrio das
sociedades. Se os narizes se contemplassem exclusivamente uns aos outros, o gnero
humano no chegaria a durar dous sculos: extinguia-se com as primeiras tribos.
Ouo daqui uma objeo do leitor: -- Como pode ser assim, diz ele se nunca jamais ningum
no viu estarem os homens a contemplar o seu prprio nariz?
Leitor obtuso, isso prova que nunca entraste no crebro de um chapeleiro. Um chapeleiro
passa por uma loja de chapus;  a loja de um rival, que a abriu h dous anos; tinha ento
duas portas, hoje tem quatro; promete ter seis a oito. Nas vidraas ostentam-se os chapus
do rival; pelas portas entram os fregueses do rival; o chapeleiro compara aquela loja com a
sua, que  mais antiga e tem s duas portas, e aqueles chapus com os seus, menos
buscados, ainda que de igual preo. Mortifica-se naturalmente; mas vai andando
concentrado, com os olhos para baixo ou para a frente, a indagar as causas da prosperidade
do outro e do seu prprio atraso, quando ele chapeleiro  muito melhor chapeleiro do que o
outro chapeleiro... Nesse instante  que os olhos se fixam na ponta do nariz.
A concluso, portanto,  que h duas foras capitais: o amor, que multiplica a espcie, e o
nariz, que a subordina ao indivduo. Procriao, equilbrio.
CAPTULO L / VlRGLIA CASADA
-- QUEM CHEGOU de S. Paulo foi minha prima Virglia, casada com o Lobo Neves,
continuou Lus Dutra.
--Ah!
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E s hoje  que eu soube uma cousa, seu magano.
--Que foi?
--Que voc quis casar com ela.
-- Idias de meu pai. Quem lhe disse isso?
-- Ela mesma. Falei-lhe muito em voc, e ela ento contou-me tudo.
No dia seguinte, estando na Rua do Ouvidor,  porta da tipografia do Plancher, vi assomar, a
distncia uma mulher esplndida. Era ela; s a reconheci a poucos passos, to outra estava, a
tal ponto a natureza e a arte lhe haviam dando o ltimo apuro. Cortejamo-nos; ela seguiu;
entrou com o marido na carruagem, que os esperava um pouco acima; fiquei atnito.
Oito dias depois encontrei-a num baile; creio que chegamos a trocar duas ou trs palavras.
Mas noutro baile, dado da a um ms, em casa de uma senhora, que ornara os sales do
primeiro reinado, e no desornava ento os do segundo, a aproximao foi maior e mais
longa, porque conversamos e valsamos. A valsa  uma deliciosa cousa. Valsamos; no nego
que, ao conchegar ao meu corpo aquele corpo flexvel e magnfico, tive uma singular
sensao, uma sensao de homem roubado.
Est muito calor, disse ela, logo que acabamos. Vamos ao terrao?
No; pode constipar-se. Vamos a outra sala.
Na outra sala estava Lobo Neves, que me fez muitos cumprimentos, acerca dos meus
escritos polticos, acrescentando que nada dizia dos literrios por no entender deles; mas os
polticos eram excelentes, bem pensados e bem escritos. Respondi-lhe com iguais esmeros
de cortesia, e separamo-nos contentes um do outro.
Cerca de trs semanas depois recebi um convite dele para uma reunio ntima. Fui; Virglia
recebeu-me com esta graciosa palavra: -- O senhor hoje h de valsar comigo. Em verdade,
eu tinha fama e era valsista emrito; no admira que ela me preferisse. Valsamos uma vez, e
mais outra vez. Um livro perdeu Francesca; c foi a valsa que nos perdeu. Creio que essa
noite apertei-lhe a mo com muita fora, e ela deixou-a ficar, como esquecida, e eu a
abra-la fechada e todos com os olhos em ns, e nos outros que tambm se abraavam e
giravam Um delrio.
CAPTULO LI /  MINHA!
" MINHA!" disse eu comigo, logo que a passei a outro cavalheiro; e confesso que durante
o resto da noite, foi-se-me a idia entranhando no esprito, no  fora de martelo, mas de
verruma, que  mais insinuativa.
" minha!" dizia eu ao chegar  porta de casa.
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Mas a, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse lembrasse de dar algum passo
aos meus arroubos possessrios, luziu-me no cho uma cousa redonda e amarela.
Abaixei-me; era uma moeda de ouro, uma meia dobra.
" minha!" repeti eu a rir-me, e meti-a no bolso.
Nessa noite no pensei mais na moeda; mas no dia seguinte, recordando o caso, senti uns
repeles da conscincia, e uma voz que me perguntava por que diabo seria minha uma
moeda que eu no herdara nem ganhara, mas somente achara na rua. Evidentemente no era
minha; era de outro, daquele que a perdera, rico ou pobre, e talvez fosse pobre, algum
operrio que no teria com que dar de comer  mulher e aos filhos; mas se fosse rico, o meu
dever ficava o mesmo. Cumpria restituir a moeda, e o melhor meio, o nico meio, era
faz-lo por intermdio de um anncio ou da polcia. Enviei uma carta ao chefe de polcia,
remetendo-lhe o achado, e rogando-lhe que, pelos meios a seu alcance, fizesse devolv-lo s
mos do verdadeiro dono.
Mandei a carta e almocei tranqilo, posso at dizer que jubiloso. Minha conscincia valsara
tanto na vspera, que chegou a ficar sufocada, sem respirao; mas a restituio da meia
dobra foi uma janela que se abriu para o outro lado da moral; entrou uma onda de ar puro, e
a pobre dama respirou  larga. Ventilai as conscincias! no vos digo mais nada. Todavia,
despido de quaisquer outras circunstncias, o meu ato era bonito, porque exprimia um justo
escrpulo, um sentimento de alma delicada. Era o que me dizia a minha dama interior, com
um modo austero e meigo a um tempo;  o que ela me dizia, reclinada ao peitoril da janela
aberta.
--Fizeste bem, Cubas; andaste perfeitamente. Este ar no  s puro,  balsmico,  uma
transpirao dos eternos jardins. Queres ver o que fizeste, Cubas?
E a boa dama sacou um espelho e abriu-mo diante dos olhos. Vi, claramente vista, a meia
dobra da vspera, redonda, brilhante, multiplicando-se por si mesma, -- ser dez -- depois
trinta -- depois quinhentas, -- exprimindo assim o benefcio que me daria na vida e na morte
o simples ato da restituio. E eu espraiava todo o meu ser na contemplao daquele ato,
revia-me nele, achava-me bom, talvez grande. Uma simples moeda, hem? Vejam o que  ter
valsado um poucochinho mais.
Assim eu, Brs Cubas, descobri uma lei sublime, a lei da equivalncia das janelas, e
estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada e abrir outra, a fim de que a moral
possa arejar continuamente a conscincia. Talvez no entendas o que a fica; talvez queiras
uma cousa mais concreta, um embrulho, por exemplo, um embrulho misterioso. Pois toma l
o embrulho misterioso.
CAPTULO LII / O EMBRULHO MISTERIOSO
FOI O CASO que, alguns dias depois, indo eu a Botafogo, tropecei num embrulho, que
estava na praia. No digo bem; houve menos tropeo que pontap. Vendo um embrulho,
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po grande, mas limpo e corretamente feito, atado com um barbante rijo, uma cousa que
parecia alguma cousa, lembrou-me bater-lhe com o p, assim por experincia, e bati! e o
embrulho resistiu. Relanceei os olhos em volta de mim; a praia estava deserta; ao longe uns
meninos brincavam, -- um pescador curava as redes ainda mais longe, ningum que pudesse
ver a minha ao; inclinei-me, apanhei o embrulho e segui.
Segui, mas no sem receio. Podia ser uma pulha de rapazes. Tive idia de devolver o achado
 praia, mas apalpei-o e rejeitei a idia. pouco adiante, desandei o caminho e guiei para casa.
--Vejamos, disse eu ao entrar no gabinete.
E hesitei um instante, creio que por vergonha; assaltou-me outra vez o receio da pulha. 
certo que no havia ali nenhuma testemunha externa; mas eu tinha dentro de mim mesmo
um garoto, que havia de assobiar, guinchar, grunhir, patear, apupar, cacarejar, fazer o diabo
se me visse abrir o embrulho e achar dentro uma dzia de lenos velhos ou duas dzias de
goiabas podres. Era tarde; a curiosidade estava aguada, como deve estar a do leitor; desfiz
o embrulho, e vi... achei. . . contei. . . recontei nada menos de cinco contos de ris. Nada
menos. Talvez uns dez mil-ris mais. Cinco contos cm boas notas e moedas, tudo
asseadinho e arranjadinho, um achado raro. Embrulhei-as de novo. Ao jantar pareceu-me
que um dos moleques falara a outro com os olhos. Ter-me-iam espreitado? Interroguei-os
discretamente, e conclu que no. Sobre o jantar fui outra vez ao gabinete, examinei o
dinheiro, e ri-me dos meus cuidados maternais a respeito de cinco contos, eu, que era
abastado.
Para no pensar mais naquilo fui de noite  casa do Lobo Neves, que instara muito comigo
no deixasse de freqentar as recepes da mulher. L encontrei o chefe de polcia; fui-lhe
apresentado; ele lembrou-se logo da carta e da meia dobra que eu lhe remetera alguns dias
antes. Aventou o caso; Virglia pareceu saborear o meu procedimento, e cada um dos
presentes acertou de contar uma anedota anloga, que eu ouvi com impacincia de mulher
histrica.
De noite, no dia seguinte, em toda aquela semana pensei o menos que pude nos cinco
contos, e at confesso que os deixei muito quietinhos na gaveta da secretria. Gostava de
falar de todas as cousas, menos de dinheiro, e principalmente de dinheiro achado; todavia
no era crime achar dinheiro, era uma felicidade, um bom acaso, era talvez um lance da
Providncia. No podia ser outra cousa. No se perdem cinco contos, como se perde um
leno de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a mido, no se
lhes tiram os olhos de cima, nem as mos, nem o pensamento, e para se perderem assim
tolamente, numa praia,  necessrio que... Crime  que no podia ser o achado; nem crime,
nem desonra, nem nada que embaciasse o carter de um homem. Era um achado, um acerto
feliz, como a sorte grande, como as apostas de cavalo, como os ganhos de um jogo honesto
e at direi que a minha felicidade era merecida, porque eu no me sentia mau, nem indigno
dos benefcios da Providncia.
"Estes cinco contos, dizia eu comigo, trs semanas depois, hei de empreg-los em alguma
ao boa, talvez um dote a alguma menina pobre, ou outra cousa assim... hei de ver..."
Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil. L me receberam com muitas e delicadas
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aluses ao caso da meia dobra, cuja notcia andava j espalhada entre as pessoas do meu
conhecimento; respondi enfadado que a cousa no valia a pena de tamanho estrondo;
louvaram-me ento a modstia, e porque eu me encolerizasse, -- replicaram-me que era
simplesmente grande.
CAPTULO LIII / ...
VIRGLLA  que j se no lembrava da meia dobra; toda ela estava concentrada em mim,
nos meus olhos, na minha vida, no meu pensamento; -- era o que dizia, e era verdade.
H umas plantas que nascem e crescem depressa; outras so tardias e pecas. O nosso amor
era daquelas; brotou com tal mpeto e tanta seiva, que, dentro em pouco, era mais vasta,
folhuda e exuberante criatura dos bosques. No lhes poderei dizer, ao certo, os dias que
durou esse crescimento. Lembra-me, sim, que, em certa noite, abotoou-se a flor, ou o beijo,
se assim lhe quiserem chamar, um beijo que ela me deu, trmula,-- coitadinha,-- trmula de
medo, porque era ao porto da chcara. Uniu-nos esse beijo nico, -- breve como a ocasio,
ardente como o amor, prlogo de uma vida de delcias, de terrores, de remorsos, de prazeres
que rematavam em dor, de aflies que desabrochavam em alegria, -- uma hipocrisia
paciente e sistemtica, nico freio de uma paixo sem freio, -- vida de agitaes, de cleras,
de desesperos e de cimes, que uma hora pagava  farta e de sobra; mas outra hora vinha e
engolia aquela, como tudo mais, para deixar  tona as agitaes e o resto, e o resto do resto,
que  o fastio e a saciedade: tal foi o livro daquele prlogo.
CAPTULO LIV / A PNDULA
SA DALI a saborear o beijo. No pude dormir; estirei-me na cama,  certo, mas foi o
mesmo que nada. Ouvi as horas todas da noite. Usualmente, quando eu perdia o sono, o
bater da pndula fazia-me muito mal; esse tique-taque soturno, vagaroso e seco parecia dizer
a cada golpe que eu ia ter um instante menos de vida. Imaginava ento um velho diabo,
sentado entre dous sacos, o da vida e o da morte, a tirar as moedas da vida para d-las 
morte, e a cont-las assim:
Outra de menos. .
--Outra de menos...
--Outra de menos...
--Outra de menos...
--Outra de menos...
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O mais singular  que, se o relgio parava, eu dava-lhe corda, para que ele no deixasse de
bater nunca, e eu pudesse contar todos os meus instantes perdidos. Invenes h, que se
transformam ou acabam; as mesmas instituies morrem; o relgio  definitivo e perpetuo.
O derradeiro homem, ao despedir-se do sol frio e gasto, h de ter um relgio na algibeira,
para saber a hora exata em que morre.
Naquela noite no padeci essa triste sensao de enfado, mas outra e deleitosa. As fantasias
tumultuavam-me c dentro, vinham umas sobre outras,  semelhana de devotas que se
abalroam para ver o anjo-cantor das procisses. No ouvia os instantes perdidos, mas os
minutos ganhados. De certo tempo em diante no ouvi cousa nenhuma, porque o meu
pensamento, ardiloso e traquinas, saltou pela janela fora e bateu as asas na direo da casa
de Virglia. A achou no peitoril de uma janela o pensamento de Virglia, saudaram-se se e
ficaram de palestra. Ns a rolarmos na cama, talvez com frio, necessitados de repouso, e os
dous vadios ali postos, a repetirem o velho dilogo de Ado e Eva.
CAPTULO LV / O VELHO DILOGO DE ADO E EVA
BRAS CUBAS ................................?
VIRGILLA ...............................
BRS CUBAS.........................................................................................................
VRGILIA.............................................!
BRAS CUBAS .................................
VIRGLIA......................................................................................................................?
........................................
BRS CUBAS.........................................................
VIRGLIA.......................................................
BRS CUBAS
..................................................................................................................................................
..................!....................................!....................
VIRGLIA.........................................................?
BRS CUBAS ....................................!
VIRGLIA ............................................!
CAPTULO LVI / O MOMENTO OPORTUNO
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MAS, COM A BRECA! quem me explicar a razo desta diferena? Um dia vimo-nos,
tratamos o casamento, desfizemo-lo e separamo-nos, a frio, sem dor, porque no houvera
paixo nenhuma; mordeu-me apenas algum despeito e nada mais. Correm anos, torno a
v-la, damos trs ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro com delrio. A
beleza de Virglia chegara,  certo, a um alto grau de apuro, mas ns ramos
substancialmente os mesmos, e eu,  minha parte, no me tornara mais bonito nem mais
elegante. Quem me explicar a razo dessa diferena?
A razo no podia ser outra seno o momento oportuno. No era oportuno o primeiro
momento, porque, se nenhum de ns estava verde para o amor, ambos o estvamos para o
nosso amor: distino fundamental. No h amor possvel sem a oportunidade dos sujeitos.
Esta explicao achei-a eu mesmo, dous anos depois do beijo, um dia em que Virglia se me
queixava de um pintalegrete que l ia e tenazmente a galanteava.
--Que importuno! dizia ela fazendo uma careta de raiva. Estremeci, fitei-a, vi que a
indignao era sincera; ento ocorreu-me que talvez eu tivesse provocado alguma vez
aquela mesma careta, e compreendi logo toda a grandeza da minha evoluo. Tinha vindo
de importuno a oportuno.
CAPTULO LVII / DESTINO
SIM, SENHOR, amvamos. Agora, que todas as leis sociais no-lo impediam, agora  que
nos amvamos deveras. Achvamo-nos jungidos um ao outro, como as duas almas que o
poeta encontrou no Purgatrio:
Di pari, come buoi, che vanno a giogo;
e digo mal, comparando-nos a bois, porque ns ramos outra espcie de animal menos tardo,
mais velhaco e lascivo. Eis-nos a caminhar sem saber at onde, nem por que estradas
escusas; problema que me assustou, durante algumas semanas, mas cuja soluo entreguei
ao destino. Pobre Destino! Onde andars agora, grande procurador dos negcios humanos?
Talvez estejas a criar pele nova, outra cara, outras maneiras, outro nome, e no  impossvel
que. . . J me no lembra onde estava... Ah! nas estradas escusas. Disse eu comigo que j
agora seria o que Deus quisesse. Era a nossa sorte amar-nos; se assim no fora, como
explicaramos a valsa e o resto? Virglia pensava a mesma cousa. Um dia, depois de me
confessar que tinha momentos de remorsos, como eu lhe dissesse que, se tinha remorsos, 
porque me no tinha amor, Virglia cingiu-me com os seus magnficos braos, murmurando:
--Amo-te,  a vontade do Cu.
E esta palavra no vinha  toa; Virglia era um pouco religiosa. No ouvia missa aos
domingos,  verdade, e creio at que s ia s igrejas em dia de festa, e quando havia lugar
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vago em alguma tribuna. Mas rezava todas as noites, com fervor, ou, pelo menos, com sono.
Tinha medo s trovoadas; nessas ocasies, tapava os ouvidos, e resmoneava todas as oraes
do catecismo. Na alcova dela havia um oratoriozinho de jacarand, obra de talha, de trs
palmos de altura, com trs imagens dentro; mas no falava dele s amigas; Ao contrrio,
tachava de beatas as que eram s religiosas. Algum tempo desconfiei que havia nela certo
vexame de crer, e que a sua religio era uma espcie de camisa de flanela, preservativa e
clandestina; mas evidentemente era engano meu.
CAPTULO LVIII / CONFIDNCIA
LOBO NEVES, a princpio, metia-me grandes sustos. Pura iluso! Como adorasse a mulher,
no se vexava de mo dizer muitas vezes; achava que Virglia era a perfeio mesma, um
conjunto de qualidades slidas e finas amorvel, elegante, austera, um modelo. E a
confiana no parava a. De fresta que era, chegou a porta escancarada. Um dia
confessou-me que trazia uma triste carcoma na existncia; faltava-lhe a glria pblica.
Animei-o; disse-lhe muitas cousas bonitas, que ele ouviu com aquela uno religiosa de um
desejo que no quer acabar de morrer; ento compreendi que a ambio dele andava cansada
de bater as asas; sem poder abrir o vo. Dias depois disse-me todos os seus tdios e
desfalecimentos, as amarguras engolidas, as raivas sopitadas; contou-me que a vida poltica
era um tecido de invejas, despeitos, intrigas, perfdias, interesses, vaidades. Evidentemente
havia a uma crise de melancolia; tratei de combate-la
--Sei o que lhe digo, replicou-me com tristeza. No pode imaginar o que tenho passado.
Entrei na poltica por gosto, por famlia, por ambio, e um pouco por vaidade. J v que
reuni em mim s todos os motivos que levam o homem  vida pblica; faltou-me s o
interesse de outra natureza Vira o teatro pelo lado da platia; e, palavra, que era bonito!
Soberbo cenrio, vida, movimento e graa na representao. Escriturei-me; deram-me um
papel que... Mas para que o estou a fatigar com isto? Deixe-me ficar com as minhas
amofinaes. Creia que tenho passado horas e dias... No h constncia de sentimentos, no
h gratido, no h nada... nada.... nada...
Calou-se, profundamente abatido, com os olhos no ar, parecendo no ouvir cousa nenhuma,
a no ser o eco de seus prprios pensamentos. Aps alguns instantes, ergueu-se e
estendeu-me a mo:-- O senhor h de rir-se de mim, disse ele; mas desculpe aquele
desabafo; tinha um negcio, que me mordia o esprito. E ria, de um jeito sombrio e triste;
depois pediu-me que no referisse a ningum o que se passara entre ns; ponderei-lhe que a
rigor no se passara nada. Entraram dous deputados e um chefe poltico da parquia. Lobo
Neves recebeu-os com alegria, a princpio um tanto postia mas logo depois natural. No fim
de meia hora, ningum diria que ele no era o mais afortunado dos homens; conversava,
chasqueava! e ria, e riam todos.
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CAPTULO LIX / UM ENCONTRO
DEVE SER um vinho enrgico a poltica, dizia eu comigo, ao sair da casa de Lobo Neves; e
fui andando, fui andando, at que na Rua dos Barbonos vi uma sege, e dentro um dos
ministros, meu antigo companheiro de colgio. Cortejamo-nos afetuosamente, a sege seguiu,
e eu fui andando... andando... andando...
"Por que no serei eu ministro?"
Esta idia, rtila e grande,--trajada ao bizarro, como diria o Padre Bernardes,--esta idia
comeou uma vertigem de cabriolas e eu deixei-me estar com os olhos nela, a achar-lhe
graa. No pensei mais na tristeza de Lobo Neves; sentia a atrao do abismo. Recordei
aquele companheiro de colgio, as correrias nos morros, as alegrias e travessuras, e
comparei o menino com o homem, e perguntei a mim mesmo por que no seria eu como ele.
Entrava ento no Passeio Pblico, e tudo me parecia dizer a mesma cousa. -- Por que no
sers ministro, Cubas? -- Cubas, por que no sers ministro de Estado? Ao ouvi-lo, uma
deliciosa sensao me refrescava todo o organismo. Entrei, fui sentar-me num banco, a
remoer aquela idia. E Virglia que havia de gostar! Alguns minutos depois vejo
encaminhar-se para mim uma cara, que no me pareceu desconhecida. Conhecia-a, fosse
donde fosse.
Imaginem um homem de trinta e oito a quarenta anos, alto, magro e plido. As roupas, salvo
o feitio, pareciam ter escapado ao cativeiro de Babilnia; o chapu era contemporneo do de
Gessler. Imaginem agora uma sobrecasaca, mais larga do que pediam as carnes, --ou,
literalmente, os ossos da pessoa; a cor preta ia cedendo o passo a um amarelo sem brilho; o
plo desaparecia aos poucos; dos oito primitivos botes restavam trs. As calas, de brim
pardo, tinham duas fortes joelheiras,- enquanto as bainhas eram rodas pelo taco de um
botim sem misericrdia nem graxa. Ao pescoo flutuavam as pontas de uma gravata de duas
cores, ambas desmaiadas, apertando um colarinho de oito dias. Creio que trazia tambm
colete, um colete de seda escura, roto a espaos, e desabotoado.
-- Aposto que me no conhece, Sr. Dr. Cubas? disse ele.
--No me lembra...
-- Sou o Borba, o Quincas Borba.
Recuei espantado. . Quem me dera agora o verbo solene de um Bossuet ou de Vieira, para
contar tamanha desolao! Era o Quincas Borba, o gracioso menino de outro tempo, o meu
companheiro de colgio, to inteligente e agastado. Quincas Borba! No; impossvel; no
pode ser. No podia acabar de crer que essa figura esqulida, essa barba pintada de branco,
esse maltrapilho avelhentado, que toda essa runa fosse o Quincas Borba. Mas era. Os olhos
tinham um resto da expresso de outro tempo, e o sorriso no perdera certo ar escarninho,
que lhe era peculiar. Entretanto, ele suportava com firmeza o meu espanto. No fim de algum
tempo arredei os olhos; se a figura repelia, a comparao acabrunhava.
--No  preciso contar-lhe nada, disse ele enfim; o senhor adivinha tudo. Uma vida de
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misrias, de atribulaes e de lutas. Lembra-se das nossas festas, em que eu figurava de rei?
Que trambolho! Acabo mendigo. . .
E alando a mo direita e os ombros, com um ar de indiferena, parecia resignado aos
golpes da fortuna, e no sei at se contente. Talvez contente. Com certeza, impassvel. No
havia nele  resignao crist, nem a conformidade filosfica. Parece que a misria lhe
calejara a alma, a ponto de lhe tirar a sensao de lama. Arrastava os andrajos, como outrora
a prpura: com certa graa indolente.
--Procure-me, disse eu, poderei arranjar-lhe alguma cousa.
Um sorriso magnfico lhe abriu os lbios. --No  o primeiro que me promete alguma cousa,
replicou, e no sei se ser o ltimo que no me far nada. E para qu? Eu nada peo, a no
ser dinheiro; dinheiro sim, porque  necessrio comer, e as casas de pasto no fiam. Nem as
quitandeiras. Uma cousa de nada, uns dous vintns de angu, nem isso fiam as malditas
quitandeiras... Um inferno, meu... ia dizer meu amigo... Um inferno! o diabo! todos os
diabos! Olhe, ainda hoje no almocei.
--No?
--No; sa muito cedo de casa. Sabe onde moro? No terceiro degrau das escadas de S.
Francisco,  esquerda de quem sobe; no precisa bater na porta. Casa fresca, extremamente
fresca. Pois sa cedo, e ainda no comi...Tirei a carteira, escolhi uma nota de cinco mil-ris,
-- a menos limpa,-- e dei-lha. Ele recebeu-ma com os olhos cintilantes de cobia. Levantou a
nota ao ar, e agitou-a entusiasmado.
-- In hoc signo vinces! bradou.
E depois beijou-a, com muitos ademanes de ternura, e to ruidosa expanso, que me
produziu um sentimento misto de nojo e lstima. Ele, que era arguto, entendeu-me; ficou
srio, grotescamente srio e pediu-me desculpa da alegria, dizendo que era alegria de pobre
que no via, desde muitos anos, uma nota de cinco mil-ris.
--Pois est em suas mos ver outras muitas, disse eu.
--Sim? acudiu ele, dando um bote para mim.
--Trabalhando, conclu eu.
Fez um gesto de desdm; calou-se alguns instantes; depois disse-me positivamente que no
queria trabalhar. Eu estava enjoado dessa abjeo to cmica e to triste, e preparei-me para
sair.
--No v sem eu lhe ensinar a minha filosofia da misria, disse ele, escarranchando-se diante
de mim.
CAPTULO LX / O ABRAO
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CUIDEI que o pobre-diabo estivesse doudo, e ia afastar-me, quando ele me pegou no pulso,
e olhou alguns instantes para o brilhante que eu trazia no dedo. Senti-lhe na mo uns
estremees de cobia, uns pruridos de posse.
-- Magnfico! disse ele.
Depois comeou a andar  roda de mim e a examinar-me muito.
-- O senhor trata-se, disse ele. Jias, roupa fina, elegante e.. Compare esses sapatos aos
meus; que diferena! Pudera no! Digo-lhe que se trata. E moas? Como vo elas? Est
casado?
No . . .
-- Nem eu.
-- Moro na rua...
-- No quero saber onde mora, atalhou Quincas Borba. Se alguma vez nos virmos, d-me
outra nota de cinco mil-ris; mas permita-me que no a v buscar  sua casa.  uma espcie
de orgulho... Agora, adeus; vejo que est impaciente.
-- Adeus!
-- E obrigado. Deixa-me agradecer-lhe de mais perto?
E dizendo isto abraou-me com tal mpeto, que no pude evit-lo. Separamo-nos finalmente,
eu a passo largo, com a camisa amarrotada do abrao, enfadado e triste. J no dominava em
mim a parte simptica da sensao, mas a outra. Quisera ver-lhe a misria digna. Contudo,
no pude deixar de comparar outra vez o homem de agora com o de outrora, entristecer-me
e encarar o abismo que separa as esperanas de um tempo da realidade de outro tempo...
"Ora adeus! Vamos jantar", disse comigo.
Meto a mo no colete e no acho o relgio. ltima desiluso! O Borba furtara-mo no
abrao.
CAPTULO LXI / UM PROJETO
JANTEI TRISTE. No era a falta do relgio que me pungia, era a imagem do autor do furto,
e as reminiscncias de criana, e outra vez a comparao, e a concluso. . . Desde a sopa,
comeou a abrir em mim a flor amarela e mrbida do captulo XXV, e ento jantei depressa,
para correr  casa de Virgnia. Virgnia era o presente; eu queria refugiar-me nele, para
escapar s opresses do passado, pr que o encontro do Quicas Borba, tornara-me aos olhos
o passado, no qual fora deveras, mas um passado roto, abjeto, mendigo e gatuno.
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Sa de casa, mas era cedo; iria ach-los  mesa. Outra vez pensei no Quincas Borba, e tive
ento um desejo de tornar ao Passeio Pblico, a ver se o achava; a idia de o regenerar
surgiu-me como uma forte necessidade. Fui; mas j no o achei. Indaguei do guarda;
disse-me que efetivamente "esse sujeito" ia por ali s vezes.
--A que horas?
--No tem hora certa.
No era impossvel encontr-lo noutra ocasio; prometi a mim mesmo l voltar. A
necessidade de o regenerar, de o trazer ao trabalho e ao respeito de sua pessoa enchia-me o
corao; eu comeava a sentir um bem-estar, uma elevao, uma admirao de mim
prprio... Nisto caa a noite; fui ter com Virglia.
CAPTULO LXII / O TRAVESSElRO
FUI TER com Virglia; depressa esqueci o Quincas Borba. Virglia era o travesseiro do meu
esprito, um travesseiro mole, tpido, aromtico, enfronhado em cambraia e bruxelas. Era ali
que ele costumava repousar de todas as sensaes ms, simplesmente enfadonhas, ou at
dolorosas. E, bem pesadas as cousas, no era outra a razo da existncia de Virglia; no
podia ser. Cinco minutos bastaram para olvidar inteiramente o Quincas Borba; cinco
minutos de uma contemplao mtua, com as mos presas umas nas outras; cinco minutos e
um beijo. E l se foi a lembrana do Quincas Borba. . . Escrfula da vida, andrajo do
passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dous
palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?
CAPTULO LXIII / FUJAMOS!
AI! NEM SEMPRE dormir. Trs semanas depois, indo  casa de Virglia, eram quatro horas
da tarde, -- achei-a triste e abatida. No me quis dizer o que era; mas, como eu instasse
muito:
--Creio que o Damio desconfia alguma cousa. Noto agora umas esquisitices nele... No sei.
Trata-me bem, no h dvida; mas o olhar parece que no  o mesmo. Durmo mal; ainda
esta noite acordei, aterrada; estava sonhando que ele me ia matar. Talvez seja iluso, mas eu
penso que ele desconfia...
Tranqilizei-a como pude; disse que podiam ser cuidados polticos. Virglia concordou que
seriam, mas ficou ainda muito excitada e nervosa. Estvamos na sala de visitas, que dava
justamente para a chcara, onde trocramos o beijo inicial. Uma janela aberta deixava entrar
o vento, que sacudia frouxamente as cortinas, e eu fiquei a olhar para as cortinas, sem as ver.
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Empunhara o binculo da imaginao; lobrigava, ao longe, uma casa nossa, uma vida
nossa? um mundo nosso, em que no havia Lobo Neves, nem casamento, nem moral, nem
nenhum outro liame, que nos tolhesse a expanso da vontade. Esta idia embriagou-me;
eliminados assim o mundo, a moral e o marido, bastava penetrar naquela habitao dos
anjos.
-- Virglia, disse eu, proponho-te uma cousa.
-- Que ?
-- Amas-me?
--Oh! suspirou ela, cingindo-me os braos ao pescoo.
Virglia amava-me com fria; aquela resposta era a verdade patente. Com os braos ao meu
pescoo, calada, respirando muito deixou-se ficar a olhar para mim, com os seus grandes e
belos olhos, que davam uma sensao singular de luz mida; eu deixei-me estar a v-los, a
namorar-lhe a boca, fresca como a madrugada, e insacivel como a morte. A beleza de
Virglia tinha agora um tom grandioso, que no possura antes de casar. Era dessas figuras
talhadas um pentlico, de um lavor nobre, rasgado e puro, tranqilamente bela, como as
esttuas, mas no aptica nem fria. Ao contrrio, tinha o aspecto das naturezas clidas, e
podia-se dizer que, na realidade, resumia todo o amor. Resumia-o sobretudo naquela ocasio
em que exprimia mudamente tudo quanto pode dizer a pupila humana. Mas o tempo urgia;
deslacei-lhe as mos, peguei-lhe nos pulsos, e, fito nela, perguntei se tinha coragem.
-- De qu?
-- De fugir. Iremos para onde nos for mais cmodo, casa grande ou pequena,  tua vontade,
na roa ou na cidade, ou na Europa, onde te parecer, onde ningum nos aborrea, e no haja
perigos para ti, onde vivamos um para o outro... Sim? Fujamos. Tarde ou cedo, ele pode
descobrir alguma cousa, e estars perdida...ouves? perdida... morta... e ele tambm, porque
eu o matarei, juro-te.
Interrompi-me; Virglia empalidecera muito, deixou cair os braos e sentou-se no canap.
Esteve assim alguns instantes, sem me dizer palavra, no sei se vacilante na escolha, se
aterrada com a idia da descoberta e da morte. Fui-me a ela, insisti na proposta, todas as
vantagens de uma vida a ss, sem zelos, nem terrores, nem aflies. Virglia ouvia-me
calada; depois disse:
--No escaparamos talvez; ele iria ter comigo e matava do mesmo modo.
Mostrei-lhe que no. O mundo era assaz vasto, e eu tinha os meios de viver onde quer que
houvesse ar puro e muito sol; ele no chegaria at l; s as grandes paixes so capazes de
grandes aes, e ele no a amava tanto que pudesse ir busc-la, se ela estivesse longe.
Virglia fez um gesto de espanto e quase indignao; murmurou que o marido gostava muito
dela.
--Pode ser, respondi eu; pode ser que sim...
Fui at a janela, e comecei a rufar com os dedos no peitoril. Virglia chamou-me; deixei-me
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estar, a remoer os meus zelos, a desejar estrangular o marido, se o tivesse ali  mo...
Justamente, nesse instante apareceu na chcara o Lobo Neves. No tremas assim, leitora
plida; descansa, que no hei de rubricar esta lauda com um pingo de sangue. Logo que
apareceu na chcara, fiz-lhe um gesto amigo, acompanhado de uma palavra graciosa;
Virglia retirou-se apressadamente da sala, onde ele entrou da a trs minutos.
--Est c h muito tempo? disse-me ele.
--No.
Entrara srio, pesado, derramando os olhos de um modo distrado, costume seu, que trocou
logo por uma verdadeira expanso de jovialidade, quando viu chegar o filho, o Nhonh, o
futuro bacharel do captulo VI, tomou-o nos braos, levantou-o ao ar, beijou-o muitas vezes.
Eu, que tinha dio ao menino, afastei-me de ambos. Virglia tornou  sala.
--Ah! Respirou Lobo Neves, sentando-se preguiosamente no sof.
--Cansado? perguntei eu.
--Muito; aturei duas maadas de primeira ordem, uma na cmara e outra na rua. E ainda
temos terceira, acrescentou, olhando para a mulher.
--Que ? perguntou Virglia.
--Um. . . Adivinha!
Virglia sentara-se ao lado dele, pegou-lhe numa das mos, comps-lhe a gravata, e tornou a
perguntar o que era.
--Nada menos que um camarote.
--Para a Candiani?
--Para a Candiani.
Virglia bateu palmas, levantou-se, deu um beijo no filho, com um ar de alegria pueril, que
destoava muito da figura; depois perguntou se o camarote era de boca ou do centro,
consultou o marido, em voz baixa, acerca da toilette que faria, da pera que se cantava, e de
no sei que outras cousas.
--Voc janta conosco, doutor, disse-me Lobo Neves.
--Veio para isso mesmo, confirmou a mulher; diz que voc possui o melhor vinho do Rio de
Janeiro.
--Nem por isso bebe muito.
Ao jantar, desmenti-o; bebi mais do que costumava; ainda assim, menos do que era preciso
para perder a razo. J estava excitado, fiquei um pouco mais. Era a primeira grande clera
que eu sentia contra Virglia. No olhei uma s vez para ela durante o jantar; falei de
poltica, da imprensa, do ministrio, creio que falaria de teologia, se a soubesse, ou se me
lembrasse. Lobo Neves acompanhava-me com muita placidez e dignidade, e at com certa
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benevolncia superior; e tudo aquilo me irritava tambm, e me tornava mais amargo e longo
o jantar. Despedi-me apenas nos levantamos da mesa.
--At logo, no? perguntou Lobo Neves.
--Pode ser.
E sa.
CAP TULO LXIV / A TRANSAO
VAGUEI PELAS RUAS e recolhi-me s nove horas. No podendo dormir, atirei-me a ler e
escrever. s onze horas estava arrependido de no ter ido ao teatro, consultei o relgio, quis
vestir-me, e sair. Julguei porm, que chegaria tarde; demais, era dar prova de fraqueza.
Evidentemente, Virglia comeava a aborrecer-se de mim, pensava eu. E esta idia fez-me
sucessivamente desesperado e frio, disposto a esquec-la e a mat-la. Via-a dali mesmo,
reclinada no camarote, com os seus magnficos braos nus,-- os braos que eram meus, s
meus,-- fascinando os olhos de todos com o vestido soberbo que havia de ter, o colo de leite,
os cabelos postos em bands  maneira do tempo, e os brilhantes, menos luzidios que os
olhos dela... Via-a assim, e doa-me que a vissem outros. Depois, comeava a despi-la, a por
de lado as jias e sedas, a despente-la com as minhas mos sfregas e lascivas, a torn-la,--
no sei se mais bela, se mais natural, a torn-la minha, somente minha, nica mente minha.
No dia seguinte, no me pude ter; fui cedo  casa de Virglia; achei-a com os olhos
vermelhos de chorar.
--Que houve? perguntei.
-- Voc no me ama, foi a sua resposta; nunca me teve a menor soma de amor. Tratou-me
ontem como se me tivesse dio. Se eu ao menos soubesse o que  que fiz! Mas no sei. No
me dir o que foi?
--Que foi o qu? Creio que no houve nada.
-- Nada? Tratou-me como no se trata um cachorro...
A esta palavra, peguei-lhe nas mos, beijei-as, e duas lgrimas rebentaram-lhe dos olhos.
-- Acabou, acabou, disse eu.
No tive nimo de argir, e, alis, argi-la de qu? No era culpa dela se o marido a amava.
Disse-lhe que no me fizera cousa nenhuma, que eu tinha necessariamente cimes do outro,
que nem sempre o podia suportar de cara alegre; acrescentei que talvez houvesse nele muita
dissimulao, e que o melhor meio de fechar a porta aos sustos e s dissenses era aceitar a
minha idia da vspera.
--Pensei nisso, acudiu Virglia; uma casinha s nossa, solitria, metida num jardim, em
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alguma rua escondida, no ? Acho a idia boa; mas para que fugir?
Disse isto com o tom ingnuo e preguioso de quem no cuida em mal, e o sorriso que lhe
derreava os cantos da boca trazia a mesma expresso de candidez. Ento, afastando-me,
respondi:
--Voc  que nunca me teve amor.
--Eu?
-- Sim,  uma egosta! prefere ver-me padecer todos os dias... uma egosta sem nome!
Virglia desatou a chorar, e para no atrair gente, metia o leno na boca, recalcava os
soluos; exploso que me desconcertou. Se algum a ouvisse, perdia-se tudo. Inclinei-me
para ela, travei-lhe dos pulsos, sussurrei-lhe os nomes mais doces da nossa intimidademostrei-
lhe o perigo; o terror apaziguou-a.
-- No posso, disse ela da a alguns instantes; no deixo meu filho, se o levar, estou certa de
que ele me ir buscar ao fim do mundo. No posso; mate-me voc, se o quiser, ou deixe-me
morrer... Ah! meu Deus! meu Deus!
-- Sossegue; olhe que podem ouvi-la.
-- Que ouam! No me importa.
Estava ainda excitada; pedi-lhe que esquecesse tudo, que me perdoasse, que eu era um
doudo, mas que a minha insnia provinha dela e com ela acabaria. Virglia enxugou os olhos
e estendeu-me a mo. Sorrimos ambos; minutos depois, tornvamos ao assunto da casinha
solitria, em alguma rua escusa...
CAPTULO LXV / OLHEIROS E ESCUTAS
INTERROMPEU-NOS o rumor de um carro na chcara. Veio um escravo dizer que era a
baronesa X. Virglia consultou-me com os olhos.
--Se a senhora est assim com dor de cabea, disse eu, parece que o melhor  no receber.
--J se apeou? perguntou Virglia ao escravo.
--J se apeou; diz que precisa muito de falar com sinh!
--Que entre!
A baronesa entrou da a pouco. No sei se contava comigo na sala; mas era impossvel
mostrar maior alvoroo.
--Bons olhos o vejam! exclamou. Onde se mete o senhor que no aparece em parte
nenhuma? Pois olhe, ontem admirou-me no o ver no teatro. A Candiani esteve deliciosa.
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Que mulher! Gosta da Candiani?  natural. Os senhores so todos os mesmos. O baro dizia
ontem, no camarote, que uma s italiana vale por cinco brasileiras. Que desaforo! e desaforo
de velho, que  pior. Mas por que  que o senhor no foi ontem ao teatro?
--Uma enxaqueca.
--Qual! Algum namoro; no acha, Virglia? Pois, meu amigo, apresse-se, porque o senhor
deve estar com quarenta anos... ou perto disso. .. No tem quarenta anos?
--No lhe posso dizer com certeza, respondi eu -- mas se me d licena, vou consultar a
certido de batismo.
--J, v... E estendendo-me a mo: At quando? Sbado ficamos em casa; o baro est com
umas saudades suas...
Chegando  rua, arrependi-me de ter sado. A baronesa era uma das pessoas que mais
desconfiavam de ns. Cinqenta e cinco anos que pareciam quarenta, macia, risonha,
vestgios de beleza, porte elegante e maneiras finas. No falava muito nem sempre; possua
a grande arte de escutar os outros, espiando-os; reclinava-se ento na cadeira,
desembainhava um olhar afiado e comprido, e deixava-se estar. 0s outros, no sabendo o
que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava s, ora fixa, ora mbil,
levando a astcia ao ponto de olhar s vezes para dentro de si, porque deixava cair as
plpebras; mas, como as pestanas eram rtulas, o olhar continuava o seu ofcio, remexendo a
alma e a vida dos outros.
A segunda pessoa era um parente de Virglia, o Viegas, um cangalho de setenta invernos,
chupado e amarelado, que padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma no menos
teimosa e de uma leso de corao: era um hospital concentrado. Os olhos porm luziam de
muita vida e sade. Virglia, nas primeiras semanas, lhe tinha medo nenhum; dizia-me que,
quando o Viegas parecia espreitar, com o olhar fixo, estava simplesmente contando
dinheiro. Com efeito, era um grande avaro.
Havia ainda o primo de Virgnia, o Luis Dutra, que eu agora desarmava  fora de lhe falar
nos versos e prosas, e de o apresentar aos conhecidos. Quando estes, ligando o nome 
pessoa, se mostravam contentes da apresentao, no h dvida que Lus Dutra exultava de
felicidade; mas eu curava-me da felicidade com a esperana de que ele nos no denunciasse
nunca. Havia, enfim, umas duas ou trs senhoras, vrios gamenhos, e os fmulos, que
naturalmente se desforravam assim da condio servil, e tudo isso constitua uma verdadeira
floresta de olheiros e escutas, por entre os quais tnhamos de resvalar com a ttica e maciez
das cobras.
CAPTULO LXVI / AS PERNAS
ORA, ENQUANTO EU pensava naquela gente, iam-me pernas levando, ruas abaixo, de
modo que insensivelmente me achei  porta do Hotel Pharous. De costume jantava a; mas,
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no tendo deliberadamente andado, nenhum merecimento da ao me cabe, e sim s pernas
que a fizeram. Abenoadas pernas! E h quem vos trate com desdm ou indiferena. Eu
mesmo, at ento, tinha-vos em m conta, zangava-me quando vos fatigveis, quando no
podeis ir alm de certo ponto, e me deixveis com o desejo a avoaar,  semelhana de
galinha atada pelos ps.
Aquele caso, porm, foi um raio de luz. Sim, pernas amigas, vs deixastes  minha cabea o
trabalho de pensar em Virglia, e dissestes uma  outra: Ele precisa comer, so horas de
jantar, vamos lev-lo ao Pharous; dividamos a conscincia dele, uma parte fique l com a
dama, tomemos ns a outra, para que ele v direito, no: abalroe as gentes e as carroas, tire
o chapu aos conhecidos, e finalmente chegue so e salvo ao hotel. E cumpristes  risca o
vosso propsito, amveis pernas, o que me obriga a imortalizar-vos nesta pgina.
CAPTULO LXVII / A CASINHA
JANTEI E FUI a casa. L achei uma caixa de charutos, que me mandara o Lobo Neves,
embrulhada em papel de seda, e ornada de fitinhas cor-de-rosa. Entendi, abri-a, e tirei este
bilhete:
Meu B...
Desconfiam de ns; tudo est perdido; esquea-me para sempre. No nos veremos mais.
Adeus; esquea-se da infeliz
Foi um golpe esta carta; no obstante, apenas fechou a noite, corri  casa de Virglia. Era
tempo; estava arrependida. Ao vo de uma janela, contou-me o que se passara com a
baronesa. A baronesa disse-lhe francamente que se falara muito, no teatro, na noite anterior,
a propsito da minha ausncia do camarote do Lobo Neves; tinham comentado as minhas
relaes na casa;- em suma, ramos objeto da suspeita pblica. Concluiu dizendo que no
sabia que o fazer.
-- O melhor  fugirmos, insinuei.
-- Nunca, respondeu ela abanando a cabea.
Vi que era impossvel separar duas cousas que no esprito dela estavam inteiramente ligadas:
o nosso amor e a considerao pblica. Virglia era capaz de iguais e grandes sacrifcios
para conservar ambas as vantagens, e a fuga s lhe deixava uma. Talvez senti alguma cousa
semelhante a despeito; mas as comoes daqueles dous dias eram j muitas, e o despeito
morreu depressa. V l; arranjemos a casinha.
Com efeito, achei-a, dias depois, expressamente feita, em um recanto da Gamboa. Um
brinco! Nova, caiada de fresco, com quatro janelas na frente e duas de cada lado, todas com
venezianas cor de tijolo, -- trepadeira nos cantos, jardim na frente; mistrio e solido. Um
brinco!
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Convencionamos que iria morar ali uma mulher, conhecida de Virglia, em cuja casa fora
costureira e agregada. Virglia exercia sobre ela verdadeira fascinao. No se lhe diria tudo;
ela aceitaria facilmente o resto.
Para mim era aquilo uma situao nova do nosso amor, uma aparncia de posse exclusiva,
de domicilio absoluto, alguma cousa que me faria adormecer a conscincia e resguardar o
decoro. J estava cansado das cortinas do outro, das cadeiras, do tapete, do anap, de todas
essas cousas, que me traziam aos olhos constantemente a nossa duplicidade. Agora podia
evitar os jantares freqentes o ch de todas as noites, enfim a presena do filho deles, meu
cmplice e meu inimigo. A casa resgatava-me tudo; o mundo vulgar terminaria  porta; dali
para dentro era o infinito, um mundo eterno, superior, excepcional, nosso, somente nosso,
sem leis, sem instituies, sem baronesas, sem olheiros, sem escutas, -- um s mundo, um s
casal, uma s vida, uma s vontade, uma s afeio, -- a unidade moral de todas as cousas
pela excluso das que me eram contrrias.
CAPTULO LXVIII / O VERGALHO
TAIS ERAM as reflexes que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de
ver e ajustar a casa. Interrompeu-mas um ajuntamento; era um preto que vergalhava outro na
praa. O outro no se atrevia a fugir; gemia somente estas nicas palavras: -- "No, perdo
meu senhor; meu senhor, perdo!" Mas o primeiro no fazia cada splica, respondia com
uma vergalhada nova.
-- Toma, diabo! dizia ele; toma mais perdo, bbado!
-- Meu senhor! gemia o outro.
Cala a boca, besta! replicava o vergalho.
Parei, olhei... Justos cus! Quem havia de ser o do verganho? Nada menos que o meu
moleque Prudncio, o que meu pai libertara alguns anos antes. Cheguei-me; ele deteve-se
logo e pedir e a bno; perguntei-lhe se aquele preto era escravo dele.
--  sim, nhonh.
-- Fez-te alguma cousa?
--  um vadio e um bbado muito grande. Ainda hoje deixei ele na quitanda, enquanto eu ia
l embaixo na cidade, e ele deixou a quitanda para ir na venda beber.
-- Est bom, perdoa-lhe, disse eu.
-- Pois no, nhonh. Nhonh manda, no pede. Entra para casa,
Sa do grupo, que me olhava espantado e cochichava as suas conjeturas. Segui caminho, a
desfiar uma infinidade de reflexes, que sinto haver inteiramente perdido; alis, seria
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matria para um bom captulo, e talvez alegre. Eu gosto dos captulos alegres;  o meu fraco.
Exteriormente, era torvo o episdio do Valongo; mas s exteriormente. Logo que meti mais
dentro a faca do raciocnio achei-lhe um miolo gaiato, fino, e at profundo. Era um modo
que o Prudncio tinha de se desfazer das pancadas recebidas,  transmitindo-as a outro. Eu,
em criana, montava-o, punha-lhe um freio na boca e desancava-o sem compaixo; ele
gemia e sofria. Agora, porem, que era livre, dispunha de si mesmo, dos braos, das pernas,
podia trabalhar, folgar, dormir, desagrilhoado da antiga condio, agora  que ele se
desbancava: comprou um escravo, e ia-lhe pagando, com alto juro, as quantias que de mim
recebera. Vejam as subtilezas do maroto!
CAPTULO LXIX / UM GRO DE SANDICE
ESTE CASO faz-me lembrar um doudo que conheci. Chamava-se Romualdo e dizia ser
Tamerlo. Era a sua grande e nica mania, e tinha uma curiosa maneira de a explicar.
--Eu sou o ilustre Tamerlo, dizia ele. Outrora fui Romualdo, mas adoeci, e tomei tanto
trtaro, tanto trtaro, tanto trtaro, e at rei dos Trtaros. O trtaro tem a virtude de fazer
trtaros.
Pobre Romualdo! A gente ria da resposta, mas  provvel que o leitor no se ria, e com
razo; eu no lhe acho graa nenhuma. Ouvida, tinha algum chiste; mas assim contada, no
papel, e a propsito de um vergalho recebido e transferido, fora  confessar que  muito
melhor voltar  casinha da Gamboa; deixemos os Romualdos e Prudncios.
CAPTULO LXX / D. PLCIDA
VOLTEMOS  casinha. No serias capaz de l entrar hoje, curioso leitor; envelheceu,
enegreceu, apodreceu, e o proprietrio deitou-a abaixo para substitui-la por outra, trs vezes
maior, mas juro-te que muito menor que a primeira. O mundo era estreito para Alexandre;
um desvo de telhado  o infinito para as andorinhas.
V agora a neutralidade deste globo, que nos leva, atravs dos espaos, como uma lancha de
nufragos, que vai dar  costa: dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espao de cho
que sofreu um casal de pecados. Amanh pode l dormir um eclesistico, depois um
assassino, depois um ferreiro, depois um poeta, e todos abenoaro esse canto de terra, que
lhes deu algumas iluses.
Virglia fez daquilo um brinco; designou as alfaias mais idneas, e disp-las com a intuio
esttica da mulher elegante; eu levei para l alguns livros, e tudo ficou sob a guarda de D.
Plcida, suposta, e, a certos respeitos, verdadeira dona da casa.
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Custou-lhe muito a aceitar a casa; farejara a inteno e doa-lhe o ofcio; mas afinal cedeu.
Creio que chorava, a princpio: tinha nojo de si mesma. Ao menos,  certo que no levantou
os olhos para mim durante os primeiros dous meses; falava-me com eles baixos, seria,
carrancuda, s vezes triste. Eu queria angari-la, e no me dava por ofendido, tratava-a com
carinho e respeito; forcejava por obter-lhe a benevolncia, depois a confiana. Quando
obtive a confiana, imaginei uma histria pattica dos meus amores com Virglia, um caso
anterior ao casamento, a resistncia do pai, a dureza do marido, e no sei que outros toques
de novela. D. Plcida no rejeitou uma s pgina da novela; aceitou-as todas. Era uma
necessidade da conscincia. Ao cabo de seis meses, quem nos visse juntos diria que D.
Plcida era minha sogra.
No fui ingrato; fiz-lhe um peclio de cinco contos,--os cinco contos achados em Botafogo,
como um po para a velhice. D. Plcida agradeceu-me com lgrimas nos olhos, e nunca
mais deixou de rezar por mim, todas as noites, diante de uma imagem da Virgem, que tinha
no quarto. Foi assim que lhe acabou o nojo.
CAPTULO LXXI / O SENO DO LIVRO
COMEO a arrepender-me deste livro. No que ele me canse; eu no tenho que fazer; e,
realmente, expedir alguns magros captulos para esse mundo sempre  tarefa que distrai um
pouco da eternidade. Mas o livro  enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contrao
cadavrica; vcio grave, e alis nfimo, porque o maior defeito deste livro s tu, leitor. Tu
tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narrao direta e nutrida, o
estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo so como os brios, guinam  direita e 
esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaam .o cu, escorregam e
caem...
E caem! -- Folhas misrrimas do meu cipreste, heis de cair, coxo quaisquer outras belas e
vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lgrima de saudade. Esta  a grande
vantagem da morte, que, se no deixa boca para rir, tambm no deixa olhos para chorar...
Heis de cair.
CAPTULO LXXII / O BIBLIMANO
TALVEZ SUPRIMA o captulo anterior; entre outros motivos, h a, nas ltimas linhas,
uma frase muito parecida com despropsito, e eu no quero dar pasto  crtica do futuro.
Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que no ama nenhuma
outra cousa alm dos livros, inclina-se sobre a pgina anterior, a ver se lhe descobre o
despropsito; l, rel! Tresl, desengona as palavras, saca uma slaba, depois outra, mais
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outra e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz,
espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; no acha o despropsito.
 um biblimano. No conhece o autor; este nome de Brs Cubas no vem nos seus
dicionrios biogrficos. Achou o volume por acaso, no pardieiro de um alfarrabista.
Comprou-o por duzentos ris. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era
um exemplar nico... nico! Vs, que no s amais os livros, seno que padeceis a mania
deles, vs sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhais portanto, as delcias de meu
biblimano. Ele rejeitaria a coroa das ndias, o papado, todos os museus da Itlia e da
Holanda, se os houvesse de trocar por esse nico exemplar; e no porque seja o das minhas
Memrias; faria a mesma cousa com o Almanaque de Laemmert, uma vez que fosse nico.
O pior  o despropsito. L continua o homem inclinado sobre a pgina, com uma lente no
olho direito, todo entregue i nobre e spera funo de decifrar o despropsito. J prometeu a
si mesmo escrever uma breve memria, na qual relate o achado do livro e a descoberta da
sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, no descobre nada e
contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se  janela e mostra-o ao
sol. Um exemplar nico! Nesse momento passa-lhe pr baixo da janela um Csar ou um
Cromwell, a caminho do poder. Ele d de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia
o livro devagar, com amor, aos goles... Um exemplar nico!
CAPTULO LXXIII / O LUNCHEON
O DESPROPSITO fez-me perder outro captulo. Que melhor no era dizer as cousas
lisamente, sem todos estes solavancos! J comparei o meu estilo ao andar dos brios. Se a
idia vos parece indecorosa direi que ele  o que eram as minhas refeies com Virglia, na
casinha da Gamboa, onde s vezes fazamos a nossa patuscada, o nosso luncheon. Vinho,
fruta, compotas. Comamos,  verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces,
de olhares ternos, de criancices, uma infinidade desses apartes do corao, alis o
verdadeiro, o ininterrupto discurso do amor. s vezes vinha o arrufo temperar o nmio
adocicado da situao. Ela deixava-me, refugiava-se num canto do canap, ou ia para o
interior ouvir as denguices de Dona Plcida. Cinco ou dez minutos depois, reatvamos a
palestra, como eu reato a narrao, para desat-la outra vez. Note-se que, longe de termos
horror ao mtodo, era nosso costume convid-lo, na pessoa de D. Plcida, a sentar-se
conosco  mesa; mas D. Plcida no aceitava nunca.
-- Voc parece que no gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virglia.
-- Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alando as mos para o tecto. No gosto de
Iai! Mas ento de quem  que eu gostaria neste mundo?
E, pegando-lhe nas mos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, at molharem-se-lhe os
olhos, de to fixo que era. Virglia acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma pratinha na
algibeira do vestido.
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CAPTULO LXXIV / HISTRIA DE D. PLCIDA
NO TE ARREPENDAS de ser generoso; a pratinha rendeu-me uma confidncia de D.
Plcida, e conseguintemente este captulo. Dias depois, como eu a achasse s em casa,
travamos palestra, e ela contou-me em breves termos a sua histria. Era filha natural de um
sacristo da S e de uma mulher que fazia doces para fora. Perdeu o pai aos dez anos. J
ento ralava coco e fazia no sei que outros trabalhos de doceira, compatveis com a idade.
Aos quinze ou dezesseis casou com um alfaiate, que morreu tsico algum tempo depois,
deixando-lhe uma filha. Viva e moa, ficaram a seu cargo a filha, com dous anos, e a me,
cansada de trabalhar. Tinha de sustentar a trs pessoas. Fazia doces, que era o seu ofcio,
mas cosia tambm, de dia e de noite, com afinco, para trs ou quatro lojas, e ensinava
algumas crianas do bairro, a dez tostes por ms. Com isto iam-se passando os, no a
beleza, porque no a tivera nunca. Apareceram-lhe alguns namoros, propostas, sedues, a
que resistia.
--Se eu pudesse encontrar outro marido, disse-me ela, creia que me teria casado; mas
ningum queria casar comigo.
Um dos pretendentes conseguiu fazer-se aceito; no sendo, porm, mais delicado que os
outros, D. Plcida despediu-o do mesmo modo, e, depois de o despedir, chorou muito.
Continuou a coser para fora e a escumar os tachos. A me tinha a rabugem do
temperamento, dos anos e da necessidade- mortificava a filha para que tomasse um dos
maridos de emprstimo e de ocasio que lha pediam. E bradava:
--Queres ser melhor do que eu? No sei donde te vem essas fidcias de pessoa rica. Minha
camarada, a vida no se arranja  toa; no se come vento. Ora esta! Moos to bons como o
Policarpo da venda, coitado... Esperas algum fidalgo, no ?
D. Plcida jurou-me que no esperava fidalgo nenhum. Era gnio. Queria ser casada. Sabia
muito bem que a me o no fora, e conhecia algumas que tinham s o seu moo delas; mas
era gnio e queria ser casada. No queria tambm que a filha fosse outra cousa. Trabalhava
muito, queimando os dedos ao fogo, e os olhos ao candeeiro, para comer e no cair.
Emagreceu, adoeceu, perdeu a me, enterrou-a por subscrio, e continuou a trabalhar. A
filha estava com quatorze anos; mas era muito fraquinha, e no fazia nada, a no ser
namorar os capadcios que lhe rondavam a rtula. D. Plcida vivia com imensos cuidados,
levando-a consigo, quando tinha de entregar costuras. A gente das lojas arregalava e piscava
os olhos, convencida de que ela a levava para colher marido ou outra cousa. Alguns diziam
graolas, faziam cumprimentos; a me chegou a receber propostas de dinheiro...
Interrompeu-se um instante, e continuou logo:
-- Minha filha fugiu-me; foi com um sujeito, nem quero saber... Deixou-me s, mas to
triste, to triste, que pensei morrer. No tinha ningum mais no mundo e estava quase velha
e doente. Foi por esse tempo que conheci a famlia de Iai; boa gente, que me deu que fazer,
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e at chegou a me dar casa. Estive l muitos meses, um ano, mais de um ano, agregada,
costurando. Sa quando Iai casou. Depois vivi como Deus foi servido. Olhe os meus dedos,
olhe estas mos... E mostrou-me as mos grossas e gretadas, as pontas dos dedos pica das da
agulha. - No se cria isto  toa, meu senhor; Deus sabe como  que isto se cria. . .
Felizmente, Iai me protegeu, e o senhor doutor tambm... Eu tinha um medo de acabar na
rua, pedindo esmola . . .
Ao soltar a ltima frase, D. Plcida teve um calafrio. Depois, como se tornasse a si, pareceu
atentar na inconvenincia daquela confisso ao amante de uma mulher casada, e comeou a
rir, a desdizer-se, a chamar-se tola, "cheia de fidcias", como lhe dizia a me; enfim,
cansada do meu silncio, retirou-se da sala. Eu fiquei a olhar para a ponta do botim.
CAPTULO LXXV / COMIGO
PODENDO ACONTECER que algum dos meus leitores tenha pulado o captulo anterior,
observo que  preciso le-lo para entender o que eu disse comigo, logo depois que D. Plcida
saiu da sala. O que eu disse foi isto:
"Assim, pois, o sacristo da S, um dia. ajudando  missa, viu entrar a dama, que devia ser
sua colaboradora na vida de D. Plcida. Viu-a outros dias, durante semanas inteiras, gostou,
disse-lhe alguma graa, pisou-lhe o p, ao acender os altares, nos dias de festa. Ela gostou
dele, acercaram-se, amaram-se. Dessa conjuno de luxrias vadias brotou D. Plcida. t de
crer que D. Plcida no falasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia dizer aos autores
de seus dias: --Aqui estou. Para que me chamastes? E o sacristo e a sacrist naturalmente
lhe responderiam. --Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura,
comer mal, ou no comer andar de um lado para outro, na faina, adoecendo e sarando, com
o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo desesperada, amanh resignada,
mas sempre com as mos no tacho e os olhos na costura, at acabar um dia na lama ou no
hospital; foi para isso que te chamamos, num momento de simpatia".
CAPTULO LXXVI / O ESTRUME
SBITO DEU-ME a conscincia um repelo, acusou-me de ter feito capitular a probidade
de D. Plcida, obrigando-a a um papel torpe, depois de uma longa vida de trabalho e
privaes. Medianeira no era melhor que concubina, e eu tinha-a baixado de obsquios e 
custa de obsquios e dinheiro. Foi o que me disse a conscincia; fiquei uns dez minutos sem
saber que lhe replicasse. Ela acrescentou que eu me aproveitara da fascinao exercida por
Virglia sobre a ex-costureira, da gratido desta, enfim da necessidade. Notou a resistncia
de D. Plcida, as lgrimas dos primeiros dias, as caras feias, es silncios, os olhos baixos, e a
minha arte em suportar tudo isso, at vence-la. E repuxou-me outra vez de um modo irritado
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e nervoso.
Concordei que assim era, mas aleguei que a velhice de D. Plcida estava agora ao abrigo da
mendicidade: era uma compensao. Se no fossem os meus amores, provavelmente D.
Plcida acabaria como tantas outras criaturas humanas; donde se poderia deduzir que o vcio
e muitas vezes o estrume da virtude. O que no impede que a virtude seja uma flor cheirosa
e s. A conscincia concordou, e eu fui abrir a porta a Virglia.
CAPTULO LXXVII / ENTREVISTA
VIRGLIA entrou risonha e sossegada. Os tempos tinham levado os sustos e vexames. Que
doce que era v-la chegar, nos primeiros dias, envergonhada e trmula! Ia de sege, velado o
rosto, envolvida numa espcie de mantu, que lhe disfarava as ondulaes do talhe. Da
primeira vez deixou-se cair no canap, ofegante, escarlate, com os olhos no cho; e, palavra!
em nenhuma outra ocasio a achei to bela, talvez porque nunca me senti mais lisonjeado.
Agora, porm, como eu dizia, tinham acabado os sustos e vexames; as entrevistas entravam
no perodo cronomtrico. A intensidade do amor era a mesma; a diferena  que a chama
perdera o tresloucado dos primeiros dias para constituir-se um simples feixe de raios,
tranqilo e constante, como nos casamentos.
--Estou muito zangada com voc, disse ela sentando-se.
--Por qu?
--Por que no foi l ontem, como me tinha dito. O Damio perguntou muitas vezes se voc
no iria, ao menos, tomar ch. Por que  que no foi?
Com efeito, eu havia faltado  palavra que dera, e a culpa era toda de Virglia. Questo de
cimes. Essa mulher esplendida sabia que o era, e gostava de o ouvir dizer, fosse em voz
alta ou baixa. Na antevspera, em casa da baronesa, valsara duas vezes com o mesmo
peralta, depois de lhe escutar as cortesanices, ao canto de uma janela. Estava to alegre! to
derramada! to cheia de si! Quando descobriu, entre as minhas sobrancelhas, a ruga
interrogativa e ameaadora, no teve nenhum sobressalto, nem ficou subitamente sria; mas
deitou ao mar o peralta e as cortesanices. Veio depois a mim, tomou-me o brao, e levou-me
a outra sala, menos povoada, onde se me queixou de cansao, e disse muitas outras cousas,
com o ar pueril que costumava ter, em certas ocasies, e eu ouvi-a quase sem responder
nada.
Agora mesmo, custava-me responder alguma cousa, mas enfim contei-lhe o motivo da
minha ausncia. . . No, eternas estrelas, nunca vi olhos mais pasmados. A boca semi-aberta,
as sobrancelhas arqueadas, uma estupefao visvel, tangvel, que se no podia negar; tal foi
a primeira rplica de Virglia; abanou a cabea com um sorriso de piedade e ternura, que
inteiramente me confundiu.
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-- Ora, voc!
E foi tirar o chapu, lpida, jovial como a menina que torna do colgio; depois veio a mim,
que estava sentado, deu-me pancadinha na testa, com um s dedo, a repetir: Isto, isto; e eu
no tive. remdio seno rir tambm, e tudo acabou em galhofa. Era claro que me enganara.
CAPTULO LXXVIII / A PRESIDNCIA
CERTO DIA, meses depois, entrou Lobo Neves em casa, dizendo que iria talvez ocupar
uma presidncia de provncia. Olhei para Virgnia, que empalideceu; ele, que a viu
empalidecer, perguntou-lhe:
--A modo que no gostaste, Virglia?
Virglia abanou a cabea.
-- No me agrada muito, foi a sua resposta.
No se disse mais nada; mas de noite Lobo Neves insistia no projeto um pouco mais
resolutamente do que de tarde; dous dias depois declarou  mulher que a presidncia era
cousa definitiva. Virglia na pde dissimular a repugnncia que isto lhe causava. O marido
respondia a tudo com as necessidades polticas.
No posso recusar o que me pedem;  at convenincia nossa. do nosso futuro, dos teus
brases, meu amor, porque eu prometi que serias marquesa, e nem baronesa ests. Dirs que
sou ambicioso? Sou-o deveras, mas  preciso que me no ponhas um peso nas asas da
ambio.
Virglia ficou desorientada. No dia seguinte achei-a triste, na casa; da Gamboa,  minha
espera; tinha dito tudo a D. Plcida, que buscava consol-la como podia. No fiquei menos
abatido.
-- Voc h de ir conosco, disse-me Virglia.
--Est douda? Seria uma insensatez.
--Mas ento...?
--Ento,  preciso desfazer o projeto.
--  impossvel.
-- J aceitou?
--Parece que sim.
Levantei-me, atirei o chapu a uma cadeira, e entrei a passear de; um lado para outro, sem
saber o que faria. Cogitei largamente, e no achei nada. Enfim, cheguei-me a Virglia, que
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estava sentada, e travei-lhe da mo; D. Plcida foi  janela.
--Nesta pequenina mo est toda a minha existncia, disse eu; voc  responsvel por ela;
faa o que lhe parecer.
Virglia teve um gesto aflitivo; eu fui encostar-me ao consolo fronteiro. Decorreram alguns
instantes de silncio; ouvamos somente o latir de um co, e no sei se o rumor da gua, que
morria na praia Vendo que no falava, olhe; para ela. Virgilia tinha os olhos no cho,
parados, sem luz, as mos deixadas sobre os joelhos, com os dedos cruzados, na atitude da
suprema desesperana. Noutra ocasio, por diferente motivo,  certo que eu me lanaria aos
ps dela, e a ampararia com a minha razo e a minha ternura; agora, porm, era preciso
compeli-la ao esforo de si mesma, ao sacrifcio,  responsabilidade da nossa vida comum, e
conseguintemente desampar-la deix-la, e sair; foi o que fiz.
-- Repito, a minha felicidade est nas tuas mos, disse eu.
Virglia quis agarrar-me, mas eu j estava fora da porta. Cheguei a ouvir um prorromper de
lgrimas, e digo-lhes que estive a ponto de voltar, para as enxugar com um beijo; mas
subjuguei-me e sa.
CAPTULO LXXIX / COMPROMISSO
NO ACABARIA se houvesse de contar pelo mido o que padeci nas primeiras horas.
Vacilava entre um querer e um no querer, entre a piedade que me empuxava  casa de
Virglia e outro sentimento, -- egosmo, supunhamos,-- que me dizia: "Fica; deixa-a a ss
com o problema, deixa-a que ela o resolver no sentido do amor". Creio que essas duas
foras tinham igual intensidade, investiam e resistiam ao mesmo tempo, com ardor, com
tenacidade, e nenhuma cedia definitivamente. s vezes sentia um dentezinho de remorso;
parecia-me que abusava da fraqueza de uma mulher amante e culpada, sem nada sacrificar
nem arriscar de mim prprio; e, quando ia a capitular, vinha outra vez o amor, e me repetia o
conselho egosta, e eu ficava irresoluto e inquieto, desejoso de a ver, e receoso de que a vista
me levasse a compartir a responsabilidade da soluo.
Por fim interveio um compromisso entre o egosmo e a piedade; eu iria v-la em casa, e s
em casa, em presena do marido, para lhe no dizer nada,  vspera do efeito da minha
intimao. Deste modo poderia conciliar as duas foras. Agora, que isto escrevo, quer-me
parecer que o compromisso era uma burla, que essa piedade era ainda uma forma de
egosmo, e que a resoluo de ir consolar Virglia no passava de uma sugesto de meu
prprio padecimento.
CAPTULO LXXX / DE SECRETRIO
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NA NOITE SEGUINTE fui efetivamente  casa do Lobo Neves estavam ambos, Virglia
muito triste, ele muito jovial. Juro que ela sentiu certo alvio, quando os nossos olhos se
encontraram, cheios de curiosidade e ternura. Lobo Neves contou-me os planos que levava
para a presidncia, as dificuldades locais, as esperanas, as resolues; estava to contente!
to esperanado! Virglia, ao p da mesa fingia ler um livro, mas por cima da pgina
olhava-me de quando em quando, interrogativa e ansiosa.
--O pior, disse-me de repente o Lobo Neves,  que ainda no achei secretrio.
--No?
--No, e tenho uma idia.
--Ah!
--Uma idia... Quer voc dar um passeio ao Norte? No sei o que lhe disse.
--Voc  rico, continuou ele, no precisa de um magro ordenado; mas se quisesse
obsequiar-me, ia de secretrio comigo.
Meu esprito deu um salto para trs, como se descobrisse uma serpente diante de si. Encarei
o Lobo Neves, fixamente, imperiosamente a ver se lhe apanhava algum pensamento oculto. .
. Nem sombra disso, o olhar vinha direito e franco, a placidez do rosto era natural, no
violenta, uma placidez salpicada de alegria. Respirei, e no tive nimo de olhar para
Virglia; senti por cima da pgina o olhar dela, que me pedia tambm a mesma cousa, e
disse que sim, que iria. Na verdade, um presidente, uma presidenta, um secretrio era
resolver as cousas de um modo administrativo.
CAPTULO LXXXI / A RECONCILIAO
CONTUDO, ao sair de l, tive umas sombras de dvida; cogitei se no ia expor insanamente
a reputao de Virglia, se no haveria outro meio razovel de combinar o Estado e a
Gamboa. No achei nada. No dia seguinte, ao levantar-me da cama, trazia o esprito feito e
resoluto a aceitar a nomeao. Ao meio-dia, veio o criado dizer-me que estava na sala uma
senhora, coberta com um vu. Corro; era minha irm Sabina.
-- Isto no pode continuar assim, disse ela;  preciso
-- Ora essa! irei eu mesmo v-la.
-- Sim?
-- Palavra.
-- Tanto melhor! respirou Sabina.  tempo de acabar com isto. Achei-a mais gorda, e talvez
mais moa. Parecia ter vinte anos, e contava mais de trinta. Graciosa, afvel, nenhum
acanhamento, nenhum ressentimento. Olhvamos um para o outro, com as mos seguras,
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falando de tudo e de nada, como dous namorados. Era minha infncia que ressurgia, fresca,
travessa e loura; os anos iam caindo como as fileiras de cartas de jogar encurvadas, com que
eu brincava em pequeno, e deixavam-me ver a nossa casa, a nossa famlia, as nossas festas.
Suportei a recordao com algum esforo; mas um barbeiro da vizinhana lembrou-se de
zangarrear na clssica rabeca, e essa voz porque at ento a recordao era muda -- essa voz
do passado, fanhosa e saudosa, a tal ponto me comoveu, que...
Os olhos dela estavam secos. Sabina no herdara a flor amarela e mrbida. Que importa?
Era minha irm, meu sangue, um pedao de minha me, e eu disse-lho com ternura, com
sinceridade... Sbito ouo bater  porta da sala; vou abrir; era um anjinho de cinco anos.
--Entra, Sara, disse Sabina.
Era minha sobrinha. Apanhei-a do cho, beijei-a muitas vezes; a pequena, espantada,
empurrava-me o ombro com a mozinha, quebrando o corpo para descer. . . Nisto,
aparece-me  porta um chapu, e logo um homem, o Cotrim, nada menos que o Cotrim. Eu
estava to comovido, que deixei a filha e lancei-me aos braos do pai. Talvez essa efuso o
desconcertou um pouco;  certo que me pareceu acanhado. Simples prlogo. Da a pouco
falvamos como bons amigos velhos. Nenhuma aluso ao passado, muitos planos de futuro,
promessa de jantarmos em casa um do outro. No deixei de dizer que essa troca de jantares
podia ser que tivesse uma curta interrupo, porque eu andava com idias de uma viagem ao
Norte. Sabina olhou para o Cotrim, o Cotrim para Sabina; ambos concordaram que essas
idias no tinham senso comum. Que diacho podia eu achar no Norte? Pois no era na corte,
em plena corte, que devia continuar a luzir, a meter num chinelo os rapazes do tempo? Que
na verdade, nenhum havia que se me comparasse; ele, Cotrim, acompanhava-me de longe,
es no obstante uma briga ridcula, teve sempre interesse, orgulho, vaidade nos meus
triunfos. Ouvia o que se dizia a meu respeito, nas ruas e nas salas; era um concerto de
louvores e admiraes. E deixa-se isso para ir passar alguns meses na provncia, sem
necessidade, sem motivo srio? A menos que no fosse poltica...
--Justamente poltica, disse eu.
--Nem assim, replicou ele da a um instante. E depois de outro silncio: Seja como for,
venha jantar hoje conosco.
--Certamente que vou; mas, amanh ou depois, ho de vir jantar comigo.
--No sei, no sei, objetou Sabina; casa de homem solteiro. . . Voc precisa casar, mano.
Tambm eu quero uma sobrinha, ouviu?
Cotrim reprimiu-a com um gesto, que no entendi bem. No importa; a reconciliao de
uma famlia vale bem um gesto enigmtico.
CAPTULO LXXXII / QUESTO DE BOTNICA
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DIGAM O QUE QUISEREM dizer os hipocondracos: a vida  uma cousa doce. Foi o que
eu pensei comigo, ao ver Sabina, o marido e a filha descerem de tropel as escadas, dizendo
muitas palavras afetuosas para cima, onde eu ficava -- no patamar, a dizer-lhes outras tantas
para baixo. Continuei a pensar que, na verdade, era feliz. Amava-ma mulher, tinha a
confiana do marido, ia por secretrio de ambos, reconciliava-me com os meus. Que podia
desejar mais, em vinte e quatro horas?
Nesse mesmo dia. tratando de aparelhar os nimos, comecei a espalhar que talvez fosse para
o Norte como secretrio de provncia, a fim de realizar certos desgnios polticos, que me
eram pessoais. Disse-o na Rua do Ouvidor, repeti-o no dia seguinte, no Pharoux e no teatro.
Alguns, ligando a minha nomeao  do Lobo Neves, que j andava em boatos, sorriam
maliciosamente, outros batiam-me no ombro. No teatro disse-me uma senhora que era levar
muito longe o amor da escultura. Referia-se s belas formas de Virglia.
Mas a aluso mais rasgada que me fizeram foi em casa de Sabina, trs dias depois. F-la um
certo Garcez, velho cirurgio, pequenino, trivial e grulha, que podia chegar aos setenta, aos
oitenta, aos no venta anos, sem adquirir jamais aquela compostura austera, que  a gentileza
do ancio. A velhice ridcula , porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza
humana.
-- J sei, desta vez vai ler Ccero, disse-me ele, ao saber d viagem.
-- Ccero! exclamou Sabina.
-- Pois ento? Seu mano  um grande latinista. Traduz Virglio de relance. Olhe que 
Virglio, e no Virglia... no confunda ..
E ria, de um riso grosso, rasteiro e frvolo. Sabina olhou para mim receosa de alguma
rplica; mas sorriu, quando me viu sorrir, e voltou o rosto para disfar-lo. As outras
pessoas olhavam-me com um ar de curiosidade, indulgncia e simpatia; era transparente que
no acabavam de ouvir nenhuma novidade. O caso dos meus amores andava mais pblico
do que eu podia supor. Entretanto sorri, um sorriso curto, fugitivo e guloso, -- palreiro como
as pegas de Sintra. Virglia era um belo erro, e  to fcil confessar um belo erro!
Costumava ficar carrancudo, a princpio, quando ouvia alguma aluso ao nossos amores;
mas, palavra de honra! sentia c dentro uma impresso so suave e lisonjeira. Uma vez,
porm, aconteceu-me sorrir, e continuei a faz-lo das outras vezes. No sei se h a algum
que explique o fenmeno. Eu explico-o assim: a princpio, o contentamento, sendo interior,
era por assim dizer o mesmo sorriso, mas abotoado, andando o tempo, desabotoou-se em
flor, e apareceu aos olhos do prximo. Simples questo de botnica.
CAPTULO LXXXIII / 13
COTRIM tirou-me daquele gozo, levando-me  janela. Voc quer que lhe diga uma cousa?
perguntou ele;-- no faa essa viagem;  insensata,  perigosa.
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-- Por qu?
--Voc bem sabe por que, tornou ele: , sobretudo, perigosa, muito perigosa. Aqui na corte,
um caso desses perde-se na multido da gente e dos interesses, mas na provncia muda de
figura; e tratando-se de personagens polticos,  realmente insensatez. As gazetas de
oposio, logo que farejarem o negcio, passam a imprimi-lo com todas as letras, e a viro
as chufas, os remoques, as alcunhas..,
-- Mas no entendo...
-- Entende, entende. Em verdade, seria bem pouco amigo nosso se me negasse o que toda a
gente sabe. Eu sei disso h longos meses. Repito, no faa semelhante viagem; suporte a
ausncia, que  melhor, e evite algum grande escndalo e maior desgosto. ..
Disse isto, e foi para dentro. Eu deixei-me estar com os olhos no lampio da esquina, -- um
antigo lampio de azeite, -- triste obscuro e recurvado, como um ponto de interrogao. Que
me cumpria fazer? Era o caso de Hamlet: ou dobrar-me  fortuna, ou lutar com ela e
subjug-la. Por outros termos: embarcar ou no embarcar. Esta era a questo. O lampio no
me dizia nada. As palavras do Cotrim ressoavam-me aos ouvidos da memria, de um modo
mui diverso do das palavras do Garcez. Talvez Cotrim tivesse razo; mas podia eu
separar-me de Virglia?
Sabina veio ter comigo, e perguntou-me em que estava pensando. Respondi que em cousa
nenhuma, que tinha sono e ia para casa. Sabina esteve um instante calada.-- O que voc
precisa, sei eu;  uma noiva. Deixe, que eu ainda arranjo uma noiva para voc. Sa de l
opresso, desorientado. Tudo pronto para embarcar, -- esprito e corao,-- e eis a me surge
esse porteiro das convenincias, que me pede o carto de ingresso. Dei ao diabo as
convenincias, e com elas a constituio, o corpo legislativo, o ministrio, tudo.
No dia seguinte, abro uma folha poltica e leio a notcia de que, por decretos de 13, tnhamos
sido nomeados presidente e secretrio da provncia de *** o Lobo Neves e eu. Escrevi
imediatamente a Virglia, e segui duas horas depois para a Gamboa. Coitada de D. Plcida!
Estava cada vez mais aflita; perguntou-me se esqueceramos a nossa velha, se a ausncia era
grande e se a provncia ficava longe. Consolei-a; mas eu prprio precisava de consolaes; a
objeo de Cotrim afligia-me. Virglia chegou da a pouco, lpida como uma andorinha;
mas, ao ver-me triste ficou muito sria.
-- Que aconteceu?
--Vacilo, disse eu; no sei se devo aceitar...
Virgnia deixou-se cair, no canap, a rir. Por qu? disse ela.
-- No  conveniente d muito na vista...
-- Mas ns no j vamos.
-- Como assim?
Contou-me que o marido ia recusar a nomeao, e por motivo que s lhe disse, a ela,
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pedindo-lhe o maior segredo; no podia confess-lo a ningum mais. t pueril, observou ele,
 ridculo; mas em suma,  um motivo poderoso para mim. Referiu-lhe que o decreto trazia
a data de 13, e que esse nmero significava para ele uma recordao fnebre. O pai morreu
num dia 13, treze dias depois de um jantar em que havia treze pessoas. A casa em que
morrera a me tinha o n. 13. Et coetera. Era um algarismo fatdico. No podia alegar
semelhante cousa ao ministro; dir-lhe-ia que tinha razes particulares para no aceitar. Eu
fiquei como h de estar o leitor,-- um pouco assombrado com esse sacrifcio a um nmero;
mas, sendo ele ambicioso, o sacrifcio devia ser sincero...
CAPTULO LXXXIV / O CONFLITO
NMERO FATDICO, lembras-te que te abenoei muitas vezes? Assim tambm as virgens
ruivas de Tebas deviam abenoar a gua, de ruiva crina, que as substituiu no sacrifcio de
Pelpidas,-- uma donosa gua, que l morreu, coberta de flores, sem que ningum lhe desse
nunca uma palavra de saudade. Pois dou-ta eu, gua piedosa, no s pela morte havida,
como porque entre as donzelas escapas, no  impossvel que figurasse uma av dos
Cubas... Nmero fatdico, tu foste a nossa salvao. No me confessou o marido a causa da
recusa; disse-me tambm que eram negcios particulares, e o rosto ; srio, convencido, com
que eu o escutei, fez honra  dissimulao humana. Ele  que mal podia encobrir a tristeza
profunda que o minava- falava pouco, absorvia-se, metia-se em casa, a ler. Outras vezes
recebia, e ento conversava e ria muito, com estrpito e afetao. Oprimiam-no duas cousas,
a ambio, que um escrpulo desazara, e logo depois a dvida, e talvez o arrependimento, --
mas um arrependimento, que viria outra vez, se repetisse a hiptese porque o fundo
supersticioso existia. Duvidava da superstio, sem chegar a rejeit-la. Essa persistncia de
um sentimento, que repugna ao mesmo indivduo, era um fenmeno digno de alguma
ateno. Mas eu preferia a pura ingenuidade de D. Plcida, quando conversava no poder
ver um sapato voltado para o ar.
--Que tem isso? perguntava-lhe eu.
--Faz mal, era a sua resposta.
Isto somente, esta nica resposta, que valia para ela o livro dos sete selos. Faz mal.
Disseram-lhe isso em criana, sem outra explicao, e ela contentava-se com a certeza do
mal. J no acontecia mesma cousa quando se falava de apontar uma estrela com o dedo a
sabia perfeitamente que era caso de criar uma verruga.
Ou verruga ou outra cousa, que valia isso, para quem no perde uma presidncia de
provncia? Tolera-se uma superstio gratuita ou barata;  insuportvel a que leva uma parte
da vida. Este era o caso do Lobo Neves com o acrscimo da dvida e do terror de haver sido
ridculo. E mais este outro acrscimo, que o ministro no acreditou nos motivos particulares;
atribuiu a recusa do Lobo Neves a manejos polticos, iluso complicada de algumas
aparncias; tratou-o mal, comunicou a desconfiana aos colegas; sobrevieram incidentes;
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enfim, com o tempo, o presidente resignatrio foi para a oposio.
CAPTULO LXXXV / O CIMO DA MONTANHA
QUEM ESCAPA a um perigo ama a vida com outra intensidade; Entrei a amar Virglia com
muito mais ardor, depois que estive a pique de a perder, e a mesma cousa lhe aconteceu a
ela. Assim, a presid6encia no fez mais do que avivar a afeio primitiva; foi a droga com
que tomamos mais saboroso o nosso amor, e mais prezado tambm. Nos primeiros dias,
depois daquele incidente, folgvamos de imaginar a dor da separao, se houvesse
separao, a tristeza de um e de outro,  proporo que o mar, como uma toalha elstica, se
fosse dilatando entre ns; e, semelhantes s crianas, que se achegam ao regao das mes,
para fugir a uma simples careta, fugamos do suposto perigo, apertando-nos com abraos.
-- Minha boa Virglia!
-- Meu amor!
-- Tu s minha, no?
-- Tua, tua...
E assim reatamos o fio da aventura como a sultana Scheherazade o dos seus contos. Esse
foi, cuido eu, o ponto mximo do nosso amor, o cimo da montanha, donde por algum tempo
divisamos os vale de leste e de oeste, e por cima de ns o cu tranqilo e azul. Repousado
esse tempo, comeamos a descer a encosta, com as mos presas ou soltas, mas a descer, a
descer...
CAPTULO LXXXVI / O MISTRIO
SERRA ABAIXO, como eu a visse um pouco diferente, no sei se abatida ou outra cousa,
perguntei-lhe o que tinha; calou-se, fez um gesto de enfado, de mal-estar, de fadiga; ateimei,
ela disse-me que... Um fluido subtil percorreu todo o meu corpo: sensao forte, rpida,
singular, que eu no chegarei jamais a fixar no papel. Travei-lhe das mos, puxei-a
levemente a mim, e beijei-a na testa, com uma delicadeza de zfiro e uma gravidade de
Abrao. Ela estremeceu, colheu-me a cabea entre as palmas, fitou-me os olhos, depois
afagou-me com um gesto maternal. . . Eis a um mistrio; deixemos ao leitor o tempo de
decifrar este mistrio.
CAPTULO LXXXVII / GEOLOGIA
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SUCEDEU por esse tempo um desastre: a morte do Viegas. O Viegas passou a de relance,
com os seus setenta anos, abafados de asma, desconjuntados de reumatismo, e uma leso de
corao por quebra. Foi um dos finos espreitadores da nossa aventura. Virgnia nutria
grandes esperanas em que esse velho parente, avaro como um sepulcro, lhe amparasse o
futuro do filho, com algum legado; e, se o marido tinha iguais pensamentos, encobria-os ou
estrangulava-os. Tudo se deve dizer: havia no Lobo Neves certa dignidade fundamental,
uma camada de rocha, que resistia ao comrcio dos homens. As outras, as camadas de cima,
terra solta e areia, levou-lhas a vida, que  um enxurro perptuo. Se o leitor ainda se lembra
do captulo XXIII, observar que  agora a segunda vez que eu comparo a vida a um
enxurro; mas tambm h de reparar que desta vez acrescento-lhe um adjetivo -- perptuo. E
Deus sabe a fora de um adjetivo, principalmente em pases novos e clidos.
O que  novo neste livro  a geologia moral do Lobo Neves, provavelmente a do cavalheiro,
que me est lendo. Sim, essas camadas de carter, que a vida altera, conserva ou dissolve,
conforme a resistncia delas, essas camadas mereceriam um captulo, que eu no escrevo,
por no alongar a narrao. Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha
vida foi um certo Jac Medeiros ou Jac Valadares, no me recorda bem o nome. Talvez
fosse Jac Rodrigues; em suma, Jac. Era a probidade em pessoa; podia ser rico,
violentando um pequenino escrpulo, e no quis; deixou ir pelas mos fora nada menos de
uns quatrocentos contos; tinha a probidade to exemplar, que chegava a ser mida e
cansativa. Um dia. como nos achssemos, a ss, em casa dele, em boa palestra, vieram dizer
que o procurava o Dr. B., um sujeito enfadonho. Jac mandou dizer que no estava em casa.
--No pega, bradou uma voz do corredor; c estou de dentro.
E, com efeito, era o Dr. B., que apareceu logo  porta da sala.
Jac foi receb-lo, afirmando que cuidava ser outra pessoa, e no ; ele, e acrescentando que
tinha muito prazer com a visita, o que nos. rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto
mesmo, porque Jac tirou o relgio; o Dr. B. perguntou-lhe ento se ia sair.
-- Com minha mulher, disse Jac.
Retirou-se o Dr. B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao Jac que ele acabava de
mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a primeira, negando-se, a segunda,
alegrando-se com a presena do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta,
acrescentando que com a mulher. Jac refletiu um instante, depois confessou a justeza da
minha observao, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompatvel
com um estado social adiantado, e que a paz das cidades s se podia obter  custa de embaa
delas recprocas. .. Ah! lembra-me agora: chamava-se Jac Tavares.
CAPTULO LXXXVIII / O ENFERMO
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NO  PRECISO dizer que refutei to perniciosa doutrina, com os mais elementares
argumentos; mas ele estava to vexado do meu reparo, que resistiu at o fim, mostrando
certo calor fictcio, talvez para atordoar a conscincia.
O caso de Virglia tinha alguma gravidade mais. Ela era menos escrupulosa que o marido:
manifestava claramente as esperanas que trazia no legado, cumulava o parente de todas as
cortesias, atenes e afagos que poderiam render, pelo menos, um codicilo. Propriamente,
adulava-o- mas eu observei que a adulao das mulheres no  a mesma cousa que a dos
homens. Esta ora pela servilidade; a outra confunde-se com a afeio. As formas
graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza fsica do  ao lisonjeira da
mulher, uma cor local, um aspecto legtimo. No importa a idade do adulado; a mulher h de
ter sempre para ele uns ares de me ou de irm,-- ou ainda de enfermeira, outro ofcio
feminil, em que o mais hbil dos homens carecer sempre de um quid, um fluido, alguma
cousa.
Era o que eu pensava comigo, quando Virglia se desfazia toda em afagos ao velho parente.
Ela ia recebe-lo  porta, falando e rindo, tirava-lhe o chapu e a bengala, dava-lhe o brao e
levava-o a uma cadeira, ou  cadeira, porque havia l em casa a "cadeira do Viegas", obra
especial, conchegada a feita para gente enferma ou anci. Ia fechar a janela prxima, se
havia alguma brisa, ou abri-la, se estava calor, mas com cuidado, combinando de modo que
lhe no desse um golpe de ar.
-- Ento? Hoje est mais fortezinho. . .
--Qual! Passei mal a noite; o diabo da asma no me deixa.
E bufava o homem? repousando a pouco e pouco do cansao da entrada e da subida, no do
caminho, porque ia sempre de sege Ao lado, um pouco mais para a frente, sentava-se
Virglia, numa banquinha, com as mos nos joelhos do enfermo. Entretanto, o nhonh
chegava  sala, sem os pulos do costume, mas discreto, meigo, srio. Viegas gostava muito
dele.
--Vem c, nhonhs dizia-lhe; e a custo introduzia a mo na ampla algibeira, tirava uma
caixinha de pastilhas, metia uma na boca e dava outra ao pequeno. Pastilhas antiasmticas.
O pequeno dizia que eram muito boas.
Repetia-se isto, com variantes. Como o Viegas gostasse de jogar damas, Virglia
cumpria-lhe o desejo, aturando-o por largo tempo, a mover as pedras com a mo frouxa e
tarda. Outras vezes, desciam a passear na chcara, dando-lhe ela o brao, que ele nem
sempre aceitava, por dizer-se rijo e capaz de andar uma lgua. Iam, sentavam-se tornavam a
ir, a falar de cousas vrias, ora de um negcio de famlia ora de uma bisbilhotice de sala, ora
enfim de uma casa que ele meditava construir, para residncia prpria, casa de feitio
moderno, porque a dele era das antigas, contempornea de el-rei D. Joo VI,  maneira de
algumas que ainda hoje (creio eu) se podem ver no bairro de S. Cristvo, com as suas
grossas colunas na frente. Parecia-lhe que o casaro em que morava podia ser substitudo, e
j tinha encomendado o risco a um pedreiro de fama. Ah! ento sim, ento  que Virglia
chegaria a ver o que era um velho de gosto.
Falava, como se pode supor, lentamente e a custo, intervalado de uma arfagem incmoda
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para ele e para os outros. De quando em quando, vinha um acesso de tosse; curvo, gemendo,
levava o leno  boca, e investigava-o; passado o acesso, tornava ao plano da casa, que
devia ter tais e tais quartos, um terrao, cachoeira, um primor.
CAPTULO LXXXXIX / IN EXTREMIS
--AMANH VOU passar o dia em casa do Viegas, disse-me ela uma vez. Coitado! no tem
ningum. . .
Viegas cara na cama, definitivamente; a filha, casada adoecera Justamente agora, e no
podia fazer-lhe companhia. Virglia ia l de quando em quando. Eu aproveitei a
circunstncia para passar todo aquele dia ao p dela. Eram duas horas da tarde quando
cheguei. Viegas tossia com tal fora que me fazia arder o peito; no intervalo dos acessos
debatia o preo de uma casa, com um sujeito magro. O sujeito oferecia trinta contos. Viegas
exigia quarenta. O comprador instava como quem receia perder o trem da estrada de ferro
mas Viegas no cedia; recusou primeiramente os trinta contos, depois mais dous, depois
mais trs, enfim teve um forte acesso, que lhe tolheu a fala durante quinze minutos. O
comprador acarinhou-o multo, arranjou-lhe os travesseiros, ofereceu-lhe trinta e seis contos.
--Nunca! gemeu o enfermo.
Mandou buscar um mao de papis  escrivaninha, no tendo foras para tirar a fita de
borracha que prendia os papis, pediu-me que os deslaasse: fi-lo. Eram as contas das
despesas com a construo da casa: contas de pedreiro, de carpinteiro, de pintor; contas do
papel da sala de visitas, da sala de jantar, das alcovas, dos gabinetes; contas das ferragens;
custo do terreno. Ele abria-as, uma por uma, com a mo tremula, e pedia-me que as lesse, e
eu lia-as.
--Veja; mil e duzentos, papel de mil e duzentos a pea. Dobradias francesas. . . Veja,  de
graa, concluiu ele depois de lida a ltima conta.
-- Pois bem... mas...
-- Quarenta contos; no lhe dou por menos. S os juros... faa a conta dos juros...
Vinham tossidas estas palavras, s golfadas, s slabas, como se fossem migalhas de um
pulmo desfeito. Nas rbitas fundas rolavam os olhos lampejantes, que me faziam lembrar a
lamparina da madrugada. Sob o lenol desenhava-se a estrutura ssea do corpo, pontudo em
dous lugares, nos joelhos e nos ps; a pele amarelada, bamba rugosa, revestia apenas a
caveira de um rosto sem expresso: uma carapua de algodo branco cobria-lhe o crnio
rapado pelo tempo
--Ento? disse o sujeito magro.
Fiz-lhe sinal para que no insistisse, e ele calou-se por alguns instantes. O doente ficou a
olhar para o tecto, calado, a arfar muito; Virglia empalideceu, levantou-se, foi at  janela.
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Suspeitara a morte e tinha medo. Eu procurei falar de outras cousas. O sujeito magro contou
uma anedota, e tornou a tratar da casa, alteando a proposta.
--Trinta e oito contos, disse ele.
--Ahn?... gemeu o enfermo.
O sujeito magro aproximou-se da cama, pegou-lhe na mo, e sentiu-a fria. Eu acheguei-me
ao doente, perguntei-lhe se sentia alguma cousa, se queria tomar um clice de vinho.
--No... no... quar... quaren... quar... quar...
Teve um acesso de tosse, e foi o ltimo; da a pouco expirava ele com grande consternao
do sujeito magro, que me confessou depois a disposio em que estava de oferecer os
quarenta contos; mas era tarde.
CAPITULO XC / O VELHO COLQUI0 DE ADO E CAIM
NADA. Nenhuma lembrana testamentria, uma pastilha que fosse I com que do todo em
todo no parecesse ingrato ou esquecido. Nada, Virglia travou raivosa esse malogro, e
disse-mo com certa cautela no pela cousa em si, seno porque entendia com o filho, de
quem sabia que eu no gostava muito, nem pouco. Insinuei-lhe que no devia pensar mais
em semelhante negocio. O melhor de tudo era esquecer o defunto, um lorpa, um cainho sem
nome, e tratar de cousas alegres; o nosso filho, por exemplo...
L me escapou a decifrao do mistrio, esse doce mistrio de algumas semanas antes,
quando Virglia me pareceu um pouco diferente do que era. Um filho! Um ser tirado do meu
ser! Esta era a minha preocupao exclusiva daquele tempo: Olhos do mundo, zelos do
marido, morte do Viegas, nada me interessava por ento, nem conflitos polticos, nem
revolues, nem terremotos, nem nada. Eu s pensava naquele embrio annimo, de obscura
paternidade, e uma voz secreta me dizia:  teu filho. Meu filho! E repetia estas duas
palavras, com certa voluptuosidade indefinvel, e no sei que assomos de orgulho. Sentia-me
homem.
O melhor  que conversvamos os dous, o embrio e eu, falamos de cousas presentes e
futuras. O maroto amava-me, era um pelintra gracioso, dava-me pancadinhas na cara com as
mozinhas gordas, ou ento traava a beca de bacharel, porque ele havia de ser bacharel e
fazia um discurso na Cmara dos Deputados. E o pai a ouvi-lo de uma tribuna, com os olhos
rasos de lgrimas. De bacharel passava outra vez  escola, pequenino, lousa e livros debaixo
do brao, ou ento caa no bero para tornar a erguer-se homem. Em vo buscava fixar no
esprito uma idade, uma atitude: esse embrio tinha a meus olhos todos os tamanhos e
gestos: ele mamava, ele escrevia, ele valsava, ele era o interminvel nos limites de um
quarto de hora, -- baby e deputado, colegial e pintalegrete. s vezes, ao p de Virglia,
esquecia-me dela e de tudo; Virglia sacudia-me, reprochava-me o silncio; dizia que eu j
lhe no queria nada. A verdade  que estava em dilogo com o embrio; era o velho
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colquio de Ado e Caim, uma conversa sem palavras entre a vida e a vida, o mistrio e o
mistrio.
CAPTULO XCI / UMA CARTA EXTRAORDINRIA
POR ESSE TEMPO recebi uma carta extraordinria, acompanhada de um objeto no menos
extraordinrio. Eis o que a carta dizia:
Meu caro Brs Cubas,
H tempos, no Passeio Pblico, tomei-lhe de emprstimo um relgio. Tenho a satisfao de
restituir-lho com esta carta. A diferena  que no  o mesmos porm outro, no digo
superior, mas igual ao primeiro. Que voulez-vous monseigneur?-- como dizia Fgaro, -- c'est
la misre. Muitas cousas se deram depois do nosso encontro; irei cort-las pelo mido, se
me no fechar a porta. Saiba que j no trago aquelas botas caducas, nem envergo uma
famosa sobrecasaca cujas abas se perdiam na noite dos tempos. Cedi o meu degrau da
escada de S. Francisco; finalmente, almoo.
Dito isto, peo licena para ir um dia destes expor-lhe um trabalho, fruto de longo estudo,
um novo sistema de filosofia, que no s explica e descreve a origem e a consumao das
cousas, como faz dar um grande passo adiante de Zenon e Sneca, cujo estoicismo era um
verdadeiro brinco de crianas ao p da minha receita moral. E singularmente espantoso esse
meu sistema; retifica o esprito humano, suprime a dor, assegura a felicidade, e enche de
imensa glria o nosso pas. Chamo-lhe Humanitismo, de Humanitas, princpio das cousas.
Minha primeira idia revelava uma grande enfatuao; era chamar-lhe borbismo, de Borba;
denominao vaidosa, alm de rude e molesta. E com certeza exprimia menos. Ver, meu
caro Brs Cubas, ver que  deveras um monumento; e se alguma cousa h que possa
fazer-me esquecer as amarguras da vida,  o gosto de haver enfim apanhado a verdade e a
felicidade. Ei-las na minha mo essas duas esquivas; aps tantos sculos de lutas, pesquisas,
descobertas, sistemas e quedas, ei-las nas mos do homem. At breve, meu caro Brs Cubas.
Saudades do
Velho amigo
JOAQUIM BORBA DOS SANTOS.
Li esta carta sem entend-la. Vinha com ela uma boceta contendo um bonito relgio com as
minhas iniciais gravadas, e esta frase: Lembrana do velho Quincas. Voltei  carta, reli-a
com pausa, com ateno. A restituio do relgio exclua toda a idia de burla; a lucidez, a
serenidade, a convico, um pouco jactanciosa,  certo, -- pareciam excluir a suspeita de
insensatez. Naturalmente o Quincas Borba herdara de algum dos seus parentes de Minas, e a
abastana devolvera-lhe a primitiva dignidade. No digo tanto; h cousas que se no podem
reaver integralmente; mas enfim a regenerao no era impossvel. Guardei a carta e o
relgio, e esperei a filosofia.
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CAPTULO XCII / UM HOMEM EXTRAORDINRIO
J AGORA ACABO com as cousas extraordinrias. Vinha de guardar a carta e o relgio,
quando me procurou um homem magro e meo, com um bilhete do Cotrim, convidando-me
para jantar. O portador era casado com uma irm do Cotrim, chegara poucos dias antes do
Norte, chamava-se Damasceno, e fizera a revoluo de 1831. Foi ele mesmo que me disse
isto, no espao de cinco minutos. Sara de Rio de Janeiro, por desacordo com o Regente, que
era um asno, pouco menos asno do que os ministros que serviram com ele. De resto, a
revoluo estava outra vez s portas. Neste ponto, conquanto trouxesse as idias polticas
um pouco baralhadas, consegui organizar e formular o governo de suas preferncias: era um
despotismo temperado, no por cantigas, como dizem alhures,--mas por penachos da guarda
nacional. S no pude alcanar se ele queria o despotismo de um, de trs. de trinta ou de
trezentos. Opinava por vrias cousas, entre outras, o desenvolvimento do trfico dos
africanos e a expulso dos ingleses. Gostava muito de teatro; logo que chegou foi ao Teatro
de S. Pedro, onde viu um drama soberto, a Maria Joana, e uma comdia muito interessante,
Kettly, ou a Volta  Sua. Tambm gostara muito da Deperini, na Safo, ou na Ana Bolena,
no se lembrava bem. Mas a Candiani! sim, senhor, era papa-fina. Agora queria ouvir o
Ernani, que a filha dele cantava em casa, ao piano: Ernani, Ernani, involami... E dizia isto
levantando-se e cantarolando a meia voz.--No Norte essas cousas chegavam como um eco.
A filha morria por ouvir todas as peras. Tinha uma voz muito mimosa a filha. E gosto,
muito gosto. Ah! ele estava ansioso por voltar ao Rio de Janeiro. J havia corrido a cidade
toda, com umas saudades. . . Palavra! em alguns lugares teve vontade de chorar. Mas no
embarcaria mais. Enjoara muito a bordo, como todos os outros passageiros, exceto um
ingls. . . Que os levasse o diabo os ingleses! Isto no ficava direito sem irem todos eles
barra afora. Que  que a Inglaterra podia fazer-nos? Se ele encontrasse algumas pessoas de
boa vontade, era obra de uma noite a expulso de tais godemes... Graas a Deus, tinha
patriotismo, -- e batia no peito,-- o que no admirava porque era de famlia, descendia de um
antigo capito mor muito patriota. Sim, no era nenhum p-rapado. Viesse a ocasio, e ele
havia de mostrar de que pau era a canoa. . . Mas fazia-se tarde, ia dizer que eu no faltaria
ao jantar, e l me esperava para maior palestra. Levei-o at  porta da sala; ele parou
dizendo que simpatizava muito comigo. Quando casara, estava eu na Europa. Conheceu meu
pai, um homem s direitas, com quem danara num clebre baile da Praia Grande... Coisas!
coisas! Falaria depois, fazia-se tarde, tinha de ir levar a resposta ao Cotrim. Saiu; fechei-lhe
a porta...
CAPTULO XCIII / O JANTAR
QUE SUPLCIO que foi o jantar! Felizmente, Sabina fez-me sentar ao p da filha do
Damasceno, uma D. Eullia, ou mais familiarmente Nh-lol, moa graciosa, um tanto
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acanhada a princpio, mas s a princpio. Faltava-lhe elegncia, mas compensava-a com os
olhos, que eram soberbos e s tinham o defeito de se no arrancarem de mim, exceto quando
desciam ao prato; mas Nh-lol comia to pouco, que quase no olhava para o prato. De
noite cantou; a voz era como dizia o pai, "muito mimosa". No obstante, esquivei-me.
Sabina veio at  porta, e perguntou-me que tal achara a filha do Damasceno.
-- Assim, assim.
--Muito simptica, no ? acudiu ela; falta-lhe um pouco mais de corte. Mas que corao! 
uma prola. Bem boa noiva para voc.
--No gosto de prolas.
--Casmurro! Para quando  que voc se guarda? para quando estiver a cair de maduro, j sei.
Pois, meu rico, quer voc queira quer no, h de casar com Nh-lol.
E dizia isto a bater-me na face com os dedos, meiga como uma pomba, e ao mesmo tempo
intimativa e resoluta. Santo Deus! seria esse o motivo da reconciliao? Fiquei um pouco
desconsolado com a idia, mas uma voz misteriosa chamava-me  casa do Lobo Neves;
disse adeus a Sabina e s suas ameaas.
CAPTULO XCIV / A CAUSA SECRETA
--COMO EST a minha querida mame? A esta palavra, Virglia amuou-se, como sempre.
Estava ao canto de uma janela, sozinha, a olhar para a lua, e recebeu-me alegremente; mas
quando lhe falei no nosso filho amuou-se. No gostava de semelhante aluso,
aborreciam-lhe as minhas antecipadas carcias paternais. Eu, para quem ela era j uma
pessoa sagrada, uma mbula divina, deixava-a estar quieta. Supus a princpio que o embrio,
esse perfil do incgnito, projetando-se na nossa aventura, lhe restitura a conscincia do mal.
Enganava-me. Nunca Virglia me parecera mais expansiva, mais sem reservas, menos
preocupada dos outros e do marido. No eram remorsos. Imaginei tambm que a concepo
seria um puro invento, um modo de prender-me a ela, recurso sem longa eficcia, que talvez
comeava de oprimi-la. No era absurda esta hiptese a minha doce Virglia mentia s
vezes, com tanta graa!
Naquela noite descobri a causa verdadeira. Era medo do parto e vexame da gravidez.
Padecera muito quando lhe nasceu o primeiro filho; e essa hora, feita de minutos de vida e
minutos de morte, dava-lhe j imaginariamente os calafrios do patbulo. Quanto ao vexame,
complicava-se ainda da forada privao de certos hbitos da vida elegante. Com certeza,
era isso mesmo; dei-lho a entender, repreendendo-a, um pouco em nome dos meus direitos
de pai. Virglia fitou-me; em seguida desviou os olhos e sorriu de um jeito incrdulo.
CAPTULO XCV / FLORES DE ANTANHO
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ONDE ESTO ELAS, as flores de antanho? Uma tarde, aps algumas semanas de gestao,
esborou-se todo o edifcio das minhas quimeras paternais. Foi-se o embrio, naquele ponto
em que se no distingue Laplace de uma tartaruga. Tive a notcia por boca do Lobo Neves,
que me deixou na sala e acompanhou o mdico  alcova da frustrada me. Eu encostei-me 
janela, a olhar para a chcara onde verdejavam as laranjeiras sem flores. Onde iam elas as
flores de antanho?
CAPTULO XCVI / A CARTA ANNIMA
SENTI TOCAR-ME no ombro; era Lobo Neves. Encaramo-nos alguns instantes, mudos,
inconsolveis. Indaguei de Virglia, depois ficamos a conversar uma meia hora. No fim
desse tempo, vieram trazer-lhe uma carta; ele leu-a, empalideceu muito, e fechou-a com a
mo trmula. Creio que lhe vi fazer um gesto, como se quisesse atirar-se sobre mm; mas no
me lembra bem. O que me lembra claramente  que durante os dias seguintes recebeu-me
frio e taciturno. Enfim, Virglia contou-me tudo, da a dias na Gamboa.
O marido mostrou-lhe a carta, logo que ela se restabeleceu. Era annima e denunciava-nos.
No dizia tudo; no falava, por exemplo, das nossas entrevistas externas; limitava-se a
precav-lo contra a minha intimidade, e acrescentava que a suspeita era pblica. Virglia leu
a carta e disse com indignao que era uma calnia infame.
-- Calnia? perguntou Lobo Neves.
--Infame.
O marido respirou; mas, tornando  carta, parece que cada palavra dela lhe fazia com o dedo
um sinal negativo, cada letra bradava contra a indignao da mulher. Esse homem, alis
intrpido, era agora a mais frgil das criaturas. Talvez a imaginao lhe mostrou! ao longe, o
famoso olho da opinio, a fit-lo sarcasticamente, com um ar de pulha; talvez uma boca
invisvel lhe repetiu ao ouvido chufas que ele escutara ou dissera outrora. Instou com a
mulher que lhe confessasse tudo, porque tudo lhe perdoaria. Virglia compreendeu que
estava salva mostrou-se irritada com a insistncia, jurou que da minha parte s ouvira
palavras de gracejo e cortesia. A carta havia de ser de algum namorado sem-ventura. E citou
alguns, -- um que a galanteara francamente, durante trs semanas, outro que lhe escrevera
uma carta, e ainda outros e outros. Citava-os pelo nome, com circunstncias, estudando os
olhos do marido, e concluiu dizendo que, para no dar margem  calnia, tratar-me-ia de
maneira que eu no voltaria l.
Ouvi tudo isto um pouco turbado, no pelo acrscimo de dissimulao que era preciso
empregar de ora em diante, at afastar-me inteiramente da casa do Lobo Neves, mas pela
tranqilidade moral de Virglia, pela falta de comoo, de susto, de saudades, e at de
remorsos. Virglia notou a minha preocupao, levantou-me a cabea, porque eu olhava
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ento para o soalho, e disse-me com certa amargura:
--Voc no merece os sacrifcios que lhe fao.
No lhe disse nada; era ocioso ponderar-lhe que um pouco de desespero e terror daria 
nossa situao o sabor custico dos primeiros dias; mas se lho dissesse, no  impossvel
que ela chegasse lenta e artificiosamente at esse pouco de desespero e terror. No lhe disse
nada. Ela batia, nervosamente com a ponta do p no cho; aproximei-me e beijei-a na testa.
Virglia recuou, como se fosse um beijo de defunto.
CAPTULO XCVII / ENTRE A BOCA E A TESTA
SINTO QUE o LEITOR estremeceu, -- ou devia estremecer. Naturalmente a ltima palavra
sugeriu-lhe trs ou quatro reflexes. Veja bem o quadro: numa casinha da Gamboa, duas
pessoas que se amam h muito tempo, uma inclinada para a outra, a dar-lhe um beijo na
testa, e a outra a recuar, como se sentisse o contacto de uma boca de cadver. H a, no
breve intervalo, entre a boca e a testa antes do beijo e depois do beijo, h a largo espao
para muita cousa a contrao de um ressentimento,-- a ruga da desconfiana,--- ou enfim o
nariz plido e sonolento da saciedade...
CAPTULO XCVIII / SUPRIMIDO
SEPARAMO-NOS alegremente. Jantei reconciliado com a situao. A carta annima
restitua  nossa aventura o sal do mistrio e a pimenta do perigo; e afinal foi bem bom que
Virglia no perdesse naquela crise a posse de si mesma. De noite fui ao Teatro de S. Pedro;
representava-se uma grande pea, em que a Estela arrancava lgrimas. Entro; corro os olhos
pelos camarotes; vejo em um deles Damasceno e a famlia. Trajava a filha com outra
elegncia e certo apuro, cousa difcil de explicar, porque o pai ganhava apenas o necessrio
para endividar-se; e da, talvez fosse por isso mesmo.
No intervalo fui visit-los. Damasceno recebeu-me com muitas palavras, a mulher com
muitos sorrisos. Quanto a Nh-lol, no tirou mais os olhos de mim. Parecia-me agora mais
bonita que no dia do jantar. Achei-lhe certa suavidade etrea casada ao polido das formas
terrenas: expresso vaga, e condigna de um captulo em que tudo h de ser vago. Realmente,
no sei como lhes diga que no me senti mal, ao p da moa, trajando garridamente um
vestido fino, um vestido que me dava ccegas de Tartufo. Ao contempl-lo, cobrindo casta e
redondamente o joelho, foi que eu fiz uma descoberta subtil, a saber, que a natureza previu a
vestidura humana, condio necessria ao desenvolvimento da nossa espcie. A nudez
habitua, dada a multiplicao das obras e dos cuidados do indivduo, tenderia a embotar os
sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vesturio, negaceando a natureza, agua e atrai
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as vontades, ativa-as, reprodu-las, e conseguintemente faz andar a civilizao. Abenoado
uso que nos deu Otelo e os paquetes transatlnticos!
Estou com vontade de suprimir este captulo. O declive  perigoso. Mas enfim eu escrevo as
minhas memrias e no as tuas, leitor pacato. Ao p da graciosa donzela, parecia-me tomado
de uma sensao dupla e indefinvel. Ela exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, l'ange
et la bte, com a diferena que o jansenista no admitia a simultaneidade das duas naturezas,
ao passo que elas a estavam bem juntinhas, -- l'ange, que dizia algumas cousas do cu,--e la
bte, que... No; decididamente suprimo este captulo.
CAPITULO XCIX / NA PLATIA
NA PLATIA achei Lobo Neves, de conversa com alguns amigos, falamos por alto, a frio,
constrangidos um e outro. Mas no intervalo seguinte, prestes a levantar o pano,
encontramo-nos num dos corredores, em que no havia ningum. Ele veio a mim, com
muita afabilidade e riso, puxou-me a um dos culos do teatro, e falamos muito,
principalmente ele, que parecia o mais tranqilo dos homens. Cheguei a perguntar-lhe pela
mulher; respondeu que estava boa, mas torceu logo a conversao para assuntos gerais,
expansivo, quase risonho. Adivinhe quem quiser a causa da diferena eu fujo ao Damasceno
que me espreita ali da porta do camarote.
No ouvi nada do seguinte ato, nem as palavras dos atores, nem as palmas do pblico.
Reclinado na cadeira, apanhava de memria os retalhos da conversao do Lobo Neves,
refazia as maneiras dele e conclua que era muito melhor a nova situao. Bastava-nos a
Gamboa. A freqncia da outra casa aguaria as invejas. Rigorosamente podamos
dispensar-nos de falar todos os dias; at era melhor metia a saudade de permeio nos amores.
Ao demais, eu galgara os quarenta anos, e no era nada, nem simples eleitor de parquia.
Urgia fazer alguma cousa, ainda por amor de Virglia, que havia de ufanar-se quando visse
luzir o meu nome. . . Creio que nessa ocasio houve grandes aplausos, mas no juro; eu
pensava em outra cousa.
Multido cujo amor cobicei at  morte, era assim que eu me vingava s vezes de ti; deixava
burburinhar em volta do meu corpo a gente humana, sem a ouvir, como o Prometeu de
Esquilo fazia aos seus verdugos. Ah! tu cuidavas encadear-me ao rochedo da tua frivolidade,
da tua indiferena, ou da tua agitao? Frgeis cadeias, amiga minha; eu rompia-as de um
gesto de Gulliver. Vulgar cousa  ir considerar no ermo. O voluptuoso, o esquisito, 
insular-se o homem no meio de um mar de gestos e palavras, de nervos e paixes,
decretar-se alheado, inacessveI, ausente. O mais que podem dizer quando ele torna a
si,--isto , quando torna aos outros,  que baixa do mundo da lua; mas o mundo da lua, esse
desvo luminoso e recatado do crebro, que outra cousa  seno a afirmao desdenhosa da
nossa liberdade espiritua1? Vive Deus! Eis um bom fecho de captulo.
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CAPTULO C / O CASO PROVVEL
SE ESSE MUNDO no fosse uma regio de espritos desatentos, era escusado lembrar ao
leitor que eu s afirmo certas leis, quando as possuo deveras; em relao a outras
restrinjo-me  admisso da probabilidade. Um exemplo da segunda classe constitui o
presente captulo, cuja leitura recomendo a todas as pessoas que amam o estudo dos
fenmenos sociais. Segundo parece, e no  improvvel, existe entre os fatos da vida pblica
e os da vida particular uma certa ao reciproca, regular, e talvez peridica, -- ou para usar
de uma imagem, h alguma cousa semelhante s mars da Praia do Flamengo e de outras
igualmente marulhosas. Com efeito, quando a onda investe a praia, alaga-a muitos palmos a
dentro; mas essa mesma gua torna ao mar, com varivel fora, e vai engrossar a onda que
h de vir, e que ter de tornar como a primeira. Esta  a imagem; vejamos a aplicao.
Deixei dito noutra pgina que o Lobo Neves, nomeado presidente de provncia, recusou a
nomeao por motivo da data do decreto que era 13; ato grave, cuja conseqncia foi
separar do ministrio o marido de Virglia. Assim, o fato particular da ojeriza de um nmero
produziu o fenmeno da dissidncia poltica. Resta ver como, tempos depois, um ato
poltico determinou na vida particular uma cessao de movimento. No convindo ao
mtodo deste livro descrever imediatamente esse outro fenmeno, limito-me a dizer por ora
que o Lobo Neves, quatro meses depois de nosso encontro no teatro reconciliou-se confuso
ministrio; fato que o leitor no deve perder de vista, se quiser penetrar a subtileza do meu
pensamento.
CAPTULO CI / A REVOLUAO DLMATA
FOI VIRGLLA quem me deu notcia da viravolta poltica do marido, certa manh de
outubro, entre onze e meio-dia; falou-me de reunies, de conversas, de um discurso...
-- De maneira, que desta vez fica voc baronesa, interrompi eu. Ela derreou os cantos da
boca, e moveu a cabea a um e outro lado; mas esse gesto de indiferena era desmentido por
alguma cousa menos definvel, menos clara, uma expresso de gosto e de esperana. No sei
porque, imaginei que a carta imperial da nomeao podia atra-la  virtude, no digo pela
virtude em si mesma, mas por gratido ao marido. Que ela amava cordialmente a nobreza.
Um dos maiores desgostos de nossa vida foi o aparecimento de certo pelintra de
legao,--da legao da Dalmcia, suponhamos, --, o conde B. V., que a namorou durante
trs meses. Esse homem, vero fidalgo de raa, transtornara um pouco a cabea de Virglia,
que, alm do mais, possua a vocao diplomtica. No chego a alcanar o que seria de
mim, se no rebentasse na Dalmcia uma revoluo, que derrocou o governo e purificou as
embaixadas. Foi sangrenta a revoluo, dolorosa, formidvel; os jornais, a cada navio que
chegava da Europa, transcreviam os horrores, mediam o sangue, contavam as cabeas; toda
a gente fremia de indignao e piedade. . . Eu no, eu abenoava interiormente essa tragdia,
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que me tirara uma pedrinha do sapato. E depois a Dalmcia era to longe!
CAPTULO CII / DE REPOUSO
MAS ESTE MESMO homem, que se alegrou com a partida do outro, praticou da a
tempos... No, no hei de cont-lo nesta pgina; fique esse captulo para repouso do meu
vexame: Uma ao grosseira, baixa, sem explicao possvel. . . Repito, no contarei o caso
nesta pgina.
CAPTULO CIII / DISTRAO
NO, SENHOR DOUTOR, isto no se faz. Perdoe-me, isto no se faz.
Tinha razo D. Plcida. Nenhum cavalheiro chega uma hora mais tarde ao lugar em que o
espera a sua dama. Entrei esbaforido; Virglia tinha ido embora. D. Plcida contou-me que
ela esperara muito, que se irritara, que chorara, que jurara votar-me ao desprezo, e outras
mais cousas que a nossa caseira dizia com lgrimas na voz, pedindo-me que no
desamparasse Iai, que era ser muito injusto com uma moa que me sacrificara tudo.
Expliquei-lhe ento que um equvoco... E no era, cuido que foi simples distrao. Um dito,
uma conversa, uma anedota, qualquer cousa; simples distrao.
Coitada de D. Plcida! Estava aflita deveras. Andava de um lado para outro, abanando a
cabea, suspirando com estrpito, espiando pela rtula. Coitada de D. Plcida! Com que arte
conchegava as roupas, bafejava as faces, acalentava as manhas do nosso amor! que
imaginao frtil em tornar as horas mais aprazveis e breves! Flores, doces, -- os bons
doces de outros dias, -- e muito riso, muito afago, riso e afago que cresciam com o tempo,
como se ela quisesse fixar a nossa aventura, ou restituir-lhe a primeira flor. Nada esquecia a
nossa confidente e caseira; nada, nem a mentira, porque a um e outro referia suspiros e
saudades que no presenciara; nada, nem a calnia, porque uma vez chegou a atribuir-me
uma paixo nova.--Voc sabe que no posso gostar de outra mulher, foi a minha resposta,
quando Virglia me falou em semelhante cousa. sem nenhum protesto ou admoestao,
dissipou o aleive de d. Plcida, que ficou triste.
--Est bem, disse-lhe eu depois de um quarto de hora; Virglia h de reconhecer que no tive
culpa nenhuma. . . Quer voc levar-lhe uma carta agora mesmo?
-- Ela h de estar bem triste, coitadinha! Olhe, eu no desejo a morte de ningum; mas, se o
senhor doutor algum dia chegar a casar com Iai, ento sim,  que h de ver o anjo que ela
!
Lembra-me que desviei o rosto e baixei os olhos ao cho. Recomendo este gesto s pessoas
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que no tiverem uma palavra pronta para responder, ou ainda s que recearem encarar a
pupila de outros olhos. Em tais casos, alguns preferem recitar uma oitava dos Lusadas,
outros adotam o recurso de assobiar a Norma; eu atenho-me ao gesto indicado;  mais
simples, exige menos esforo.
Trs dias depois, estava tudo explicado. Suponho que Virglia ficou um pouco admirada,
quando lhe pedi desculpas das lgrimas que derramara naquela triste ocasio. Nem me
lembra se interiormente as atribu a D. Plcida. Com efeito, podia acontecer que D. Plcida
chorasse, ao v-la desapontada, e, por um fenmeno da viso, as lgrimas que tinha nos
prprios olhos lhe parecessem cair dos olhos de Virglia. Fosse como fosse, tudo estava
explicado, mas no perdoado, e menos ainda esquecido. Virglia dizia-me uma poro de
cousas duras, ameaava-me com a separao, enfim louvava o marido. Esse sim, era um
homem digno, muito superior a mim, delicado, um primor de cortesia e afeio;  o que ela
dizia, enquanto eu, sentado, com os braos fincados nos joelhos, olhava para o cho, onde
uma mosca arrastava uma formiga que lhe mordia o p. Pobre mosca! pobre formiga!
Mas voc no diz nada, nada? perguntou Virglia, parando diante de mim.
Que hei de dizer? J expliquei tudo; voc teima em zangar-se; que hei de dizer? Sabe que
me parece? Parece-me que voc est enfastiada, que se aborrece, que quer acabar...
-- Justamente!
Foi dali pr o chapu, com a mo trmula, raivosa. . . -- Adeus, D. Plcida; bradou ela para
dentro. Depois foi at  porta, correu o fecho, ia sair; agarrei-a pela cintura. -- Est bom, est
bom, disse-lhe. Virglia ainda forcejou por sair. Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que
esquecesse; ela afastou-se da porta e foi cair no canap. Sentei-me ao p dela, disse-lhe
muitas cousas meigas, outras humildes, outras graciosas. No afirmo se os nossos lbios
chegaram  distancia de um fio de cambraia ou ainda menos;  matria controversa.
Lembra-me, sim, que na agitao caiu um brinco de Virglia, que eu inclinei-me a
apanh-lo, e que a mosca de h pouco trepou ao brinco, levando sempre a formiga no p.
Ento eu, com a delicadeza nativa de um homem do nosso sculo, pus na palma da mo
aquele casal de mortificados; calculei toda a distncia que ia da minha mo ao planeta
Saturno, e perguntei a mim mesmo que interesse podia haver num episdio to mofino. Se
concluis da que eu era um brbaro, enganas-te, porque eu pedi um grampo a Virglia, a fim
de separar os dous insetos; mas a mosca farejou a minha inteno, abriu as asas e foi-se
embora. Pobre mosca! pobre formiga! E Deus viu que isto era bom, como se diz na
Escritura.
CAPTULO CIV / ERA ELE
RESTITU o grampo a Virglia, que o repregou nos cabelos, e preparou-se para sair. Era
tarde; tinham dado trs horas. Tudo estava esquecido e perdoado. D. Plcida, que espreitava
a ocasio idnea para a sada, fecha subitamente a janela e exclama:
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--Virgem Nossa Senhora! a vem o marido de Iai!
O momento de terror foi curto, mas completo. Virglia fez-se da cor das rendas do vestido,
correu at a porta da alcova; D. Plcida, que fechara a rtula, queria fechar tambm a porta
de dentro; eu dispus-me a esperar o Lobo Neves. Esse curto instante passou. Virglia tornou
a si, empurrou-me para a alcova, disse a D. Plcida que voltasse  janela; a confidente
obedeceu.
Era ele. D. Plcida abriu-lhe a porta com muitas exclamaes de pasmo: O senhor por aqui!
honrando a casa de sua velha! Entre, faa favor. Adivinhe quem est c. . . No tem que
adivinhar, no veio por outra cousa.... Aparea, Iai.
Virglia, que estava a um canto, atirou-se ao marido. Eu espreitava-os pelo buraco da
fechadura. O Lobo Neves entrou lentamente, plido, frio, quieto, sem exploso, sem
arrebatamento, e circulou um olhar em volta da sala.
Que  isto? Exclamou Virglia. Voc por aqui?
Ia passando, vi D. Plcida  janela, e vim cumpriment-la.
Muito obrigada, acudiu esta. E digam que as velhas no valem alguma cousa... Olhai,
gentes! Iai parece estar com cimes. E acariciando-a muito: -- Este anjinho  que nunca se
esqueceu da velha Plcida. Coitadinha!  mesmo a cara da me... Sente-se, senhor doutor...
No me demoro.
Voc vai para casa? Disse Virglia. Vamos juntos.
Vou.
D c o meu chapu, D. Plcida.
Est aqui.
D. Plcida foi buscar um espelho, abriu-o diante dela. Virglia punha o chapu, atava as
fitas, arranjava os cabelos, falando ao marido, que no respondia nada. A nossa boa velha
tagarelava demais, era um modo de disfarar as tremuras do corpo. Virglia, dominado o
primeiro instante, tornara  posse de si mesma.
Pronta! Disse ela. Adeus, D. Plcida; no se esquea de aparecer, ouviu? A outra prometeu
que sim, e abriu-lhe a porta.
CAPTULO CV / EQUIVALNCIA DAS JANELAS
D. PLCIDA fechou a porta e caiu numa cadeira. Eu deixei imediatamente a alcova, e dei
dous passos para sair  rua, com o fim de arrancar Virglia ao marido; foi o que disse, e em
bem que o disse, porque D. Plcida deteve-me por um brao. Tempo houve em que cheguei
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a supor que no dissera aquilo seno para que ela me detivesse; mas a simples reflexo basta
para mostrar que, depois dos dez minutos da alcova, o gesto mais genuno e cordial no
podia ser seno esse. E isto por aquela famosa lei da equivalncia das janelas, que eu tive a
satisfao de descobrir e formular, no captulo LI. Era preciso arejar a conscincia. A alcova
foi uma janela fechada; eu abri outra com o gesto de sair, e respirei.
CAPTULO CVI / JOGO PERIGOSO
RESPIREI e sentei-me. D. Plcida atroava a sala com exclamaes e lstimas. Eu ouvia,
sem lhe dizer cousa nenhuma; refletia comigo se no era melhor Ter fechado Virglia na
alcova e ficado na sala; mas adverti logo que seria pior; confirmaria a suspeita, chegaria o
fogo  plvora, e uma cena de sangue... Foi muito melhor assim. Mas depois? Que ia
acontecer em casa de Virglia? Mat-la-ia o marido? Espanc-la-ia? Encerr-la-ia?
Expuls-la-ia? Estas interrogaes percorriam lentamente o meu crebro, como os pontinhos
e vrgulas escuras percorrem o campo visual dos olhos enfermos ou cansados. Iam e
vinham, com o seu aspecto seco e trgico, e eu no podia agarrar um deles e dizer: s tu, tu e
no outro.
De repente vejo um vulto negro; era D. Plcida, que fora dentro, enfiara a mantinha, e vinha
oferecer-se-me para ir  casa de Lobo Neves. Ponderei que era arriscado, porque ele
desconfiaria da visita to prxima.
Sossegue, interrompeu ela; eu saberei arranjar as cousas. Se ele estiver em casa no entro.
-- Saiu; eu fiquei a ruminar o sucesso e as conseqncias possveis. Ao cabo, parecia-me
jogar um jogo perigoso, e perguntava a mim mesmo se no era tempo de levantar e
espairecer. Sentia-me tomado de uma saudade do casamento, de um desejo de canalizar a
vida. Por que no? Meu corao tinha ainda que explorar; no me sentia incapaz de um
amor casto, severo e puro. Em verdade, as aventuras so a parte torrencial e vertiginosa da
vida, isto , a exceo; eu estava enfarado delas; no sei at se me pungia alfum remorso.
Mal pensei naquilo, deixei-me ir atrs da imaginao; vi-me logo casado, ao p de uma
mulher adorvel, diante de um baby, que dormia no regao da ama, todos ns no fundo de
uma chcara sombria e verde, a espiarmos atravs da chcara uma nesga do cu azul,
extremamente azul...
CAPTULO CVII / BILHETE
NO HOUVE NADA, mas ele suspeita alguma cousa; est muito srio e no fala; agora
saiu. Sorriu uma vez somente, para Nhonh, depois de o fitar muito tempo, carrancudo. No
me tratou mal nem bem. No sei o que vai acontecer; Deus queira que isto passe. Muita
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cautela, por ora, muita cautela.
CAPTULO CVIII / QUE SE NO ENTENDE
EIS A O DRAMA, eis a a ponta da orelha trgica de Shakespeare. Esse retalhinho de
papel, garatujado em partes, machucado das mos, era um documento de anlise, que eu no
farei neste captulo, nem no outro, nem talvez em todo o resto do livro. Poderia eu tirar ao
leitor o gosto de notar por si mesmo a frieza, a perspiccia e o nimo dessas poucas linhas
traadas  pressa; e por trs delas a tempestade de outro crebro, a raiva dissimulada, o
desespero que se constrange o medita, porque tem de resolver-se na lama ou no sangue, ou
nas lgrimas?
Quanto a mim, se vos disser que li o bilhete trs ou quatro vezes, naquele dia, acreditai-o,
que  verdade; se vos disser mais que o reli no dia seguinte, antes e depois do almoo,
podeis cr-lo,  a realidade pura. Mas se vos disser a comoo que tive, duvidai um pouco
da assero, e no a aceiteis sem provas. Nem ento, nem ainda agora cheguei a discernir o
que experimentei. Era medo, e no era medo; era d e no era d; era vaidade e no era
vaidade; enfim, era amor sem amor, isto , sem delrio; e tudo isso dava uma combinao
assaz complexa e vaga, uma cousa que No podereis entender, como eu no entendi.
Suponhamos que no disse nada.
CAPTULO CIX / O FILSOFO
SABIDO QUE RELI a carta, antes e depois do almoo, sabido fica que almocei, e s resta
dizer que essa refeio foi das mais parcas da minha vida: um ovo, uma fatia de po, uma
xcara de ch. No me esqueceu esta circunstncia mnima; no meio de tanta cousa
importante obliterada escapou esse almoo. A razo principal poderia se justamente o meu
desastre; mas no foi; a principal razo foi a reflexo que me fez o Quincas Borba, cuja
visita recebi naquele dia. Disse-me ele que a frugalidade no era necessria para entender o
Humanitismo, e menos ainda pratic-lo; que esta filosofia acomodava-se facilmente com os
prazeres da vida, inclusive a mesa, o espetculo e os amores; e que, ao contrrio, a
frugalidade podia indicar certa tendncia para o ascetismo, o que era a expresso acabada de
tolice humana.
--Veja S. Joo, continuou ele; mantinha-se de gafanhotos, no deserto, em vez de engordar
tranqilamente na cidade, e fazer emagrecer o farisasmo na sinagoga.
Deus me livre de contar a histria do Quincas Borba, que alis ouvi toda naquela triste
ocasio, uma histria longa, complicada mas interessante. E se no conto a histria,
dispenso-me outrossim de descrever-lhe a figura, alis mui diversa da que me apareceu no
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Passeio Pblico. Calo-me; digo somente que se a principal caracterstica do homem no so
as feies, mas os vesturios, ele no era o Quincas Borba; era um desembargador sem beca,
um general sem farda, um negociante sem deficit. Notei-lhe a perfeio da sobrecasaca, a
alvura da camisa, o asseio das botas. A mesma voz, roufenha outrora, parecia restituda 
primitiva sonoridade. Quanto  gesticulao, sem que houvesse perdido a viveza de outro
tempo, no tinha j a desordem, sujeitava-se a um certo mtodo. Mas eu no quero
descrev-lo Se falasse, por exemplo, no boto de ouro que trazia ao peito, e na qualidade do
couro das botas, iniciaria uma descrio, que omito por brevidade. Contentem-se de saber
que as botas eram de verniz. Saibam mais que ele herdara alguns pares de contos de ris de
um velho tio de Barbacena.
Meu esprito, (permitam-me aqui uma comparao de criana!) meu esprito era naquela
ocasio uma espcie de peteca. A narrao do Quincas Borba dava-lhe uma palmada, ele
subia- quando ia a cair, o bilhete de Virglia dava-lhe outra palmada, e ele era de novo
arremessado aos ares, descia, e o episdio do Passeio Pblico recebia-o com outra palmada,
igualmente rija e eficaz. Cuido que no nasci para situaes complexas. Esse puxar e
empuxar de cousas opostas desequilibrava-me; tinha vontade de embrulhar o Quincas Borba
e Lobo Neves e o bilhete de Virglia na mesma filosofia, e mand-los de presente a
Aristteles. Contudo, era instrutiva a narrao do nosso filsofo; admirava-lhe sobretudo o
talento de observao com que descrevia a gestao e o crescimento do vcio, as lutas
interiores, as capitulaes vagarosas, o uso da lama.
--Olhe, observou ele; a primeira noite que passei, na escada de S. Francisco, dormi-a inteira,
como se fosse a mais fina pluma. Por qu? Porque fui gradualmente da cama de esteira ao
catre de pau do quarto prprio ao corpo da guarda do corpo da guarda  rua...
Quis expor-me finalmente a filosofia; pedi-lhe que no.-- Estou muito preocupado hoje e
no poderia atend-lo; venha depois; estou sempre em casa. Quincas Borba sorriu de um
modo malicioso; talvez soubesse da minha aventura, mas no acrescentou nada. S me disse
estas ltimas palavras  porta:
--Venha para o Humanitismo; ele  o grande regao dos espritos, o mar eterno em que
mergulhei para arrancar de l a verdade. Os gregos faziam-na sair de um poo. Que
concepo mesquinha! Um poo! Mas  por isso mesmo que nunca atinaram com ela.
Gregos, subgregos, antigregos, toda a longa srie dos homens tem-se debruado sobre o
poo, para ver sair a verdade, que no est l. Gastaram cordas e caambas; alguns mais
afoutos desceram ao fundo e trouxeram um sapo. Eu fui diretamente ao mar. Venha para o
Humanitismo.
CAPTULO CX / 31
UMA SEMANA depois, Lobo Neves foi nomeado presidente de provncia. Agarrei-me 
esperana da recusa, se o decreto viesse outra vez datado de 13; trouxe, porm, a data de 31,
e esta simples transposio de algarismos eliminou deles a substncia diablica. Que
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profundas que so as molas da vida!
CAPTULO CXI / O MURO
NO SENDO meu costume dissimular ou esconder nada, contarei nesta pgina o caso do
muro. Eles estavam prestes a embarcar. Entrando em casa de D. Plcida, vi um papelinho
dobrado sobre a mesa; era um bilhete de Virglia; dizia que me esperava  noite, na chcara,
sem falta. E conclua: "O muro  baixo do lado do beco".
Fiz um gesto de desagrado. A carta pareceu-me descomunalmente audaciosa, mal pensada e
at ridcula. No era s convidar o escndalo, era convid-lo de parceria com a risota.
Imaginei-me a saltar o muro, embora baixo e do lado do beco; e, quando ia a galg-lo,
via-me agarrado por um pedestre de polcia, que me levava ao corpo da guarda. O muro 
baixo! E que tinha que fosse baixo? Naturalmente Virglia no soube o que fez; era possvel
que j estivesse arrependida. Olhei para o papel, um pedao de papel amarrotado, mas
inflexvel. Tive comiches de o rasgar, em trinta mil pedaos, e atir-los ao vento, como o
ltimo despojo da minha aventura; mas recuei a tempo; o amor-prprio, o vexame da fuga, a
idia do medo... No havia remdio seno ir.
--Diga-lhe que vou.
--Aonde? perguntou D. Plcida.
--Onde ela disse que me espera.
--No me disse nada.
--Neste papel.
D. Plcida arregalou os olhos:--Mas esse papel, achei-o hoje de manh, nesta sua gaveta, e
pensei que...
Tive uma sensao esquisita. Reli o papel, mirei-o, remirei-o; era, em verdade, um antigo
bilhete de Virglia, recebido no comeo dos nossos amores, uma certa entrevista na chcara,
que me levou efetivamente a saltar o muro, um muro baixo e discreto. Guardei o papel e...
Tive uma sensao esquisita.
CAPTULO CXII / A OPINIO
MAS ESTAVA ESCRITO que esse dia devia ser o dos lances dbios. Poucas horas depois,
encontrei Lobo Neves, na Rua do Ouvidor, falamos da presidncia e da poltica. Ele
aproveitou o primeiro conhecido que nos passou  ilharga, e deixou-me, depois de muitos
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cumprimentos. Lembra-me que estava retrado, mas de um retraimento que forcejava por
dissimular. Pareceu-me ento (e peo perdo  crtica, se este meu juzo for temerrio!)
pareceu-me que ele tinha medo--no medo de mim, nem de si, nem do cdigo, nem da
conscincia; tinha medo da opinio. Supus que esse tribunal annimo e invisvel, em que
cada membro acusa e julga, era o limite posto  vontade do Lobo Neves. Talvez j no
amasse a mulher e, assim, pode ser que o corao fosse estranho  indulgncia dos seus
ltimos atos. Cuido (e de novo insto pela boa vontade da crtica!) cuido que ele estaria
pronto a separar-se da mulher, como o leitor se ter separado de muitas relaes pessoais;
mas a opinio, essa opinio que lhe arrastaria a vida por todas as ruas, que abriria minucioso
inqurito acerca do caso, que coligiria uma a uma todas as circunstncias, antecedncias,
indues, provas, que as relataria na palestra das chcaras desocupadas, essa terrvel
opinio, to curiosa das alcovas, obstou  disperso da famlia. Ao mesmo tempo tornou
impossvel o desforo, que seria a divulgao. Ele no podia mostrar-se ressentido comigo,
sem igualmente buscar a separao conjugal; teve ento de simular a mesma ignorncia de
outrora, e, por deduo, iguais sentimentos.
Que lhe custasse creio; naqueles dias, principalmente, vi-o de modo que devia custar-lhe
muito. Mas o tempo (e  outro ponto em que eu espero a indulgncia dos homens
pensadores!), o tempo caleja a sensibilidade, e oblitera a memria das cousas; era de supor
que os anos lhe despontassem os espinhos, que a distncia dos fatos apagasse os respectivos
contornos, que uma sombra de dvida retrospectiva cobrisse a nudez da realidade; enfim,
que a opinio se ocupasse um pouco com outras aventuras. O filho, crescendo, buscaria
satisfazer as ambies do pai, seria o herdeiro de todos os seus afetos. Isso, e a atividade
externa, e o prestgio pblico, e a velhice depois, a doena, o declnio, a morte, um responso,
uma notcia biogrfica, e estava fechado o livro da vida, sem nenhuma pgina de sangue.
CAPTULO CXIII / A SOLDA
A CONCLUSO, se h alguma no captulo anterior,  que a opinio  uma boa solda das
instituies domsticas. No  impossvel que eu desenvolva este pensamento, antes de
acabar o livro, mas tambm no  impossvel que o deixe como est. De um ou de outro
modo  uma boa solda a opinio, e tanto na ordem domstica, como na poltica. Alguns
metafsicos biliosos tm chegado ao extremo de a darem como simples produto da gente
chocha ou medocre; mas  evidente que, ainda quando um conceito to extremado no
trouxesse em si mesmo a resposta, bastava considerar os efeitos salutares da opinio, para
concluir que ela  a obra superfina da flor dos homens, a saber, do maior nmero.
CAPTULO CXIV / FIM DE UM DILOGO
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--SIM,  AMANH. Voc vai a bordo?
--Est douda?  impossvel.
--Ento, adeus!
--Adeus!
--No se esquea de D. Plcida. V v-la algumas vezes. Coitada! Foi ontem despedir-se de
ns; chorou muito, disse que eu no a veria mais. . . E uma boa criatura, no ?
--Certamente.
--Se tivermos de escrever, ela receber as cartas. Agora at daqui a...
--Talvez dous anos?
--Qual! ele diz que  s at fazer as eleies.
--Sim? ento at breve. Olhe que esto olhando para ns.
--Quem?
--Ali no sof. Separemo-nos.
--Custa-me muito.
--Mas  preciso; adeus, Virglia!
--At breve. Adeus!
CAPTULO CXV / O ALMOO
NO A VI PARTIR; mas  hora marcada senti alguma cousa que no era dor nem prazer,
uma cousa mista, alvio e saudade, tudo misturado, em iguais doses. No se irrite o leitor
com esta confisso. Eu bem sei que, para titilar-lhe os nervos da fantasia, devia padecer um
grande desespero, derramar algumas lgrimas, e no almoar. Seria romanesco; mas no
seria biogrfico. A realidade pura  que eu almocei, como nos demais dias, acudindo ao
corao com as lembranas da minha aventura, e ao estmago com os acepipes de M.
Prudhon...
...Velhos do meu tempo, acaso vos lembrais desse mestre cozinheiro do Hotel Pharoux, um
sujeito que, segundo dizia o dono da casa, havia servido nos famosos Vry e Vfour, de
Paris, e mais nos palcios do Conde Mol e do Duque de la Rochefoucauld? Era insigne.
Entrou no Rio de Janeiro com a polca. . . A polca, M. Prudhon, o Tivoli, o baile dos
estrangeiros, o Cassino, eis algumas das melhores recordaes daquele tempo; mas
sobretudo os acepipes do mestre eram deliciosos.
Memrias Pstumas de Brs Cubas, de Machado de Assis
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Eram, e naquela manh parece que o diabo do homem adivinhara a nossa catstrofe. Jamais
o engenho e a arte lhe foram to propcios. Que requinte de temperos! que tenrura de carnes!
que rebuscado de formas! Comia-se com a boca, com os olhos, com o nariz. No guardei a
conta desse dia; sei que foi cara. Ai dor! era-me preciso enterrar magnificamente os meus
amores. Eles l iam, mar em fora no espao e no tempo, e eu ficava-me ali numa ponta de
mesa, com os meus quarenta e tantos anos, to vadios e to vazios; ficava-me para os no
ver nunca mais, porque ela poderia tornar e tornou mas o eflvio da manh quem  que o
pediu ao crepsculo da tarde?
CAPTULO CXVI / FILOSOFIA DAS FOLHAS VELHAS
FIQUEI TO TRISTE com o fim do ltimo captulo que estava capaz de no escrever este,
descansar um pouco, purgar o esprito da melancolia que o empacha, e continuar depois.
Mas no, no quero perder tempo.
A partida de Virglia deu-me uma amostra da viuvez. Nos primeiros dias meti-me em casa, a
fisgar moscas, como Domiciano, se no mente o Suetnio, mas a fisg-las de um modo
particular: com os olhos. Fisgava-as uma a uma, no fundo de uma sala grande, estirado na
rede, com um livro aberto entre as mos. Era tudo: saudades, ambies, um pouco de tdio,
e muito devaneio solto. Meu tio cnego morreu nesse intervalo; item, dous primos. No me
dei por abalado levei-os ao cemitrio, como quem leva dinheiro a um banco. Que digo?
como quem leva cartas ao correio: selei as cartas, meti-as na caixinha, e deixei ao carteiro o
cuidado de as entregar em mo prpria. Foi tambm por esse tempo que nasceu minha
sobrinha Venncia, filha do Cotrim. Morriam uns, nasciam outros: eu continuava s moscas.
Outras vezes agitava-me. Ia s gavetas, entornava as cartas antigas, dos amigos, dos
parentes, das namoradas, (at as de Marcela), e abria-as todas, lia-as uma a uma, e
recompunha o pretrito... Leitor ignaro, se no guardas as cartas da juventude, no
conhecers um dia a filosofia das folhas velhas, no gostars o prazer de ver-te, ao longe, na
penumbra, com um chapu de trs bicos, botas de sete lguas e longas barbas assrias, a
bailar ao som de uma gaita anacrentica. Guarda as tuas cartas da juventude!
Ou, se te no apraz o chapu de trs bicos, empregarei a locuo de um velho marujo,
familiar da casa de Cotrim; direi que, se guardares as cartas da juventude, achars ocasio de
"cantar uma saudade." Parece que os nossos marujos do este nome s cantigas de terra,
entoadas no alto mar. Como expresso potica,  o que se pode exigir mais triste.
CAPTULO CXVII / O HUMANITISMO
DUAS FORAS, porm, alm de uma terceira, compeliam-me a tornar  vida agitada do
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costume: Sabina e Quincas Borba. Minha irm encaminhou a candidatura conjugal de
Nh-lol de um modo verdadeiramente impetuoso. Quando dei por mim estava com a moa
quase nos braos. Quanto ao Quincas Borba, exps-me enfim o Humanitismo, sistema de
filosofia destinado a arruinar todos os demais sistemas.
--Hamanitas, dizia ele, o princpio das cousas, no  outro seno o mesmo homem repartido
por todos os homens. Conta trs fases Humanitas: a esttica, anterior a toda a criao; a
expansiva, comeo das cousas; a dispersiva, aparecimento do homem; e contar mais uma, a
contrativa, absolo do homem e das cousas. A expanso, iniciando o universo, sugeriu a
Humanitas o desejo de o gozar, e da a disperso, que no  mais do que a multiplicao
personificada da substncia original.
Como me no aparecesse assaz clara esta exposio, Quincas Borba desenvolveu-a de um
modo profundo, fazendo notar as grandes linhas do sistema. Explicou-me que, por um lado,
o Humanitismo ligava-se ao Bramanismo, a saber, na distribuio dos homens pelas
diferentes partes do corpo de Humanitas; mas aquilo que na religio indiana tinha apenas
uma estreita significao teolgica e poltica, era no Humanitismo a grande lei do valor
pessoal. Assim, descender do peito ou dos rins de Humanitas, isto , ser um forte, no era o
mesmo que descender dos cabelos ou da ponta do nariz. Da a necessidade de cultivar e
temperar o msculo. Hrcules no foi seno um smbolo antecipado do Humanitismo. Neste
ponto Quincas Borba ponderou que o paganismo poderia ter chegado  verdade, se no
houvesse amesquinhado com a parte galante dos seus mitos. Nada disso acontecer com o
Humanitismo. Nesta igreja nova no h aventuras fceis, nem quedas, nem tristezas, nem
alegrias pueris. O amor, por exemplo,  um sacerdcio, a reproduo um ritual. Como a vida
 o maior benefcio do universo, e no h mendigo que no prefira a misria  morte (o que
 um delicioso influxo de Humanitas), segue-se que a transmisso da vida, longe de ser uma
ocasio de galanteio,  a hora suprema da missa espiritual. Porquanto, verdadeiramente h
s uma desgraa:  no nascer.
--Imagina, por exemplo, que eu no tinha nascido, continuou o Quincas Borba;  positivo
que no teria agora o prazer de conversar contigo, comer esta batata, ir ao teatro, e para tudo
dizer numa s palavra: viver. Nota que eu no fao do homem um simples veculo de
Humanitas; no, ele  ao mesmo tempo veculo, cocheiro e passageiro; ele  o prprio
Humanitas reduzido; da a necessidade de adorar-se a si prprio. Queres uma prova da
superioridade do meu sistema? Contempla a inveja. No h moralista grego ou turco, cristo
ou muulmano, que no troveje contra o sentimento da inveja. O acordo  universal, desde
os campos da Idumia at o alto da Tijuca. Ora bem; abre mo dos velhos preconceitos,
esquece as retricas rafadas, e estuda a inveja, esse sentimento to subtil e to nobre. Sendo
cada homem uma reduo de Humanitas,  claro que nenhum homem  fundamentalmente
oposto a outro homem, quaisquer que sejam as aparncias contrrias. Assim, por exemplo, o
algoz que executa o condenado pode excitar o vo clamor dos poetas; mas substancialmente
 Humanitas que corrige em Humanitas uma infrao da lei de Humanitas. O mesmo direi
do indivduo que estripa a outro;  uma manifestao da fora de Humanitas. Nada obsta (e
h exemplos) que ele seja igualmente estripado. Se entendeste bem, facilmente
compreenders que a inveja no  seno uma admirao que luta, e sendo a luta a grande
funo do gnero humano, todos os sentimentos belicosos so os mais adequados  sua
felicidade. Da vem que a inveja  uma virtude.
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Para que neg-lo? eu estava estupefacto. A clareza da exposio, a lgica dos princpios, o
rigor das conseqncias, tudo isso parecia superiormente grande, e foi-me preciso suspender
a conversa por alguns minutos, enquanto digeria a filosofia nova. Quincas Borba mal podia
encobrir a satisfao do triunfo. Tinha uma asa de frango no prato, e trincava-a com
filosfica serenidade. Eu fiz-lhe ainda algumas objees, mas to frouxas, que ele no
gastou muito tempo em destru-las.
--Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa no esquecer nunca o princpio
universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra, que parece uma
calamidade,  uma operao conveniente, como se dissssemos o estalar dos dedos de
Humanitas; a fome (e ele chupava filosoficamente a asa do frango), a fome  uma prova a
que Humanitas submete a prpria vscera. Mas eu no quero outro documento da
sublimidade do meu sistema, seno este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi plantado
por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse africano, cresceu, foi
vendido; um navio o trouxe, um navio construdo de madeira cortada no mato por dez ou
doze homens, levado por velas, que oito ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e
outras partes do aparelho nutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo,  o
resultado de uma multido de esforos e lutas, executados com o nico fim de dar mate ao
meu apetite.
Entre o queijo e o caf, demonstrou-me Quincas Borba que o seu sistema era a destruio da
dor. A dor, segundo o Humanitismo,  uma pura iluso. Quando a criana  ameaada por
um pau, antes mesmo de ter sido espancada, fecha os olhos e treme; essa predisposio 
que constitui a base da iluso humana, herdada e transmitida. No basta certamente a adoo
do sistema para acabar logo com a dor, mas  indispensvel, o resto  a natural evoluo das
cousas. Uma vez que o homem se compenetre bem de que ele  o prprio Humanitas, no
tem mais do que remontar o pensamento  substncia original para obstar qualquer sensao
dolorosa. A evoluo, porm,  to profunda, que mal se lhe podem assinar alguns milhares
de anos.
Quincas Borba leu-me da a dias a sua grande obra. Eram quatro volumes manuscritos, de
cem pginas cada um, com letra mida e citaes latinas. O ltimo volume compunha-se de
um tratado poltico, fundado no Humanitismo; era talvez a parte mais enfadonha do sistema,
posto que concebida com um formidvel rigor de lgica Reorganizada a sociedade pelo
mtodo dele, nem por isso ficavam eliminadas a guerra, a insurreio, o simples murro, a
facada annima, a misria, a fome, as doenas; mas sendo esses supostos flagelos
verdadeiros equvocos do entendimento, porque no passariam de movimentos externos da
substncia interior, destinados a no influir sobre o homem, seno como simples quebra da
monotonia universal, claro estava que a sua existncia no impediria a felicidade humana.
Mas ainda quando tais flagelos (o que era radicalmente falso) correspondessem no futuro 
concepo acanhada de antigos tempos, nem por isso ficava destrudo o sistema, e por dous
motivos: 1. porque sendo Humanitas a substncia criadora e absoluta, cada indivduo
deveria achar a maior delcia do mundo em sacrificar-se ao princpio de que descende; 2.
porque, ainda assim, no diminuiria o poder espiritual do homem sobre a Terra, inventada
unicamente para seu recreio dele, como as estrelas, as brisas, as tmaras e o ruibarbo.
Pangloss, dizia-me ele ao fechar o livro, no era to tolo como o pintou Voltaire.
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CAPTULO CXVIII / A TERCEIRA FORA
A TERCEIRA FORA que me chamava ao bulcio era o gosto de luzir, e, sobretudo, a
incapacidade de viver s. A multido atraa-me, o aplauso namorava-me. Se a idia do
emplasto me tem aparecido nesse tempo, quem sabe? no teria morrido logo e estaria
clebre. Mas o emplasto no veio. Veio o desejo de agitar-me em alguma cousa, com
alguma cousa e por alguma cousa.
CAPTULO CXIX / PARNTESIS
QUERO DEIXAR AQUI, entre parntesis, meia dzia de mximas das muitas que escrevi
por esse tempo. So bocejos de enfado; podem servir de epgrafe a discursos sem assunto:
* * *
Suporta-se com pacincia a clica do prximo.
* * *
Matamos o tempo; o tempo nos enterra.
* * *
Um cocheiro filsofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos
andassem de carruagem.
* * *
Cr em ti; mas nem sempre duvides dos outros.
* * *
No se compreende que um botocudo fure o beio para enfeit-lo com um pedao de pau.
Esta reflexo  de um joalheiro.
* * *
No te irrites se te pagarem mal um benefcio: antes cair das nuvens, que de um terceiro
andar.
CAPTULO CXX / COMPELLE INTRARE
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--NO, SENHOR, agora quer voc queira, quer no, h de casar, disse-me Sabina. Que belo
futuro! Um solteiro sem filhos.
Sem filhos! A idia de ter filhos deu-me um sobressalto; percorreu-me outra vez o fluido
misterioso. Sim, cumpria ser pai. A vida celibata podia ter certas vantagens prprias, mas
seriam tnues, e compradas a troco da solido. Sem filhos! No; impossvel. Dispus-me a
aceitar tudo, ainda a aliana do Damasceno. Sem filhos! No; impossvel. Dispus-me a
aceitar tudo, ainda a aliana do Damasceno. Sem filhos! Como j ento depositasse grande
confiana em Quincas Borba, fui Ter com ele e expus-lhe os movimentos internos da minha
paternidade. O filsofo ouviu-me com alvoroo; declarou-me que Humanitas se agitava em
meu seio; animou-me ao casamento, ponderou que eram mais alguns convivas que batiam 
porta, etc. Compelle intrare, como dizia Jesus. E no me deixou sem provar que o aplogo
evanglico no era mais do que um prenncio do Humanitismo, erradamente interpretado
pelos padres.
CAPTULO CXXI / MORRO ABAIXO
No FIM de trs meses, ia tudo  maravilha. O fluido, Sabina, os olhos da moa, os desejos
do pai, eram outros tantos impulsos que me levavam ao matrimnio. A lembrana de
Virglia aparecia de quando em quando,  porta, e com ela um diabo negro que me metia 
cara um espelho, no qual eu via ao longe Virglia desfeita em lgrimas mas outro diabo
vinha, cor-de-rosa, com outro espelho, em que se refletia a figura de Nh-lol, terna,
luminosa, anglica.
No falo dos anos. No os sentia; acrescentarei at que os deitara fora, certo domingo, em
que fui  missa na capela do Livramento Como o Damasceno morava nos Cajueiros, eu
acompanhava-os muitas vezes  missa. O morro estava ainda nu de habitaes, salvo o
velho palacete do alto, onde era a capela. Pois um domingo, ao descer com Nh-lol pelo
brao, no sei que fenmeno se deu que fui deixando aqui dous anos, ali quatro, logo adiante
cinco, de maneira que, quando cheguei abaixo, estava com vinte anos apenas, to lpidos
como tinham sido.
Agora, se querem saber em que circunstncia se deu o fenmeno, basta-lhes ler este captulo
at o fim. Vnhamos da missa, ela, o pai e eu. No meio do morro achamos um grupo de
homens. Damasceno que vinha ao p de ns, percebeu o que era e adiantou-se alvoroado;
ns fomos atrs dele. E vimos isto: homens de todas as idades tamanhos e cores, uns em
mangas de camisa, outros de jaqueta, outros metidos em sobrecasacas esfrangalhadas;
atitudes diversas uns de ccaras, outros com as mos apoiadas nos joelhos, estes sentados
em pedras, aqueles encostados ao muro, e todos com os olhos fixos no centro, e as almas
debruadas das pupilas.
--Que ? perguntou-me Nh-lol.
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Fiz-lhe sinal que se calasse; abri subtilmente caminho, e todos me foram cedendo espao,
sem que positivamente ningum me visse. O centro tinha-lhes atado os olhos. Era uma briga
de galos. Vi os donos contendores, dous galos de esporo agudo, olho de fogo e bico afiado.
Ambos agitavam as cristas em sangue, o peito de um e de outro estava desplumado e rubro;
invadia-os o cansao. Mas lutavam ainda, assim, olhos fitos nos olhos, bico abaixo, bico
acima, golpe deste golpe daquele, vibrantes e raivosos. Damasceno no sabia mais nada; o
espetculo eliminou para ele todo o universo. Em vo lhe disse que era tempo de descer; ele
no respondia, no ouvia, concentrara-se no duelo. A briga de galos era uma de suas
paixes.
Foi nessa ocasio que Nh-lol me puxou brandamente pelo brao dizendo que nos
fssemos embora. Aceitei o conselho e vim com ela por ali abaixo. J disse que o morro era
ento desabitado; disse-lhes tambm que vnhamos da missa, e no lhes tendo dito que
chovia, era claro que fazia bom tempo, um sol delicioso. E forte. To forte que eu abri logo
o guarda-sol, segurei-o pelo centro do cabo, e inclinei-o por modo que ajuntei uma pgina 
filosofia do Quincas Borba: Humanitas osculou Humanitas. . . Foi assim que os anos me
vieram caindo pelo morro abaixo.
Ao sop detivemo-nos alguns minutos,  espera de Damasceno; ele veio da a pouco
rodeado dos apostadores, a comentar com eles a briga. Um destes, tesoureiro das apostas,
distribua um velho mao de notas de dez tostes, que os vencedores recebiam duplamente
alegres. Quanto aos galos vinham sobraados pelo respectivo dono. Um deles trazia a crista
to comida e ensangentada, que vi logo nele o vencido; mas era engano,-- o vencido era o
outro, que no trazia crista nenhuma. Ambos tinham o bico aberto, respirando a custo,
esfalfados. Os apostadores, ao contrrio, vinham alegres, sem embargo das fortes comoes
da luta; biografavam os contendores, relembravam as proezas de ambos. Eu fui andando,
vexado; Nh-lol vexadssima.
CAPTULO CXXII / UMA INTENO MUI FINA
O QUE VEXAVA a Nh-lol era o pai. A facilidade com que ele se metera com os
apostadores punha em relevo antigos costumes e afinidades sociais, e Nh-lol chegara a
temer que tal sogro me parecesse indigno. Era notvel a diferena que ela fazia de si mesma;
estudava-se e estudava-me. A vida elegante e polida atraa-a, principalmente porque lhe
parecia o meio mais seguro de ajustar as nossas pessoas. Nh-lol observava, imitava,
adivinhava, ao mesmo tempo dava-se ao esforo de mascarar a inferioridade da famlia.
Naquele dia, porm, a manifestao do pai foi tamanha que a entristeceu grandemente. Eu
busquei ento diverti-la do assunto, dizendo-lhe muitas chanas e motes de bom-tom; vos
esforos, que no a alegravam mais. Era to profundo o abatimento, to expressivo o
desnimo, que cheguei a atribuir a Nh-lol a inteno positiva de separar, no meu esprito,
a sua causa da causa do pai. Este sentimento pareceu-me de grande elevao; era uma
afinidade mais entre ns.
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"No h remdio, disse eu comigo, vou arrancar esta flor a este pntano".
CAPTULO CXXIII / O VERDADEIRO COTRIM
NO OBSTANTE OS meus quarenta e tantos anos, como eu amasse a harmonia da famlia,
entendi no tratar o casamento sem primeiro falar ao Cotrim. Ele ouviu-me e respondeu-me
seriamente que no tinha opinio em negcio de parentes seus. Podiam supor-lhe algum
interesse, se acaso louvasse as raras prendas de Nh-lol; por isso calava-se. Mais: estava
certo de que a sobrinha nutria por mim verdadeira paixo, mas se ela o consultasse, o seu
conselho seria negativo. No era levado por nenhum dio; apreciava as minhas boas
qualidades,-- no se fartava de as elogiar, como era de justia; e pelo que respeita a
Nh-lol, no chegaria jamais a negar que era noiva excelente; mas da a aconselhar o
casamento ia um abismo.
-- Lavo inteiramente as mos, concluiu ele.
-- Mas voc achava outro dia que eu devia casar quanto antes.
-- Isso  outro negcio. Acho que  indispensvel casar, principalmente tendo ambies
polticas. Saiba que na poltica o celibato  uma remora. Agora, quanto  noiva, no posso
ter voto, no quero no devo, no  de minha honra. Parece-me que Sabina foi alm,
fazendo-lhe certas confidncias, segundo me disse; mas em todo caso ela no  tia carnal de
Nh-lol, como eu. Olhe... mas no...no digo...
--Diga.
--No; no digo nada.
Talvez parea excessivo o escrpulo do Cotrim, a quem no souber que ele possua um
carter ferozmente honrado. Eu mesmo fui injusto com ele durante os anos que se seguiram
ao inventrio de meu pai. Reconheo que era um modelo. Argam-no de avareza, e cuide
que tinham razo; mas a avareza  apenas a exagerao de uma virtude e as virtudes devem
ser como os oramentos: melhor  o saldo que o deficit. Como era muito seco de maneiras
tinha inimigos, que chegavam a acus-lo de brbaro. O nico fato alegado neste particular
era o de mandar com freqncia escravos ao calabouo donde eles desciam a escorrer
sangue; mas, alm de que ele s mandava os perversos e os fujes, ocorre que, tendo
longamente contrabandeado em escravos, habituara-se de certo modo ao trato um pouco
mais duro que esse gnero de negcio requeria, e no se pode honestamente atribuir  ndole
original de um homem o que  puro efeito de relaes sociais. A prova de que o Cotrim
tinha sentimentos pios encontrava-se no seu amor aos filhos, e na dor que padeceu quando
lhe morreu Sara, dali a alguns meses; prova irrefutvel, acho eu, e no nica. Era tesoureiro
de uma confraria, e irmo de vrias irmandades, e at irmo remido de uma destas, o que
no se coaduna muito com a reputao da avareza; verdade  que o benefcio no cara no
cho: a irmandade (de que ele fora juiz mandara-lhe tirar o retrato a leo. No era perfeito,
decerto; tinha por exemplo, o sestro de mandar para os jornais a notcia de um ou outro
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benefcio que praticava,--sestro repreensvel ou no louvvel concordo; mas ele
desculpava-se dizendo que as boas aes eram contagiosas, quando pblicas; razo a que se
no pode negar algum peso. Creio mesmo (e nisto fao o seu maior elogio) que ele no
praticava, de quando em quando, esses benefcios seno com o fim de espertar a filantropia
dos outros; e se tal era o intuito, fora  confessar que a publicidade tornava-se uma
condio sine qua non. Em suma, poderia dever algumas atenes, mas no devia um real a
ningum.
CAPTULO CXXIV / V DE INTERMDIO
QUE H entre a vida e a morte? Uma curta ponte. No obstante, se eu no compusesse este
captulo, padeceria o leitor um forte abalo, assaz danoso ao efeito do livro. Saltar de um
retrato a um epitfio, pode ser real e comum; o leitor, entretanto, no se refugia no livro,
seno para escapar  vida. No digo que este pensamento seja meu; digo que h nele uma
dose de verdade, e que, ao menos, a forma  pinturesca. E repito: no  meu.
CAPTULO CXXV / EPITFIO
AQUI JAZ
D. EULALIA DAMASCENA DE BRITO
MORTA
AOS DEZENOVE ANOS DE IDADE
ORAI POR ELA!
CAPTULO CXXVI / DESCONSOLAO
O EPITFIO diz tudo. Vale mais do que se lhes narrasse a molstia de Nh-lol, a morte, o
desespero da famlia, o enterro. Ficam sabendo que morreu; acrescentarei que foi por
ocasio da primeira entrada da febre amarela. No digo mais nada, a no ser que a
acompanhei at o ltimo jazigo, e me despedi triste, mas sem lgrimas. Conclu que talvez
no a amasse deveras.
Vejam agora a que excessos pode levar uma inadvertncia; doeu-me um pouco a cegueira da
epidemia que, matando  direita e  esquerda, levou tambm uma jovem dama, que tinha de
ser minha mulher; no cheguei a entender a necessidade da epidemia, menos ainda daquela
morte. Creio at que esta me pareceu ainda mais absurda que todas as outras mortes.
Quincas Borba, porm, explicou-me que epidemias eram teis  espcie, embora desastrosas
para uma certa poro de indivduos; fez-me notar que, por mais horrendo que fosse o
espetculo, havia uma vantagem de muito peso: a sobrevivncia do maior nmero. Chegou a
perguntar-me se, no meio do luto geral, no sentia eu algum secreto encanto em ter escapado
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s garras da peste; mas esta pergunta era to insensata, que ficou sem resposta.
Se no contei a morte, no conto igualmente a missa do stimo dia. A tristeza do
Damasceno era profunda; esse pobre homem parecia uma runa. Quinze dias depois estive
com ele; continuava inconsolvel, e dizia que a dor grande com que Deus o castigara fora
ainda aumentada com a que lhe infligiram os homens. No me disse mais nada. Trs
semanas depois tornou ao assunto, e ento confessou-me que, no meio do desastre
irreparvel, quisera ter a consolao da presena dos amigos. Doze pessoas apenas, e trs
quartas partes amigos do Cotrim, acompanharam  cova o cadver de sua querida filha. E
ele fizera expedir oitenta convites. Ponderei-lhe que as perdas eram to gerais que bem se
podia desculpar essa desateno aparente. Damasceno abanava a cabea de um modo
incrdulo e triste.
--Qual! gemia ele, desampararam-me.
Cotrim, que estava presente:
--Vieram os que deveras se interessam por voc e por ns. Os oitenta viriam por
formalidade, falariam da inrcia do governo, das panacias dos boticrios, do preo das
casas, ou uns dos outros..
Damasceno ouviu calado, abanou outra vez a cabea, e suspirou:
--Mas viessem!
CAPTULO CXXVII / FORMALIDADE
GRANDE COUSA  haver recebido do Cu uma partcula da sabedoria o dom de achar as
relaes das cousas, a faculdade de as comparar e o talento de concluir! Eu tive essa
distino psquica, eu a agradeo ainda agora do fundo do meu sepulcro.
De fato, o homem vulgar que ouvisse a ltima palavra do Damasceno no se lembraria dela,
quando, tempos depois, houvesse de olhar para uma gravura representando seis damas
turcas. Pois eu lembrei-me. Eram seis damas de Constantinopla, -- modernas,-- em trajos de
rua, cara tapada, no com um espesso pano que as cobrisse deveras, mas com um vu
tenussimo, que simulava descobrir somente os olhos e na realidade descobria a cara inteira.
E eu achei graa a essa esperteza da faceirice muulmana, que assim esconde o rosto,-- e
cumpre o uso,-- mas no o esconde,-- e divulga a beleza. Aparentemente, nada h entre as
damas turcas e o Damasceno; mas se tu s um esprito profundo e penetrante (e duvido
muito que me negues isso), compreenders que, tanto num como noutro caso, surge a a
orelha de uma rgida e meiga companheira do homem social...
Amvel Formalidade, tu s, sim, o bordo da vida, o blsamo dos coraes, a medianeira
entre os homens, o vnculo da terra e do cu; tu enxugas as lgrimas de um pai, tu captas a
indulgncia de um Profeta. Se a dor adormece, e a conscincia se acomoda, a quem seno a
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ti, devem esse imenso benefcio? A estima que passa de chapu na cabea no diz nada 
alma; mas a indiferena que corteja deixa-lhe uma deleitosa impresso. A razo  que, ao
contrrio de uma velha frmula absurda, no  a letra que mata; a letra d vida o esprito 
que  objeto de controvrsia , de dvida , de interpretao e conseguintemente de luta e de
morte. Vive tu, amvel Formalidade para sossego do Damasceno e glria de Muamede.
CAPTULO CXXVIII / NA CMARA
E NOTAI BEM que eu vi a gravura turca, dous anos depois das palavras de Damasceno, e
vi-a na Cmara dos Deputados, em meio de grande burburinho, enquanto um deputado
discutia um parecer da comisso do oramento, sendo eu tambm deputado. Para quem h
lido este livro  escusado encarecer a minha satisfao, e para os outros  igualmente intil.
Era deputado, e vi a gravura turca, recostado na minha cadeira, entre um colega, que contava
uma anedota, e outro, que tirava a lpis, nas costas de uma sobrecarta, o perfil de orador. O
orador era o Lobo Neves. A onda da vida trouxe-nos  mesma praia, como duas botelhas de
nufragos, ele contendo o seu ressentimento, eu devendo conter o meu remorso; e emprego
esta forma suspensiva, dubitativa ou condicional, para o fim de dizer que efetivamente no
continha nada, a no ser a ambio de ser ministro.
CAPTULO CXXIX / SEM REMORSOS
NO TINHA remorsos. Se possusse os aparelhos prprios, inclua neste livro uma pgina
de qumica, porque havia de decompor o remorso at os mais simples elementos, com o fim
de saber de um modo positivo e concludente por que razo Aquiles passeia  roda de Tria o
cadver do adversrio, e lady Macbeth passeia  volta da sala a sua mancha de sangue. Mas
eu no tenho aparelhos qumicos, como no tinha remorsos, tinha vontade de ser ministro de
Estado. Contudo, se hei de acabar este captulo, direi que no quisera ser Aquiles nem lady
Macbeth; e que, a ser alguma cousa, antes Aquiles, antes passear ovante o cadver do que a
mancha; ouvem-se no fim as splicas de Pramo, e ganha-se uma bonita reputao militar e
literria. Eu no ouvia as splicas de Pramo, mas o discurso do Lobo Neves, e no tinha
remorsos.
CAPTULO CXXX / PARA INTERCALAR NO CAP. CXXIX
A PRIMEIRA VEZ que pude falar a Virglia, depois da presidncia, foi num baile em 1855.
Trazia um soberbo vestido de gorgoro azul, e ostentava s luzes o mesmo par de ombros de
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outro tempo. No era a frescura da primeira idade; ao contrrio; mas ainda estava formosa
de uma formosura outonia, realada pela noite. Lembra-me que falamos muito, sem aludir
a cousa nenhuma do passado. Subentendia-se tudo. Um dito remoto, vago, ou ento um
olhar, e mais nada. Pouco depois retirou-se; eu fui v-la descer as escadas, e no sei por que
fenmeno de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os fillogos essa frase brbara)
murmurei comigo esta palavra profundamente retrospectiva:
"Magnfica!"
Convm intercalar este captulo entre a primeira orao e a segunda do captulo CXXIX.
CAPTULO CXXXI / DE UMA CALNIA
COMO EU ACABAVA de dizer aquilo, pelo processo ventrloquo-cerebral,-- o que era
simples opinio e no remorso, -- senti que algum me punha a mo no ombro. Voltei-me;
era um antigo companheiro, oficial de marinha, jovial, um pouco despejado de maneiras. Ele
sorriu maliciosamente, e disse-me:
--Seu magano! Recordaes do passado, hein?
--Viva o passado!
--Voc naturalmente foi reintegrado no emprego.
--Salta, pelintra! disse eu, ameaando-o com o dedo.
Confesso que este dilogo era uma indiscrio,-- principalmente a ltima rplica. E com
tanto maior prazer o confesso, quanto que as mulheres  que tm fama de indiscretas, e no
quero acabar o livro sem retificar essa noo do esprito humano. Em pontos de aventura
amorosa, achei homens que sorriam, ou negavam a custo de um modo frio, monossilbico,
etc., ao passo que as parceiras no davam por si, e jurariam aos Santos Evangelhos que era
tudo uma calnia. A razo desta diferena  que a mulher (salva a hiptese do captulo CI e
outras) entrega-se por amor, ou seja o amor paixo de Stendhal, ou o puramente fsico de
algumas damas romanas, por exemplo, ou polinsias, lapnias, cafres, e pode ser que outras
raas civilizadas; mas o homem,--falo do homem de uma sociedade culta e elegante,--o
homem conjuga a sua vaidade ao outro sentimento. Alm disso (e refiro-me sempre aos
casos defesos) a mulher, quando ama outro homem, parece-lhe que mente a um dever, e
portanto tem de dissimular com arte maior, tem de refinar a aleivosia; ao passo que o
homem, sentindo-se causa da infrao e vencedor de outro homem, fica legitimamente
orgulhoso, e logo passa a outro sentimento menos rspido e menos secreto,-- essa boa
fatuidade, que  a transpirao luminosa do mrito.
Mas seja ou no verdadeira a minha explicao, basta-me deixar escrito nesta pgina, para
uso dos sculos, que a indiscrio das mulheres  uma burla inventada pelos homens; em
amor, pelo menos, elas so um verdadeiro sepulcro. Perdem-se muita vez por desastradas,
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por inquietas, por no saberem resistir aos gestos, aos olhares; e  por isso que uma grande
dama e fino esprito, a rainha de Navarra, empregou algures esta metfora para dizer que
toda a aventura amorosa vinha descobrir-se por fora, mais tarde ou mais cedo "No h
cachorrinho to adestrado, que alfim lhe no ouamos o latir".
CAPTULO CXXXII / QUE NO  SRIO
CITANDO o dito da rainha de Navarra, ocorre-me que entre o nosso povo, quando uma
pessoa v outra pessoa arrufada, costuma perguntar-lhe: "Gentes, quem matou seus
cachorrinhos?" como se dissesse: --"quem lhe levou os amores, as aventuras secretas, etc."
Mas este captulo no  srio.
CAPTULO CXXXIII / O PRINCPI0 DE HELVETIUS
ESTVAMOS no ponto em que o oficial de marinha me arrancou a confisso dos amores
de Virglia, e aqui emendo eu o princpio de Helvetius, -- ou, por outra, explico-o. O meu
interesse era calar; confirmar a suspeita de uma cousa antiga fora provocar algum dio
sopitado, dar origem a um escndalo, quando menos adquirir a reputao de indiscreto. Era
esse o interesse; e entendendo-se o princpio de Helvetius de um modo superficial, isso  o
que devia ter feito Mas eu j dei o motivo da indiscrio masculina; antes daquele interesse
de segurana, havia outro, o do desvanecimento, que  mais ntimo, mais imediato: o
primeiro era reflexivo, supunha um silogismo anterior; o segundo era espontneo, instintivo,
vinha das entranhas do sujeito; finalmente, o primeiro tinha o efeito remoto, o segundo
prximo. Concluso: o princpio de Helvetius  verdadeiro no meu caso; -- a diferena  que
no era o interesse aparente, mas o recndito.
CAPTULO CXXXIV / CINQUENTA ANOS
NO LHES DISSE ainda,-- mas digo-o agora,-- que quando Virglia descia a escada, e o
oficial de marinha me tocava no ombro, tinha eu cinqenta anos. Era portanto a minha vida
que descia pela escada abaixo,-- ou a melhor parte, ao menos, uma parte cheia de prazeres,
de agitaes, de sustos,-- capeada de dissimulao e duplicidade,-- mas enfim a melhor, se
devemos falar a linguagem usual. Se, porm, empregarmos outra mais sublime, a melhor
parte foi a restante, como eu terei a honra de lhes dizer nas poucas pginas deste livro.
Cinqenta anos! No era preciso confess-lo. J se vai sentindo que o meu estilo no  to
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lesto como nos primeiros dias. Naquela ocasio, cessado o dilogo com o oficial de marinha,
que enfiou a capa e saiu, confesso que fiquei um pouco triste. Voltei  sala, lembrou-me
danar uma polca, embriagar-me das luzes, das flores, dos cristais, dos olhos bonitos, e do
burburinho surdo e ligeiro das conversas particulares. E no me arrependo; remocei. Mas,
meia hora depois, quando me retirei do baile, s quatro da manh, o que  que fui achar no
fundo do carro? Os meus cinqenta anos. L estavam eles os teimosos, no tolhidos de frio,
nem reumticos,-- mas cochilando a sua fadiga, um pouco cobiosos de cama e de repouso.
Ento, -- e vejam at que ponto pode ir a imaginao de um homem, com sono,-- ento
pareceu-me ouvir de um morcego escarapitado no tejadilho: Sr. Brs Cubas, a
rejuvenescncia estava na sala, nos cristais, nas luzes, nas sedas,-- enfim, nos outros.
CAPTULO CXXXV / OBLIVION
E AGORA SINTO que, se alguma dama tem seguido estas pginas, fecha o livro e no l as
restantes. Para ela extinguiu-se o interesse da minha vida, que era o amor. Cinqenta anos!
No  ainda a invalidez, mas j no  a frescura. Venham mais dez, e eu entenderei o que
um ingls dizia, entenderei que "cousa  no achar j quem se lembre de meus pais, e de que
modo me h de encarar o prprio ESQUECIMENTO."
Vai em versaletes esse nome. OBLIVION! Justo  que se dem todas as honras a um
personagem to desprezado e to digno, conviva da ltima hora, mas certo. Sabe-o a dama
que luziu na aurora do atual reinado, e mais dolorosamente a que ostentou suas graas em
flor sob o Ministrio Paran, porque esta acha-se mais perto do triunfo, e sente j que outras
lhe tomaram o carro. Ento, se  digna de si mesma, no teima em espertar a lembrana
morta ou expirante; no busca no olhar de hoje a mesma saudao do olhar de ontem,
quando eram outros os que encetavam a marcha da vida, de alma alegre e p veloz. Tempora
mutantur. Compreende que este turbilho  assim mesmo, leva as folhas do mato e os
farrapos do caminho, sem exceo nem piedade; e se tiver um pouco de filosofia, no
inveja, mas lastima as que lhe tomaram o carro, porque tambm elas ho de ser apeadas pelo
estribeiro OBLIVION. Espetculo, cujo fim  divertir o planeta Saturno, que anda muito
aborrecido.
CAPTULO CXXXVI / INUTlLIDADE
MAS, OU MUITO me engano, ou acabo de escrever um captulo intil
CAPTULO CXXXVII / A BARRETINA
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E DA, NO; ele resume as reflexes que fiz no dia seguinte ao Quincas Borba,
acrescentando que me sentia acabrunhado, e mil outras cousas tristes. Mas esse filsofo,
com o elevado tino de que dispunha, bradou-me que eu ia escorregando na ladeira fatal da
melancolia.
--Meu caro Brs Cubas, no te deixes vencer desses vapores. Que diacho!  preciso ser
homem! ser forte! lutar! vencer! brilhar! influir! dominar! Cinqenta anos  a idade da
cincia e do governo. Animo, Brs Cubas; no me sejas palerma. Que tens tu com essa
sucesso de runa a runa ou de flor a flor? Trata de saborear a vida; e fica sabendo que a
pior filosofia  a do choramigas que se deita  margem do rio para o fim de lastimar o curso
incessante das guas. O ofcio delas  no parar nunca; acomoda-te com a lei, e trata de
aproveit-la.
V-se nas menores cousas o que vale a autoridade de um grande filsofo. As palavras do
Quincas Borba tiveram o condo de sacudir o torpor moral e mental em que andava. Vamos
l; faamo-nos governo,  tempo. Eu no havia intervindo at ento nos grandes debates.
Cortejava a pasta por meio de rapaps, chs, comisses e votos; e a pasta no vinha. Urgia
apoderar-me da tribuna.
Comecei devagar. Trs dias depois, discutindo-se o oramento da justia, aproveitei o ensejo
para perguntar modestamente ao ministro se no julgava til diminuir a barretina da guarda
nacional. No tinha vasto alcance o objeto da pergunta, mas ainda assim demonstrei que no
era indigno das cogitaes de um homem de Estado; e citei Filopmen, que ordenou a
substituio dos broquis de suas tropas, que eram pequenos, por outros maiores, e bem
assim as lanas, que eram demasiado leves; fato que a histria no achou que desmentisse a
gravidade de suas pginas. O tamanho das nossas barretinas estava pedindo um corte
profundo, no s por serem deselegantes, mas tambm por serem anti-higinicas. Nas
paradas, ao sol, o excesso de calor produzido por elas podia ser fatal. Sendo certo que um
dos preceitos de Hipcrates era trazer a cabea fresca, parecia cruel obrigar um cidado, por
simples considerao de uniforme, a arriscar a sade e a vida, e conseqentemente o futuro
da famlia. A cmara e o governo deviam lembrar-se que a guarda nacional era o anteparo
da liberdade e da independncia, e que o cidado, chamado a um servio gratuito, freqente
e penoso, tinha direito a que se lhe diminusse o nus, decretando um uniforme leve e
maneiro. Acrescia que a barretina, por seu peso, abatia a cabea dos cidados, e a ptria
precisava de cidados cuja fronte pudesse levantar-se altiva e serena diante do poder; e
conclu com esta idia: O choro, que inclina os seus galhos para a terra,  rvore de
cemitrio; a palmeira, erecta e firme,  rvore do deserto, das praas e dos jardins.
Vria foi a impresso deste discurso. Quanto  forma, ao rapto eloqente,  parte literria e
filosfica, a opinio foi s uma; disseram-me todos que era completo, e que de uma
barretina ningum ainda conseguira tirar tantas idias. Mas a parte poltica foi considerada
por muitos deplorvel; alguns achavam o meu discurso um desastre parlamentar; enfim,
vieram dizer-me que outros me davam j em oposio, entrando nesse nmero os
oposicionistas da cmara, que chegaram a insinuar a convenincia de uma moo de
desconfiana. Repeli energicamente tal interpretao, que no era s errnea, mas caluniosa,
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 vista da notoriedade com que eu sustentava o gabinete; acrescentei que a necessidade de
diminuir a barretina no era tamanha que no pudesse esperar alguns anos; e que; em todo
caso, eu transigiria na extenso do corte, contentando-me com trs quartos de polegada ou
menos; enfim dado mesmo que a minha idia no fosse adotada, bastava-me t-la iniciado
no parlamento.
Quincas Borba, porm, no fez restrio alguma. No sou homem poltico, disse-me ele ao
jantar; no sei se andaste bem ou mal; sei que fizeste um excelente discurso. E ento notou
as partes mais salientes, as belas imagens, os argumentos fortes, com esse comedimento de
louvor que to bem fica a um grande filsofo; depois, tomou o assunto  sua conta, e
impugnou a barretina com tal fora, com tamanha lucidez, que acabou convencendo-me
efetivamente do seu perigo.
CAPTULO CXXXVIII / A UM CRTICO
Meu caro crtico,
Algumas pginas atrs, dizendo eu que tinha cinqenta anos, acrescentei: "J se vai sentindo
que o meu estilo no  to lesto como nos primeiros dias". Talvez aches esta frase
incompreensvel, sabendo-se o meu atual estado; mas eu chamo a tua ateno para a
subtileza daquele pensamento. o que eu quero dizer no  que esteja agora mais velho do
que quando comecei o livro. A morte no envelhece. Quero dizer, sim, que em cada fase da
narrao da minha vida experimento a sensao correspondente. Valha-me Deus!  preciso
explicar tudo.
CAPTULO CXXXIX / DE COMO NO FUI MINISTRO
D'ESTADO
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CAPTULO CXL / QUE EXPLICA O ANTERIOR
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H COUSAS que melhor se dizem calando; tal  a matria do captulo anterior. Podem
entend-lo os ambiciosos malogrados Se a paixo do poder  a mais forte de todas, como
alguns inculcam, imaginem o desespero, a dor, o abatimento do dia em que perdi a cadeira
da Cmara dos Deputados. Iam-se-me as esperanas todas; terminava a carreira poltica. E
notem que o Quincas Borba, por indues filosficas que fez, achou que a minha ambio
no era a paixo verdadeira do poder, mas um capricho, um desejo de folgar. Na opinio
dele, este sentimento, no sendo mais profundo que o outro, amofina muito mais, porque
ora pelo amor que as mulheres tm s rendas e toucados. Um Cromwell ou um Bonaparte,
acrescentava ele, por isso mesmo que os queima a paixo do poder, l chegam  fina fora
ou pela escada da direita, ou pela da esquerda. No era assim o meu sentimento; este, no
tendo em si a mesma fora, no tem a mesma certeza do resultado; e da a maior aflio, o
maior desencanto, a maior tristeza. O meu sentimento, segundo o Humanitismo.
--Vai para o diabo com o teu Humanitismo, interrompi-o, estou farto de filosofias que me
no levam a cousa nenhuma.
A dureza da interrupo, tratando-se de tamanho filsofo, equivalia a um desacato; mas ele
prprio desculpou a irritao com que lhe falei. Trouxeram-nos caf; era uma hora da tarde,
estvamos na minha sala de estudo, uma bela sala, que dava para o fundo da chcara, bons
livros, objetos d'arte, um Voltaire entre eles, um Voltaire de bronze, que nessa ocasio
parecia acentuar o risinho de sarcasmo, com que me olhava, o ladro, cadeiras excelentes;
fora, o sol, um grande sol, que o Quincas Borba, no sei se por chalaa ou poesia, chamou
um dos ministros da natureza; corria um vento fresco, o cu estava azul. De cada janela,--
eram trs -- pendia uma gaiola com pssaros, que chilreavam as suas peras rsticas. Tudo
tinha a aparncia de uma conspirao das cousas contra o homem: e, conquanto eu estivesse
na minha sala, olhando para a minha chcara, sentado na minha cadeira, ouvindo os meus
pssaros, ao p dos meus livros, alumiado pelo meu sol, no chegava a curar-me das
saudades daquela outra cadeira, que no era minha.
CAPTULO CXLI / OS CES
--MAS, ENFIM, que pretendes fazer agora? perguntou-me Quincas Borba, indo pr a xcara
vazia no parapeito de uma das janelas.
--No sei, vou meter-me na Tijuca, fugir aos homens. Estou envergonhado, aborrecido.
Tantos sonhos, meu caro Borba, tantos sonhos, e no sou nada.
--Nada! interrompeu-me Quincas Borba com um gesto de indignao.
Para distrair-me, convidou-me a sair, samos para os lados do Engenho Velho. Fomos a p,
filosofando as cousas. Nunca me h de esquecer o benefcio desse passeio. A palavra
daquele grande homem era o cordial da sabedoria. Disse-me ele que eu no podia fugir ao
combate; se me fechavam a tribuna, cumpria-me abrir um jornal. Chegou a usar uma
expresso menos elevada, mostrando assim que a lngua filosfica podia uma ou outra vez,
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retemperar-se no calo do povo. Funda um jornal, disse-me ele, e "desmancha toda esta
igrejinha".
--Magnfica idia! Vou fundar um jornal, vou escach-los, vou . . .
--Lutar. Podes escach-los ou no, o essencial  que lutes. Vida  luta. Vida sem luta  um
mar morto no centro do organismo universal.
Da a pouco demos com uma briga de ces, fato que aos olhos de um homem vulgar no
teria valor. Quincas Borba fez-me parar e observar os ces. Eram dous. Notou que ao p
deles estava um osso, motivo da guerra, e no deixou de chamar a minha ateno para a
circunstncia de que o osso no tinha carne. Um simples osso nu. Os ces mordiam-se,
rosnavam, com o furor nos olhos. . . Quincas Borba meteu a bengala debaixo do brao, e
parecia em xtase.
--Que belo que isto ! dizia ele de quando em quando. Quis arranc-lo dali, mas no pude;
ele estava arraigado ao cho, e s continuou a andar, quando a briga cessou inteiramente, e
um dos ces, mordido e vencido, foi levar a sua fome a outra parte. Notei que ficara
sinceramente alegre, posto contivesse a alegria, segundo convinha a um grande filsofo.
Fez-me observar a beleza do espetculo, relembrou o objeto da luta, concluiu que os ces
tinham fome mas a privao do alimento era nada para os efeitos gerais da filosofia. Nem
deixou de recordar que em algumas partes do globo o espetculo mais  grandioso: as
criaturas humanas  que disputam aos ces os ossos e outros manjares menos apetecveis
luta que se complica muito, porque entra em ao a inteligncia do homem, com todo o
acmulo de sagacidade que lhe deram os sculos, etc.
CAPTULO CXLII / O PEDIDO SECRETO
QUANTA COUSA num minuete! como dizia o outro. Quanta cousa numa briga de ces!
Mas eu no era um discpulo servil ou medroso que deixasse de fazer uma ou outra objeo
adequada. Andando, disse-lhe que tinha uma dvida; no estava bem certo da vantagem de
disputar a comida aos ces. Ele respondeu-me com excepcional brandura:
--Disput-la aos outros homens  mais lgico, porque a condio dos contendores  a
mesma, e leva o osso o que for mais forte. Mas por que no ser um espetculo grandioso
disput-lo aos ces? Voluntariamente, comem-se gafanhotos, como o Precursor, ou cousa
pior, como Ezequiel; logo, o ruim  comvel; resta saber se  mais digno do homem
disput-lo, por virtude de uma necessidade natural, ou preferi-lo, para obedecer a uma
exaltao religiosa, isto , modificvel, ao passo que a fome  eterna, como a vida e como a
morte.
Estvamos  porta de casa; deram-me uma carta, dizendo que vinha de uma senhora.
Entramos, e o Quincas Borba, com a discrio prpria de um filsofo, foi ler a lombada dos
livros de uma estante, enquanto eu lia a carta, que era de Virglia:
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Meu bom amigo,
D. Plcida est muito mal. Peo-lhe o favor de fazer alguma cousa por ela; mora no Beco
das Escadinhas; veja se alcana met-la na Misericrdia.
Sua amiga sincera,
No era a letra fina e correta de Virglia, mas grossa e desigual; o V da assinatura no
passava de um rabisco sem inteno alfabtica de maneira que, se a carta aparecesse, era
mui difcil atribuir-lhe a autoria. Virei e revirei o papel. Pobre D. Plcida! Mas eu tinha-lhe
deixado os cinco contos da Praia de Botafogo, e no podia compreender que...
--Vais compreender, disse Quincas Borba, tirando um livro da estante.
--O qu? perguntei espantado.
--Vais compreender que eu s te disse a verdade. Pascal  um dos meus avs espirituais; e,
conquanto a minha filosofia valha mais que a dele, no posso negar que era um grande
homem. Ora, que diz ele nesta pgina?--E, chapu na cabea, bengala sobraada apontava o
lugar com o dedo.--Que diz ele? Diz que o homem tem "uma grande vantagem sobre o resto
do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente". Vs? Logo o
homem que disputa o osso a um co tem sobre este a grande vantagem de saber que tem
fome; e  isto que torna grandiosa a luta, como eu dizia. "Sabe que morre"  uma expresso
profunda; creio todavia que  mais profunda a minha expresso: sabe que tem fome.
Porquanto o fato da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a conscincia da
extino dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a
vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se no vai nisso alguma
imodstia) que a frmula de Pascal  inferior  minha, sem todavia deixar de ser um grande
pensamento, e Pascal um grande homem.
CAPTULO CXLIII / NO VOU
ENQUANTO ELE restitua o livro  estante, relia eu o bilhete. Ao jantar, vendo que eu
falava pouco, mastigava sem acabar de engolir, fitava o canto da sala, a ponta da mesa, um
prato, uma cadeira, uma mosca invisvel, disse-me ele: --Tens alguma cousa; aposto que foi
aquela carta?--Foi. Realmente, sentia-me aborrecido, incomodado com o pedido de Virglia.
Tinha dado a D. Plcida cinco contos de ris; duvido muito que ningum fosse mais
generoso do que eu, nem tanto. Cinco contos! E que fizera deles? Naturalmente botou-os
fora, comeu-os em grandes festas, e agora toca para a Misericrdia, e eu que a leve!
Morre-se em qualquer parte. Acresce que eu no sabia ou no me lembrava do tal Beco das
Escadinhas; mas, pelo nome, parecia-me algum recanto estreito e escuro da cidade. Tinha de
l ir, chamar a ateno dos vizinhos, bater  porta, etc. Que maada! No vou.
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CAPTULO CXLIV / UTILIDADE RELATIVA
MAS A NOITE, que  boa conselheira, ponderou que a cortesia mandava obedecer aos
desejos da minha antiga dama.
--Letras vencidas, urge pag-las, disse eu ao levantar-me.
Depois do almoo fui  casa de D. Plcida; achei um molho de ossos, envolto em molambos,
estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la
transportar para a Misericrdia, onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu
morta; saiu da vida s escondidas, tal qual entrara. Outra vez perguntei, a mim mesmo,
como no captulo LXXV, se era para isto que o sacristo da S e a doceira trouxeram Dona
Plcida  luz, num momento de simpatia especfica. Mas adverti logo que, se no fosse D.
Plcida, talvez os meus amores com Virglia tivessem sido interrompidos, ou imediatamente
quebrados, em plena efervescncia; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Plcida.
Utilidade relativa, convenho; mas que diacho h absoluto nesse mundo?
CAPTULO CXLV / SIMPLES REPETIO
QUANTO AOS CINCO contos, no vale a pena dizer que um carteiro da vizinhana
fingiu-se enamorado de D. Plcida, logrou espertar-lhe os sentidos, ou a vaidade, e casou
com ela; no fim de alguns meses inventou um negcio, vendeu as aplices e fugiu com o
dinheiro. No vale a pena.  o caso dos ces do Quincas Borba. Simples repetio de um
captulo.
CAPTULO CXLVI / O PROGRAMA
URGIA FUNDAR O jornal. Redigi o programa, que era uma aplicao poltica do
Humanitismo; somente, como o Quincas Borba no houvesse ainda publicado o livro (que
aperfeioava de ano em ano), assentamos de lhe no fazer nenhuma referncia. Quincas
Borba exigiu apenas uma declarao, autgrafa e reservada, de que alguns princpios novos
aplicados  poltica eram tirados do livro dele, ainda indito.
Era a fina flor dos programas; prometia curar a sociedade, destruir os abusos, defender os
sos princpios de liberdade e conservao; fazia um apelo ao comrcio e  lavoura; citava
Guizot e Ledru Rollin, e acabava com esta ameaa, que o Quincas Borba achou mesquinha e
local: "A nova doutrina que professamos h de inevitavelmente derribar o atual ministrio".
Confesso que, nas circunstncias polticas da ocasio, o programa pareceu-me uma
obra-prima. A ameaa do fim, que o Quincas Borba achou mesquinha, demonstrei-lhe que
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era saturada do mais puro Humanitismo, e ele mesmo o confessou depois. Porquanto, o
Humanitismo no exclua nada; as guerras de Napoleo e uma contenda de cabras eram,
segundo a nossa doutrina, a mesma sublimidade, com a diferena que os soldados de
Napoleo sabiam que morriam, cousa que aparentemente no acontece s cabras. Ora, eu
no fazia mais do que aplicar s circunstncias a nossa frmula filosfica: Humanitas queria
substituir Humanitas para consolao de Humanitas.
--Tu s o meu discpulo amado, o meu califa, bradou Quincas Borba, com uma nota de
ternura, que at ento lhe no ouvira. Posso dizer como o grande Muamede: nem que
venham agora contra mim o Sol e a Lua, no recuarei das minhas idias. Cr, meu caro Brs
Cubas, que esta  a verdade eterna, anterior aos mundos, posterior aos sculos.
CAPTULO CXLVII / O DESATINO
MANDEI LOGO para a imprensa uma notcia discreta, dizendo que provavelmente
comearia a publicao de um jornal oposicionista, da a algumas semanas, redigido pelo
Dr. Brs Cubas. Quincas Borba, a quem li a notcia, pegou da pena, e acrescentou ao meu
nome com uma fraternidade verdadeiramente humanstica, esta frase: "um dos mais
gloriosos membros da passada cmara".
No dia seguinte entra-me em casa o Cotrim. Vinha um pouco transtornado, mas
dissimulava, afetando sossego e at alegria. Vira a notcia do jornal, e achou que devia,
como amigo e parente, dissuadir-me de semelhante idia. Era um erro, um erro fatal.
Mostrou que eu ia colocar-me numa situao difcil, e de certa maneira trancar as portas do
parlamento. O ministrio, no s lhe parecia excelente, o que alis podia no ser a minha
opinio, mas com certeza viveria muito, e que podia eu ganhar com indisp-lo contra mim?
Sabia que alguns dos ministros me eram afeioados; no era impossvel uma vaga, e...
Interrompi-o nesse ponto, para lhe dizer que meditara muito o passo que ia dar, e no podia
recuar uma linha. Cheguei a propor-lhe a leitura do programa, mas ele recusou
energicamente, dizendo que no queria ter a mnima parte no meu desatino.
--  um verdadeiro desatino, repetiu ele; pense ainda alguns dias, e ver que  um desatino.
A mesma cousa disse Sabina,  noite, no teatro. Deixou a filha no camorote, com o Cotrim,
e trouxe-me ao corredor.
-- Mano Brs, que  que voc vai fazer? perguntou-me aflita. Que idia  essa de provocar o
governo, sem necessidade, quando podia . . .
Expliquei-lhe que no me convinha mendigar uma cadeira no parlamento; que a minha idia
era derribar o ministrio, por no me parecer adequado  situao -- e a certa frmula
filosfica; afiancei que empregaria sempre uma linguagem corts, embora enrgica. A
violncia no era especiaria do meu paladar. Sabina bateu com o leque na ponta dos dedos,
abanou a cabea, e tornou ao assunto com um ar de splica e ameaa, alternadamente; eu
disse-lhe que no, que no, e que no. Desenganada, lanou-me em rosto preferi os
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conselhos de pessoas estranhas e invejosas aos dela e do marido. -- Pois siga o que lhe
parecer, concluiu; ns cumprimos a nossa obrigao.--Deu-me as costas e voltou ao
camarote.
CAPTULO CXLVIII / O PROBLEMA INSOLVEL
PUBLIQUEI o jornal. Vinte e quatro horas depois, aparecia em outros uma declarao do
Cotrim, dizendo, em substncia, que "posto no militasse em nenhum dos partidos em que
se dividia a ptria, achava conveniente deixar bem claro que no tinha influncia nem parte
direta ou indireta na folha de seu cunhado, o Dr. Brs Cubas, cujas idias e procedimento
poltico inteiramente reprovava. O atual ministrio (como alis qualquer outro composto de
iguais capacidades) parecia-lhe destinado a promover a felicidade pblica".
No podia acabar de crer nos meus olhos. Esfreguei-os uma e duas vezes, e reli a declarao
inoportuna, inslita e enigmtica. Se ele nada tinha com os partidos, que lhe importava um
incidente to vulgar como a publicao de uma folha? Nem todos os cidados que acham
bom ou mau um ministrio fazem declaraes tais pela imprensa, nem so obrigados a
faz-las. Realmente, era um mistrio a intruso do Cotrim neste negcio, no menos que a
sua agresso pessoal. Nossas relaes at ento tinham sido Ihanas e benvolas; no me
lembrava nenhum dissentimento, nenhuma sombra, nada, depois da reconciliao. Ao
contrrio, as recordaes eram de verdadeiros obsquios; assim, por exemplo, sendo eu
deputado, pude obter-lhe uns fornecimentos para o arsenal de marinha, fornecimentos que
ele continuava a fazer com a maior pontualidade, e dos quais me dizia algumas semanas
antes, que no fim de mais trs anos, podiam dar-lhe uns duzentos contos. Pois a lembrana
de tamanho obsquio no teve fora para obstar que ele viesse a pblico enxovalhar o
cunhado? Devia ser mui poderoso e motivo da declarao, que o fazia cometer ao mesmo
tempo um destempero e uma ingratido; confesso que era um problema insolvel...
CAPTULO CXLIX / TEORIA DO BENEFCIO
...TO INSOLVEL que o Quincas Borba no pde dar com ele, apesar de estud-lo
longamente e com boa vontade.-- Ora adeus! concluiu; nem todos os problemas valem cinco
minutos de ateno.
Quanto  censura de ingratido, Quincas Borba rejeitou-a inteiramente, no como
improvvel, mas como absurda, por no obedecer s concluses de uma boa filosofia
humanstica.
--No me podes negar um fato, disse ele;  que o prazer do beneficiador  sempre maior que
o do beneficiado. Que  o benefcio?  um ato que faz cessar certa privao do beneficiado.
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Uma vez produzido o efeito essencial, isto , uma vez cessada a privao, torna o organismo
ao estado anterior, ao estado indiferente. Supe que tens apertado em demasia o cs das
calas; para fazer cessar o incmodo, desabotoas o cs, respiras, saboreias um instante de
gozo, o organismo torna  indiferena, e no te lembras dos teus dedos que praticaram o ato.
No havendo nada que perdure,  natural que a memria se esvaea, porque ela no  uma
planta area, precisa de cho. A esperana de outros favores,  certo, conserva sempre no
beneficiado a lembrana do primeiro; mas este fato, alis um dos mais sublimes que a
filosofia pode achar em seu caminho, explica-se pela memria da privao, ou, usando de
outra frmula, pela privao continuada na memria, que repercute a dor passada e
aconselha a precauo do remdio oportuno. No digo que, ainda sem esta circunstncia,
no acontea, algumas vezes, persistir a memria do obsquio, acompanhada de certa
afeio mais ou menos intensa; mas so verdadeiras aberraes, sem nenhum valor aos
olhos de um filsofo.
--Mas, repliquei eu, se nenhuma razo h para que perdure a memria do obsquio no
obsequiado, menos h de haver em relao ao obsequiador. Quisera que me explicasses este
ponto.
--No se explica o que  de sua natureza evidente, retorquiu o Quincas Borba; mas eu direi
alguma cousa mais. A persistncia do benefcio na memria de quem o exerce explica-se
pela natureza mesma do benefcio e seus efeitos. Primeiramente h o sentimento de uma boa
ao, e dedutivamente a conscincia de que somos capazes de boas aes; em segundo
lugar, recebe-se uma convico de superioridade sobre outra criatura, superioridade no
estado e nos meios; e esta  uma das cousas mais legitimamente agradveis, segundo as
melhores opinies, ao organismo humano. Erasmo, que no seu Elogio da Sandice escreveu
algumas cousas boas, chamou a ateno para a complacncia com que dous burros se coam
um ao outro. Estou longe de rejeitar essa observao de Erasmo; mas direi o que ele no
disse, a saber que se um dos burros coar melhor o outro esse h de ter nos olhos algum
indcio especial de satisfao. Por que  que uma mulher bonita olha muitas vezes para o
espelho, seno porque se acha bonita, e porque isso lhe d certa superioridade sobre uma
multido de outras mulheres menos bonitas ou absolutamente feias? A conscincia  a
mesma cousa; remira-se a mido, quando se acha bela. Nem o remorso  outra cousa mais
do que o trejeito de uma conscincia que se v hedionda. No esqueas que, sendo tudo uma
simples irradiao de Humanitas, o benefcio e seus efeitos so fenmenos perfeitamente
admirveis.
CAPTULO CL / ROTAO E TRANSLAO
H EM CADA EMPRESA, afeio ou idade um ciclo inteiro da vida humana. O primeiro
nmero do meu jornal encheu-me a alma de uma vasta aurora, coroou-me de verduras,
restituiu-me a lepidez da mocidade. Seis meses depois batia a hora da velhice, e da a duas
semanas a da morte, que foi clandestina, como a de D. Plcida. No dia em que o jornal
amanheceu morto, respirei como um homem que vem de longo caminho. De modo que, se
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eu disser que a vida humana nutre de si mesma outras vidas, mais ou menos efmeras como
o corpo alimenta os seus parasitas creio no dizer uma cousa inteiramente absurda. Mas,
para no arriscar essa figura menos ntida e adequada, prefiro uma imagem astronmica: o
homem executa  roda do grande mistrio um movimento duplo de rotao e translao; tem
os seus dias, desiguais como os de Jpiter, e deles compe o seu ano mais ou menos longo.
No momento em que eu terminava o meu movimento de rotao conclua Lobo Neves o seu
movimento de translao. Morria com o p na escada ministerial. Correu ao menos durante
algumas semanas, que ele ia ser ministro, e pois que o boato me encheu de muita irritao e
inveja, no  impossvel que a notcia da morte me deixasse alguma tranqilidade, alvio, e
um ou dous minutos de prazer. Prazer  muito, mas  verdade; juro aos sculos que  a pura
verdade.
Fui ao enterro. Na sala morturia achei Virglia, ao p do fretro a soluar. Quando levantou
a cabea, vi que chorava deveras. Ao sair o enterro, abraou-se ao caixo, aflita; vieram
tir-la e lev-la para dentro. Digo-vos que as lgrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemitrio;
e, para dizer tudo, no tinha muita vontade de falar; levava uma pedra na garganta ou na
conscincia. No cemitrio, principalmente quando deixei cair a p de cal sobre o caixo, no
fundo da cova, o baque surdo da cal deu-me um estremecimento passageiro,  certo, mas
desagradvel; e depois a tarde tinha o peso e a cor do chumbo; o cemitrio, as roupas
pretas...
CAPTULO CLI / FILOSOFIA DOS EPITFIOS
SA, AFASTANDO-ME dos grupos, e fingindo ler os epitfios. E, alis, gosto dos epitfios;
eles so, entre a gente civilizada, uma expresso daquele pio e secreto egosmo que induz o
homem a arrancar  morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Da vem, talvez, a
tristeza inconsolvel dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a
podrido annima os alcana a eles mesmos.
CAPTULO CLII / A MOEDA DE VESPASIANO
TINHAM IDO TODOS; s o meu carro esperava pelo dono. Acendi um charuto; afastei-me
do cemitrio. No podia sacudir dos olhos a cerimnia do enterro nem dos ouvidos os
soluos de Virglia. Os soluos, principalmente, tinham o som vago e misterioso de um
problema. Virglia trara o marido, com sinceridade, e agora chorava-o com sinceridade. Eis
uma combinao difcil que no pude fazer em todo o trajeto; em casa, porm, apeando-me
do carro, suspeitei que a combinao era possvel, e at fcil. Meiga Natura! A taxa da dor 
como a moeda de Vespasiano; no cheira  origem, e tanto se colhe do mal como do bem. A
moral repreender, porventura, a minha cmplice;  o que te no importa, implacvel amiga,
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uma vez que lhe recebeste pontualmente as lgrimas. Meiga, trs vezes Meiga Natura!
CAPTULO CLIII / O ALIENISTA
COMEO A FICAR pattico e prefiro dormir. Dormi, sonhei que era nababo, e acordei com
a idia de ser nababo. Eu gostava, s vezes, de imaginar esses contrastes de regio, estado e
credo. Alguns dias antes tinha pensado na hiptese de uma revoluo social, religiosa e
poltica, que transferisse o arcebispo de Canturia a simples coletor de Petrpolis, e fiz
longos clculos para saber se o coletor eliminaria o arcebispo, ou se o arcebispo rejeitaria o
coletor, ou que poro de arcebispo pode jazer num coletor, ou que soma de coletor pode
combinar com um arcebispo, etc. Questes insolveis, aparentemente, mas na realidade
perfeitamente solveis, desde que se atenda que pode haver num arcebispo dous
arcebispos,-- o da bula e o outro. Est dito, vou ser nababo.
Era um simples gracejo; disse-o, todavia, ao Quincas Borba, que olhou para mim com certa
cautela e pena, levando a sua bondade a comunicar-me que eu estava doudo. Ri-me a
princpio; mas a nobre convico do filsofo incutiu-me certo medo. A nica objeo contra
a palavra do Quincas Borba  que no me sentia doudo, mas no tendo geralmente os
doudos outro conceito de si mesmos, tal objeo ficava sem valor. E vede se h algum
fundamento na crena popular de que os filsofos so homens alheios s cousas mnimas.
No dia seguinte, mandou-me o Quincas Borba um alienista. Conhecia-o, fiquei aterrado.
Ele, porm houve-se com a maior delicadeza e habilidade, despedindo-se to alegremente
que me animou a perguntar-lhe se deveras me no achava doudo.
--No, disse ele sorrindo; raros homens tero tanto juzo como o senhor.
--Ento o Quincas Borba enganou-se?
--Redondamente. E depois:--Ao contrrio, se  amigo dele... peo-lhe que o distraia... que...
--Justos cus! Parece-lhe?... Um homem de tamanho esprito, um filsofo!
--No importa, a loucura entra em todas as casas.
Imaginem a minha aflio. O alienista, vendo o efeito de suas palavras, reconheceu que eu
era amigo do Quincas Borba, e tratou de diminuir a gravidade da advertncia. Observou que
podia no ser nada, e acrescentou at que um grozinho de sandice, longe de fazer mal, dava
certo pico  vida. Como eu rejeitasse com horror esta opinio, o alienista sorriu e disse-me
uma cousa to extraordinria, to extraordinria, que no merece menos de um captulo.
CAPTULO CLIV / OS NAVIOS DO PIREU
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--H DE LEMBRAR-SE, disse-me o alienista, daquele famoso manaco ateniense, que
supunha que todos os navios entrados no Pireu eram de sua propriedade. No passava de um
pobreto, que talvez no tivesse, para dormir, a cuba de Digenes; mas a posse imaginria
dos navios valia por todas as dracmas da Hlade. Ora bem, h em todos ns um manaco de
Atenas; e quem jurar que no possuiu alguma vez, mentalmente, dous ou trs patachos, pelo
menos, pode crer que jura falso.
--Tambm o senhor? perguntei-lhe.
--Tambm eu.
--Tambm eu?
--Tambm o senhor; e o seu criado, no menos se  seu criado esse homem que ali est
sacudindo os tapetes  janela.
De fato, era um dos meus criados que batia os tapetes, enquanto ns falvamos no jardim, ao
lado. O alienista notou ento que ele escancarara as janelas todas deste longo tempo, que
alara as cortinas, que devassara o mais possvel a sala, ricamente alfaiada, para que a
vissem de fora, e concluiu: --Este seu criado tem a mania do ateniense: cr que os navios so
dele; uma hora de iluso que lhe d a maior felicidade da Terra.
CAPTULO CLV / REFLEXO CORDIAL
--SE O ALIENISTA tem razo, disse eu comigo, no haver muito que lastimar o Quincas
Borba;  uma questo de mais ou de menos. Contudo,  justo cuidar dele, e evitar que lhe
entrem no crebro manacos de outras paragens.
CAPTULO CLVI / ORGULHO DA SERVILIDADE
QUINCAS BORBA divergiu do alienista em relao ao meu criado.-- Pode-se, por imagem,
disse ele, atribuir ao teu criado a mania do ateniense, mas imagens no so idias nem
observaes tomadas  natureza. O que o teu criado tem  um sentimento nobre e
perfeitamente regido pelas leis do Humanitismo:  o orgulho da servilidade. A inteno dele
 mostrar que no  criado de qualquer.--Depois chamou a minha ateno para os cocheiros
de casa grande, mais empertigados que o amo, para os criados de hotel, cuja solicitude
obedece s variaes sociais da freguesia, etc. E concluiu que era tudo a expresso daquele
sentimento delicado e nobre, -- prova cabal de que muitas vezes o homem, ainda a engraxar
botas,  sublime.
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CAPTULO CLVII / FASE BRILHANTE
--SUBLIME s tu, bradei eu, lanando-lhe os braos ao pescoo.
Com efeito, era impossvel crer que um homem to profundo chegasse  demncia; foi o que
lhe disse aps o meu abrao, denunciando-lhe a suspeita do alienista. No posso descrever a
impresso que lhe fez a denncia; lembra-me que ele estremeceu e ficou muito plido.
Foi por esse tempo que eu me reconciliei outra vez com o Cotrim, sem chegar a saber a
causa do dissentimento. Reconciliao oportuna, porque a solido pesava-me, e a vida era
para mim a pior das fadigas, que  a fadiga sem trabalho. Pouco depois fui convidado por
ele a filiar-me numa Ordem Terceira; o que eu no fiz sem consultar o Quincas Borba:
--Vai, se queres, disse-me este, mas temporariamente. Eu trato de anexar  minha filosofia
uma parte dogmtica e litrgica. O Humanitismo h de ser tambm uma religio, a do
futuro, a nica verdadeira. O cristianismo  bom para as mulheres e os mendigos, e as outras
religies no valem mais do que essa: oram todas pela mesma vulgaridade ou fraqueza. O
paraso cristo  um digno mulo do paraso muulmano; e quanto ao nirvana de Buda no
passa de uma concepo de paralticos. Vers o que  a religio humanstica. A absoro
final, a fase contrativa,  a reconstituio da substncia, no o seu aniquilamento, etc. Vai
aonde te chamam; no esqueas, porm, que s o meu califa.
E vede agora a minha modstia; filiei-me na Ordem Terceira de ***, exerci ali alguns
cargos, foi essa a fase mais brilhante da minha vida. No obstante, calo-me, no digo nada,
no conto os meus servios, o que fiz aos pobres e aos enfermos, nem as recompensas que
recebi, nada, no digo absolutamente nada.
Talvez a economia social pudesse ganhar alguma cousa, se eu mostrasse como todo e
qualquer prmio estranho vale pouco ao lado do prmio subjetivo e imediato; mas seria
romper o silncio que jurei guardar neste ponto. Demais, os fenmenos da conscincia so
de difcil anlise; por outro lado, se contasse um, teria de contar todos os que a ele se
prendessem, e acabava fazendo um captulo de psicologia. Afirmo somente que foi a fase
mais brilhante da minha vida. Os quadros eram tristes; tinham a monotonia da desgraa, que
 to aborrecida como a do gozo, e talvez pior. Mas a alegria que se d  alma dos doentes e
dos pobres,  recompensa de algum valor: e no me digam que  negativa, por s receb-la o
obsequiado. No eu recebia-a de um modo reflexo, e ainda assim grande, to grande que me
dava excelente idia de mim mesmo.
CAPTUI.O CLVIII / DOUS ENCONTROS
No FIM de alguns anos, trs ou quatro, estava enfarado do ofcio, e deixei-o, no sem um
donativo importante, que me deu direito ao retrato na sacristia. No acabarei, porm, o
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captulo sem dizer que vi morrer no hospital da Ordem, adivinhem quem?.. . a linda
Marcela; e vi-a morrer no mesmo dia em que, visitando um cortio, para distribuir esmolas,
achei... Agora  que no so capazes de adivinhar. . . achei a flor da moita, Eugnia, a filha
de D. Eusbia e do Vilaa, to coxa como a deixara, e ainda mais triste.
Esta, ao reconhecer-me, ficou plida, e baixou os olhos; mas foi obra de um instante. Ergueu
logo a cabea, e fitou-me com muita dignidade. Compreendi que no receberia esmolas da
minha algibeira, e estendi-lhe a mo, como faria  esposa de um capitalista. Cortejou-me e
fechou-se no cubculo. Nunca mais a vi; no soube nada da vida dela, nem se a me era
morta, nem que desastre a trouxera a tamanha misria. Sei que continuava coxa e triste. Foi
com esta impresso profunda que cheguei ao hospital, onde Marcela entrara na vspera, e
onde a vi expirar meia hora depois, feia, magra, decrpita . . .
CAPTULO CLIX / SEMIDEMNCIA
COMPREENDI que estava velho, e precisava de uma fora; mas o Quincas Borba partira
seis meses antes para Minas Gerais, e levou consigo a melhor das filosofias. Voltou quatro
meses depois, e entrou-me em casa, certa manh, quase no estado em que eu o vira no
Passeio Pblico. A diferena  que o olhar era outro. Vinha demente. Contou-me que, para o
fim de aperfeioar o Humanitismo queimara o manuscrito todo e ia recome-lo. A parte
dogmtica ficava completa, embora no escrita; era a verdadeira religio do futuro.
--Juras por Humanitas? perguntou-me.
--Sabes que sim.
A voz mal podia sair-me do peito, e alis no tinha descoberto toda a cruel verdade. Quincas
Borba no s estava louco, mas sabia que estava louco, e esse resto de conscincia, como
uma frouxa lamparina no meio das trevas, complicava muito o horror da situao. Sabia-o, e
no se irritava contra o mal; ao contrrio, dizia-me que era ainda uma prova de Humanitas,
que assim brincava consigo mesmo. Recitava-me longos captulos do livro, e antfonas, e
litanias espirituais; chegou at a reproduzir uma dana sacra que inventara para as
cerimnias do Humanitismo. A graa lgubre com que ele levantava e sacudia as pernas era
singularmente fantstica. Outras vezes amuava-se a um canto, com os olhos fitos no ar, uns
olhos em que, de longe em longe, fulgurava um raio persistente da razo, triste como uma
lgrima...
Morreu pouco tempo depois, em minha casa, jurando e repetindo sempre que a dor era uma
iluso, e que Pangloss, o caluniado Pangloss, no era to tolo como o sups Voltaire.
CAPTULO CLX / DAS NEGATIVAS
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ENTRE A MORTE do Quincas Borba e a minha, mediram os sucessos narrados na primeira
parte do livro. O principal deles foi a inveno do emplasto Brs Cubas, que morreu
comigo, por causa da molstia que apanhei. Divino emplasto, tu me darias o primeiro lugar
entre os homens, acima da cincia e da riqueza, porque eras a genuna e direta inspirao do
Cu. O caso determinou o contrrio; e a vos ficais eternamente hipocondracos.
Este ltimo captulo  todo de negativas. No alcancei a celebridade do emplast6o, no fui
ministro, no fui califa, no conheci o casamento. Verdade  que, ao lado dessas faltas,
coube-me a boa fortuna de no comprar o po com o suor do meu rosto. Mais; no padeci a
morte de D. Plcida, nem a semidemncia do Quincas Borba. Somadas umas cousas e
outras, qualquer pessoa imaginar que no houve mngua nem sobra, e conseguintemente
que sa quite com a vida. E imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio,
achei-me com um pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: --
No tive filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa misria.
FIM
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